Dei uma passada hoje à tarde na Assembleia Legislativa. Fui dar um adeus ao “Maninho” Valter Bartholo que nos deixou.
Caramba, lá se foi o meu irmãozinho.
Ao vê-lo ali, com o semblante sereno, fiz uma regressão de 30 anos ou mais. Nos encontramos lá pelo bar “O Seresteiro”, onde meu irmãozinho Valter, com seu violão, que parecia uma orquestra, e aquele afinadíssimo vozeirão de dar inveja ao Nelson Gonçalves, entoava as músicas mais lindas que nós conhecíamos.
Que sensação de deslumbramento ele proporcionava, porque ali ele era soberano.
Depois o Maninho foi para Vila de Rondônia, para ser administrador daquele povoado e prepará-lo para ser município.
Trabalhava de sol a sol e o sorriso não lhe saía do rosto. Problemas, milhares de problemas, e o Irmãozinho ia se virando, com uma criatividade que causaria inveja a Bill Gates.
Aí foi criado o Município de Ji-Paraná e o Maninho, por merecimento, foi nomeado seu primeiro prefeito. Eu estava lá e o vi a correr de um lado para o outro, buscando a perfeição para o evento.
Tudo aconteceu dentro do figurino e de noite lá estávamos no Clube Vera Cruz, para um magnífico baile, que o Valter abriu, com aquele sorriso maroto de criança arteira e feliz, dançando uma linda valsa com com sua adorada Mãezinha, Dona Labibe.
Depois o Maninho entregou ao Canuto a administração de Ji-Paraná e voltou para Porto Velho.
Jerônimo Santana lhe deu uma enorme e espinhosa missão. Cuidar dos nossos “beraderos”. Foi criada uma tal de CEMAGUAM, e o Maninho cuidava dos Irmãozinhos do baixo Madeira, e dos do Vale do Guaporé. Enquanto isso não deixava de inovar, porque ele era um empreendedor.
Meu Irmãozinho Valter apresentou ao mundo o distrito de Surpresa, no município de Guajará-Mirim.
Sua religiosidade era comovente, principalmente com a Festa do Divino, no Vale do Guaporé.
Ele foi um administrador que adivinhava o próximo passo, a necessidade seguinte, e se antecipava a ela, na medida do possível.
Ele não era muito afeito aos trâmites burocráticos, que entravavam as necessárias realizações.
Quando meu Irmãozinho foi administrador de Vila de Rondônia, depois Ji-Paraná, aquela localidade era distrito de Porto Velho.
Havia necessidade de fechar as contas da administração distrital, para o início da administração municipal de Ji-Paraná, nos idos de 1977.
Os burocratas ficaram horrorizados com a prestação de contas do Maninho. Eu era Procurador Geral do Município mãe, Porto Velho, e tinha que dar parecer sobre a regularidade da prestação de contas.
Parece que há um pouco de folclore, mas talvez não fique muito longe disso, o que contavam sobre as finanças, lá em Vila de Rondônia. É que o Irmãozinho tinha em sua mesa duas gavetas. Uma para as receitas (dinheiro que entrava) e outra para as despesas (dinheiro que saía).
Quem tem rudimentos de finanças públicas vai se arrepiar lendo isso, mas era assim que o Maninho fazia.
Ele tinha o dinheiro ali na mão. Surgia uma necessidade ele tirava o dinheiro da gaveta e mandava fazer ou comprar o que era preciso e, no lugar do dinheiro entrava o recibo, a nota fiscal, ou o que fosse.
Como disse, os burocratas se escandalizaram e foram muito maus, cruéis mesmo, com o Irmãozinho, que não entendia o que estava acontecendo.
Bianco, Claudionor Roriz e, principalmente, Canuto, estiveram comigo, me relataram o que estava ocorrendo e pediram um olhar diferenciado sobre aqueles fatos. Claro que assim o fizemos.
Dependesse dos burocratas o Valter estaria preso.
Mas isso foi superado porque olhando a papelada, somando e dimininuindo, recibo por recibo, papel por papel, nota por nota, e cotejando cada documento de receita, a conta sempre zerava. Estava tudo certo.
Honestidade maior e mais pura nunca vi.
Depois meu Irmãozinho foi deputado, trabalhou legal em prol do povo, em especial dos ribeirinhos, sua grande paixão.
Na CEMAGUAM, que atendia aos moradores dos vales do Guaporé do Madeira, Valter Bartholo se entregou de corpo e alma.
Ele administrava conforme as necessidades das populações ribeirinhas, e seus atos de gestão eram os mesmos de quando ele administrou Vila de Rondônia.
Eu já estava no Tribunal de Contas e os processos de despesas da CEMAGUAM causavam arrepios aos técnicos e Conselheiros. Ocorreram decisões que condenavam o Irmãozinho. O motivo era sempre o mesmo, qual seja, o desatendimento às regras de realização das despesas públicas.
Era muito embaraçoso para nós, montados nos livros das leis, termos que sancionar o Velho companheiro. Ele comparecia ao Tribunal e explicava o que tinha feito e porque o fizera daquele jeito.
Apenas uma conclusão ocorria sempre. O Maninho não tinha se apropriado de nada, não tinha enriquecido, não tinha se locupletado. Pelo contrário, ele punha era dinheiro do bolso dele.
Uma das últimas vezes que o vi, foi quando o Município de Ji-Paraná completou 30 anos de criação.
O Prefeito Bianco e o Assis Canuto, vice-prefeito, prestaram uma homenagem ao Valter.
Ele já estava com sua visão bem comprometida, mas irradiava a felicidade típica daqueles que cumpriram sua missão.
Chamaram um coral de crianças de Ji-Paraná, colocaram uma cadeira no meio delas, onde o Maninho sentou e todos cantaram o hino da cidade de Ji-paraná, que foi composto pelo Valter.
Ele estava explodindo de emoção e de felicidade e para nós, que assistíamos, foi simplesmente de derreter os corações.
Hoje ele se foi e eu, depois de ter deixado rolar algumas lágrimas diante do seu corpo inerte, resolvi prestar-lhe esta derradeira homenagem.
Meu querido Irmãozinho, meu seresteiro inesquecível, vá para os braços de Deus e, daqui antecipo, se me for permitido, avalizo que ele possa te entregar a adminstação de qualquer coisa no reino celestial, pois, com certeza, farás um bom, honesto e justo trabalho. As contas sempre fecham.
Que tua Santa Mãezinha e todos os que são teus recebam graças, para uma resignação generosa ante os inafastáveis desígnios da vida humana.
Até breve Maninho.
Lindissima homenagem ao nosso inesquecível trovador Bartolo. Parabéns Dr. Amadeu, palavras inspiradas na sabedoria e que foram sublimadas pela emoção, pelo pelo carinho e pelo respeito à amizade.
Saudações vilhenenses, estimado amigo Dr. Amadeu.
Amigo antigo e querido, Roberto Píres, que bom te encontrar e sabê-lo bem. Generosas suas palavras com relação a mim e numa situação concordamos, o Walter Bartholo fez por merecer esta e muitas outras homenagens. Grande abraço.