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Aleppo cai, após massacre de civis; ONU convoca reunião de emergência

Na segunda-feira, forças leais ao ditador sírio, Bashar Al-Assad, teriam invadido casas e executado, à queima-roupa, os moradores de quatro distritos

A voz transparecia cansaço e desesperança. “Um genocídio está ocorrendo aqui na cidade. Cerca de 80 mil pessoas estão presas aqui, sem comida e sem atendimento médico. Precisamos de suprimentos hospitalares e de socorristas”, disse ao jornal Correio Braziliense Monther Etaky, 28 anos, designer e produtor no leste de Aleppo.

Confinados em uma área de apenas dois quilômetros quadrados, os civis aguardavam a morte até por volta das 20h de ontem (16h em Brasília), quando um cessar-fogo foi firmado.

Pouco depois, o governo russo anunciou a queda de Aleppo e o fim dos combates. Um acordo impulsionado pela Rússia e pela Turquia permitirá a retirada de moradores e de rebeldes com armas leves dos bairros sitiados, a partir das 5h de hoje (1h em Brasília).

Na segunda-feira, forças leais ao ditador sírio, Bashar Al-Assad, teriam invadido casas e executado, à queima-roupa, os moradores de quatro distritos. “Pelo menos 82 pessoas foram eliminadas nas últimas horas.

Nós estamos lutando pelos nossos direitos”, desabafou Etaky. “É a completa derrocada da humanidade”, lamentou Rupert Colville, porta-voz do Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU. Dos 82 mortos, há 11 mulheres e 13 crianças.

Após as informações sobre as execuções sumárias, o Conselho de Segurança da ONU convocou uma reunião de emergência, durante a qual os Estados Unidos pediram a presença de observadores internacionais para fiscalizarem a retirada de rebeldes. “O acordo entrará em vigor nas próximas horas. (…) A remoção de feridos e civis será feita primeiro. Depois, os rebeldes sairão com suas armas leves”, explicou à agência France-Presse Yasser Al-Yussef, membro do escritório político do grupo Nuredin Al-Zinki. Monther teme pelo futuro, duvida da paz e promete buscar justiça. Ele aposta que Aleppo ficará sob ocupação de forças sírias, iranianas e russas. “Eu não sei o que ocorrerá. Com base nas evidências de que dispomos, tentarei ir aos tribunais para punir o regime de Bashar Al-Assad e suas mentiras.”

O jornalista Rami Zien, 25 anos, contou ao Correio que, desde segunda-feira, “coisas indescritíveis” ocorreram na segunda maior cidade da Síria. “Nós assistimos a uma destruição em todos os bairros. Há pessoas sob os escombros e não existem ambulâncias. As últimas 24 horas foram de completa vergonha para o mundo”, lamentou o morador do leste de Aleppo. De acordo com ele, as tropas sírias e as milícias xiitas, entre elas o grupo libanês Hezbollah, realizaram detenções em massa nos bairros. “Se você é sortudo, acabava sendo recrutado. Se não tem sorte, era acusado de traição e executado.”

Suicídio

O horror em Aleppo beirou o inominável. Ayman Abdel Nour, diretor da ONG Syrian Christian for Peace e ex-amigo e ex-conselheiro de Al-Assad, confirmou à reportagem que mulheres preferiram o suicídio a serem estupradas pelos milicianos e pelos soldados de Damasco. “As forças pró-governo mataram várias famílias inteiras, além da equipe médica de um hospital. Muitas jovens garotas foram sequestradas, além de homens, recrutados à força”, relatou. Ele considera a queda de Aleppo “previsível”, ante o acordo assinado pela Rússia e pela Turquia para o deslocamento dos rebeldes. “Os massacres foram extensos e sem precedentes. A posição do regime de Al-Assad tende a endurecer. Metade da oposição defenderá a formação de um governo de unidade, enquanto a Rússia vai controlar a Síria”, prevê Abdel Nour.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ordenou aos governos da Siria, da Rússia e do Irã a urgente permissão para a saída dos civis de Aleppo e a distribuição de ajuda. Por sua vez, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) pediu a retirada de 100 crianças presas em um prédio da cidade e se disse “muito preocupado com as informações sobre execuções de civis, inclusive menores”. O fotógrafo Basem Ayoubi, 23 anos, disse ao Correio que se preparava para abandonar Aleppo hoje. “Vamos queimar nossas casas, para não deixá-las para os iranianos e os russos. Será uma partida triste, mas, um dia, regressaremos.”

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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