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Aos 82 anos, Russo dispara: “Se a Globo me mandar embora, eu morro lá dentro”

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Não é preciso mais que 10 minutos de conversa com o assistente de palco Russo para captar seu cacoete mais característico. Ao final de quase toda frase, com certa esperança e melancolia, ele solta um “e por aí vai…”. É algo simbólico para quem analisa o todo da situação. Foi assim que Russo guiou sua vida. Indo. Com anos de televisão, ele é testemunha da transformação dos bastidores daquilo que ainda lhe encanta os olhos. E por mais que tenha disposição de menino, é preciso força extra para aguentar o tranco da não-ficção.

Aos 82 anos, Antonio Pedro de Souza e Silva, seu nome de registro, encara dois ônibus diariamente para trafegar entre o bairro de Inhaúma, zona norte do Rio, até a portaria 2 do Projac, complexo de estúdios da Globo. Sem poder pegar peso, Russo atualmente é responsável por abrir o estúdio e acompanhar a gravação sentado do “The Voice” (ele também está na equipe do “Big Brother Brasil” e fez uma participação no quadro “Correio Feminino”, do “Fantástico”). Para completar, precisa pensar nos R$ 400 que gasta com remédios por mês, no aluguel de R$ 950 e nas despesas de Adriana, sua companheira, e os dois filhos dela. E o salário, segundo ele, apesar de mais de 40 anos de TV, é pequeno.

Em 2011, quando sofreu um infarto dentro do Projac, Russo foi encaminhado para o hospital e precisou colocar cinco pontes de safena. Na crise, ele agradeceu o apoio da emissora: “A Globo me deu toda a assistência. Me levaram para a enfermaria, para o hospital, e me ajudaram com os remédios, pagando no começo, e também com uma enfermeira quando fui para casa. O negócio é não entregar os pontos. O negócio é fazer seu trabalho, e eu faço meu trabalho até hoje. Até hoje ninguém reclama de mim, só escuto coisa boa. E por aí vai…”.

Russo tem olhos de menino quando fala da emissora. “Não tem páreo para a Globo. Não estou rebaixando as outras emissoras, mas a Globo faz tudo bonito, limpo”, disse. “Acontece que o pessoal pensa que hoje, quando entra na Globo, vira rei. Ainda mais esses ‘Coca-Cola’ aí, que são metidos a ser gostosos. Se fala comigo, eu respondo. Se não fala, tudo bem…”, completou.

Na sala de estar de sua casa, ele contou ao iG sobre o que viu e ouviu nesses 45 anos de TV.
Entre todos os mestres, Luciano Huck é o que domina seu coração nos dias de hoje. Sem graça, ele contou que nunca recebeu a visita de nenhum parceiro de trabalho, mas gostaria de convidar o marido de Angélica junto com o quadro “Lar Doce Lar”. “Ah, isso eu queria, sim…”, disse o veterano, que não tem casa própria. “Meu dinheiro não dá para comprar uma”, declarou. Disposição Russo tem. Vontade de viver, também. Um único pesadelo? Ser demitido. “Você sabe uma coisa? Eu estou cansado de falar isso, mas se a Globo me mandar embora, eu morro lá dentro. Morro. Juro.” Confira muito mais na entrevista abaixo:

iG:Como você está de saúde hoje?
Russo: Tive um infarto dentro da Globo, e agora estou bem para caramba. O negócio é a distância, porque aqui (sua casa) é muito longe da Globo. Eu tenho que ir todo dia. Estou no “The Voice” e no “Big Brother Brasil”. E qualquer gravação que acontece desses programas eu preciso ir para abrir o estúdio e, assim, acontecer a gravação. E vai por aí…

iG: Você ainda tem disposição para encarar essa viagem todos os dias?
Russo: Ainda tenho. Essa paixão vem do carinho que eu tenho na Globo, de todo mundo… Todo mundo bate papo comigo, me cumprimenta… Na rua me reconhecem pra caramba. Tem gente que vem aqui na minha porta tirar fotografia, bater papo comigo. E vai por aí.

iG: Como foi que você começou a trabalhar com comunicação?
Russo: Eu comecei primeiro na Tupi, na Urca, aí peguei a Continental, Excelsior, e de lá fui pra Globo com o Chacrinha. Lá tem um boom (tipo de microfone com longo cabo para gravação) que só eu sei mexer. Os caras seguram errado aquilo e ficam com a maior dor nas costas.

iG: Mas você ainda aguenta carregar aquele peso?
Russo: Aguentar, eu aguento. Mas não posso mais, não. O máximo que faço agora é ficar sentado dentro do estúdio esperando as gravações acabarem.

iG: Vamos falar um pouco da sua infância. Você nasceu em Santa Catarina, né?
Russo: Santa Catarina? Eu nasci não foi em Petrópolis? Sabe que eu já me esqueci….? Ah, foi em Santa Catarina mesmo. Mas eu vim há muito tempo para o Rio.

iG: E essa história de beber vinagre na rua para ganhar dinheiro?
Russo: Pois é, eu bebia vinagre pra fortalecer. Muita gente queria sair comigo na rua, então às vezes eu tomava um copinho de vinagre. Era gostoso (Adriana, a mulher de Russo, o corrige nesse momento, dizendo que ele bebia para aparecer e ganhar dinheiro para a família. Inclusive, hoje ele tem “ódio de vinagre e só tempera a salada com sal e azeite”).

iG: Como começou sua história com o circo?
Russo: Primeiro eu trabalhei no circo no Jardim Botânico, com o Carequinha, e depois comecei a ser trapezista. Eu perdi meus dentes foi num tombo que eu levei. Caí de boca no picadeiro. Eu estava preso. Não sei o que deu no cara que estava me segurando, que me deixou cair. Quando eu cai, foi tudo. Nunca mais botei dente. E quem quiser gostar de mim assim, goste. Quem não quer gostar, não posso fazer nada. Eu sou esse cara que você está vendo aqui, sou esse cara humilde, ganho pouco e vou por aí…

iG: Você conheceu o Chacrinha nessa época?
Russo: Foi na Tupi, brincando com ele. Eu até hoje conheço a família dele todinha. E eu sinto falta dele, porque ele era um cara muito amigo, bem bacana. Quem dera tivesse muitos Chacrinhas por aí. E vai por aí…

iG: Como era sua relação com as chacretes?
Rusos: Eu me dava muito com as chacretes. Elas sumiram, né? Eu já namorei a Índia Potira. Ela me xingava de frouxo, de isso, de aquilo… Aí eu conheci essa pessoa aí (aponta para Adriana). Eu a conheci no programa da Xuxa. Depois que o Chacrinha morreu eu fiquei lá na Xuxa o maior tempão. Ela é muito bacana. E eu conheci essa aí (mulher) na plateia, e estou com ela até hoje. O Chacrinha não podia ver furo no programa dele. Ele dava esporro em todo mundo.

iG: E como era com o Faustão?
Russo: O Faustão é um amigo também. Só que ele é muito paulista, gosta muito de paulistas. O Luciano Huck, não. Ele é ‘pedra 90’. Quem dera tivesse muito animador como o Luciano Huck. Basta você ver o que ele faz no ar. Você vê o que ele faz por esse público aí? Negócio de carro, negócio de casa… Quem dera o Luciano Huck me desse uma casa.

iG: Você ainda encontra com ele? Ele é seu amigo?
Russo: Eu trabalhei muito tempo com ele, desde que ele começou na Globo. Ele fala comigo sempre que me vê. Às vezes me dá até um trocado. Não dá aquele trocado grande, não. É de R$ 100 pra baixo. Mas eu não peço, não. É do coração dele. É a amizade que ele tem com todo mundo.

iG: E a Xuxa?
Russo: A Xuxa é uma loira legal pra caraca. Quem me dera eu tivesse uma mulher como aquela. Está rindo do quê? Eu ainda estou bem pra caraca. Eu já tive uma namorada e tive uma filha com ela que é minha cara. Palavra de homem. Quer ver meu neto? É a minha cara (diz, mostrando na carteira a foto de Cristian Davi). Estou devendo uma visita pra ele.

iG: Para você, quem é o grande apresentador da TV brasileira hoje em dia?
Russo: É o Huck. Ele tem tudo que precisa. Ele tem as meninas que bailam com ele, que são educadas pra caramba. Tem a turma que trabalha com ele, que é legal pra caraca. E tem o carinho que tem que ter com o público.

iG: Nos bastidores, você enxerga muita diferença dos atuais funcionários da TV (apresentadores, jornalistas, atores, diretores) para os de antigamente?
Russo: Não tem páreo para a Globo. Não estou rebaixando as outras emissoras, mas a Globo faz tudo bonito, limpo. Acontece que o pessoal pensa que hoje, quando entra na Globo, vira rei. Ainda mais esses ‘Coca-Cola’ aí, que são metidos a ser gostosos. Se fala comigo, eu respondo. Se não fala, tudo bem…

iG: Desses todos com quem você trabalhou, algum virou amigo íntimo?
Russo: Não, aqui não vem ninguém, não. Eu sinto falta disso…

iG: E quem você convidaria? O Huck com o “Lar Doce Lar”?
Russo: Ah, isso eu queria, sim… Meu dinheiro não dá para casa própria.

iG: Quando você sofreu o infarto, você ficou com medo de morrer?
Russo: Qualquer um tem, né? Eu só fico pensando como vou deixar meus netos e a minha filha, a Fernanda, que é minha cara, e não enxergar mais o mundo. Eu sou apaixonado pela vida. Não dá pra gente dar a mão à palmatória, não. Senão piora mais ainda. Eu estou andando, estou bem… Só tenho dor nas costas, mas de resto está tudo ótimo.

iG: Você planeja realizar mais algum sonho?
Russo: Não quero realizar mais nada… O que eu já quis já realizei. Já fiz muita coisa na vida. Eu só não sou de falar pra caramba. Agora eu estou meio nervosinho (fala, rindo, por causa da entrevista).

iG: E você quer trabalhar até quando?
Russo: Eu vou trabalhar até Deus me matar. Deus que sabe. Você sabe uma coisa? Eu estou cansado de falar isso. Se a Globo me mandar embora, eu morro lá dentro. Morro. Juro.

Entrevista concedida ao portal IG

 

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