Apuração em Curitiba traz risco para Dilma, avaliam ministros

Kennedy  Alencar

Em reunião ontem da presidente Dilma Rousseff com ministros do núcleo político, houve uma análise detalhada da entrevista dada na sexta-feira pelos investigadores da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba. Na avaliação de ministros, o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima fez afirmações que causaram preocupação.

A principal delas foi a de que a presidente poderia ser beneficiária de um esquema de compra de apoio político que teve origem em contratos da Petrobras. Apesar de os investigadores de Curitiba não poderem investigar a presidente, que tem foro privilegiado, toda a linha de raciocínio exposta por Santos Lima para responsabilizar Lula levaria à mesma conclusão em relação a Dilma.

A presidente só pode ser investigada pelo procurador-geral da República no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, a investigação da Lava Jato em Curitiba pode compartilhar eventuais evidências e provas com a Procuradoria Geral da República e o STF.

Nas palavras de um ministro, o procurador da República deu declarações que sinalizam a possibilidade de uso da teoria do domínio do fato. O procurador disse que a Lava Jato estava apurando a hipótese de o esquema de corrupção ter beneficiado o “chefe do governo” na época de Lula. Depois, declarou que a presidente Dilma também poderia ser “beneficiária” do mesmo esquema.

Segundo ministros, Dilma afirmou que não pesam contra ela acusações de benefício pessoal, como sustentaram os investigadores em relação a Lula, citando obras no sítio de Atibaia, por exemplo.

Apesar dessa diferença, que Dilma julga importante, ministros petistas creem que, se Lula for condenado em Curitiba, será aberta uma porta para a eventual responsabilização da presidente da República.

A entrevista de sexta dos investigadores foi revista com lupa por auxiliares de Dilma, que enxergaram, nas entrelinhas, risco para o governo. Esse é um temor manifestado de forma reservada por ministros, que estão pessimistas em relação ao impacto da Lava Jato sobre o governo.

Ministros consideram que as próximas semanas serão decisivas, com a possibilidade de o pedido de impeachment começar a tramitar na Câmara. Há ainda expectativa em relação aos efeitos das manifestações contra e a favor do governo, especialmente se houver confrontos nas ruas.

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Reserva federal

De forma reservada, o Ministério da Fazenda tem discutido medidas alternativas à recriação da CPMF e à reforma da Previdência. No discurso público, o governo deverá continuar a defender essas medidas, mas sabe que, no atual clima de guerra política, dificilmente serão aprovadas neste ano.

Por isso, a Fazenda estuda alguma medida que possa ter impacto fiscal forte. Seria uma medida para tentar mostrar ao mercado que o governo não assistirá inerte à possibilidade de crescimento explosivo da dívida pública. Seria um medida que teria a finalidade de tentar acalmar o mercado, que desconfia da capacidade do governo de controlar o crescimento da dívida.

O país atravessa um momento de escalada da guerra política, o que é muito ruim. Seria importante que governo e oposição separassem um pouco a batalha política da econômica, mas bom senso anda em falta na classe política brasileira.

Muryllo F. Bastos é advogado, editor do site e Painel Político. Natural de Vilhena.

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