Assembleia fecha o cerco contra frigoríficos em Rondônia que causam prejuízos de até R$ 1 bi ao estado

Ao participar de reunião entre pecuaristas, representantes de frigoríficos, Governo, bancada federal e deputados estaduais, o presidente da Assembleia Legislativa, Maurão de Carvalho (PP),  garantiu que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), criada na Casa para apurar uma suposta formação de cartel pelos frigoríficos em Rondônia, vai ser instalada e se aprofundar nas investigações. “Nesta terça-feira (16), voltamos do recesso e a CPI será instalada. Um dos pontos principais que iremos apurar é a contrapartida dos frigoríficos, beneficiados com isenção fiscal de até 85%. Ou seja, o Governo abre mão de recolher imposto, mas em troca as indústrias abatedouras precisam cumprir uma série de pré-requisitos. Vamos ver se isso está sendo cumprido”, destacou.

O presidente disse ainda que “a CPI é séria e vamos tomar as medidas legais necessárias, para evitar que Rondônia continue tendo prejuízos. A estimativa é de que R$ 1 bilhão deixou de circular, no ano passado, na nossa economia, em razão dessa queda inexplicável na arroba do boi”. A reunião, no Palácio Rio Madeira, em Porto Velho, foi mais uma ação do “Grito da Pecuária”, organizado por entidades representantes dos criadores de Rondônia, com apoio da Assembleia Legislativa e contou com as presenças do governador Confúcio Moura (PMDB),  do senador Valdir Raupp (PMDB), secretários estaduais e criadores de Vilhena a Porto Velho.

 

“Defendemos um preço justo e equilibrado da nossa carne, que tem uma qualidade alta e com a garantia de sanidade do rebanho. Sem nenhuma explicação, no começo de junho do ano passado, a arroba caiu de R$ 146,00 para R$ 115,00, de um dia para outro. Em nenhuma outra região do país houve essa queda brusca”, observou.

[su_frame align=”right”] [/su_frame]O presidente cobrou dos representantes dos frigoríficos uma justificativa ao baixo preço da arroba. “Perdermos para o Pará, que sempre teve a arroba mais barata do país, é inaceitável, pois temos um produto de alta qualidade. Essa explicação de que a queda nas exportações para a Rússia influenciou na diminuição do preço em Rondônia, não me convence, nem à maioria dos pecuaristas aqui presentes”, completou.

Maurão lembrou que a Assembleia, no final do ano passado, através da Comissão de Agricultura, tentou mediar um acordo entre criadores e o setor frigorífico, sem sucesso. “Os representantes dos frigoríficos não enviaram nenhum representante.  Também pudera, estão ganhando dinheiro como nunca ganharam antes. A arroba baixou R$ 30,00 de uma vez, mas a carne nos açougues e mercados não baixou, pelo contrário. Tem alguma coisa errada e por isso criamos a CPI, para nos aprofundarmos nesse tema vital para a economia de Rondônia”, acrescentou.

Maurão colocou em discussão a proposta de assegurar um preço mínimo na arroba do boi, com uma redução de até 10% da média de preço praticado em São Paulo, pelos frigoríficos com incentivos fiscais. “Vamos trabalhar em conjunto com o Governo a construção de um projeto de lei neste sentido, como uma ação inicial”, informou.

Governador cobra

O governador fez uma cobrança direta aos frigoríficos: a recomposição dos preços da arroba do boi, para os patamares do começo de junho do ano passado. “Qual a explicação para essa queda, de um dia para outro, de R$ 30,00 na arroba do boi? Os preços precisam ser corrigidos de imediato, voltando ao patamar de junho passado. O Executivo vai fazer o que for possível e necessário para que haja um equilíbrio no setor”, disse Confúcio.

Produtores se manifestam

Em seguida, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Rondônia (Faperon), Hélio Dias, falou sobre as dificuldades que os criadores enfrentam e apontou uma pauta de demandas. “A água chegou ao pescoço, não dá mais para suportar. Melhoramos nosso rebanho e nos últimos sete meses, vimos o preço de a arroba despencar. Sempre a média era de até 10% do valor da arroba em São Paulo. Hoje, esta diferença está em torno de R$ 31,00. Foi uma manobra para alinhamento dos preços e isso prejudica Rondônia”, denunciou.

Após reuniões em Vilhena, Cacoal, Ji-Paraná, Jaru, Ariquemes e Porto Velho, no mês passado, os criadores definiram uma pauta de reivindicações, que foi apresentada na reunião. A redução da pauta do boi, da vaca e do bezerro para zero, para a venda em outros Estados; a revisão dos incentivos fiscais aos frigoríficos; o estímulo à abertura ou reabertura de plantas frigoríficas, facilitar a implantação de pequenas unidades de abate e aferição das balanças dos frigoríficos, foram algumas das propostas. O presidente da Associação dos Pecuaristas de Rondônia, Adélio [su_frame align=”right”] [/su_frame]Barofaldi, mostrou dados sobre o crescimento da pecuária no Estado. “Aproximadamente 65% dos criadores têm em média até 100 cabeças. São eles que mais sentem a queda no preço da arroba. A perda em um boi gordo chega a até R$ 500,00. Por isso, muitos estão vendendo o bezerro ou o boi em pé para outros Estados”, relatou.

Frigoríficos tentam se explicar

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Antônio Jorge Camardelli, disse que uma das razões para o baixo preço da arroba do boi em Rondônia é a diminuição das exportações para a Rússia. “Com a crise russa, houve uma redução no volume de carne exportada, além de a moeda russa ter se desvalorizado”. Segundo ele, hoje Rondônia tem venda liberada para poucos países, como Chile, Jordânia, Paraguai e Cingapura, mercados que, na avaliação dele, não consome carnes nobres. “Não temos caixa preta, mas sem mercados robustos para absorver a nossa carne, não teremos preços competitivos. Estamos distantes dos centros exportadores e isso encarece o produto”, ponderou. Segundo Camardelli, a saída é assegurar a homologação para a venda da carne à União Européia, cuja inspeção está prevista para maio. “Com isso, vão ser abertos mercados como o da China, da Coréia do Sul e do Japão, que consomem cortes mais nobres e valorizados. Mas, eles só compram de países já homologados junto à União Européia”, completou. Ele cobrou mais fiscais agropecuários e veterinários, por parte do Ministério da Agricultura (Mapa), como forma de agilizar essa homologação. “O mercado norte-americano também está se abrindo para Rondônia, mas precisamos mostrar capacidade de fiscalização do abate”, alertou.

Renato Costa, representante do grupo JBS Friboi, justificou como um dos fatores para a queda no preço da arroba, o fato de o Irã ter deixado de comprar a carne rondoniense. “Esse foi mais um fator que reduziu a nossa competitividade. Muitos falaram em abrir plantas frigoríficas, mas isso não é indicado, pois o custo de manutenção é muito alto e não compensaria”, disse ele, rebatendo acusações de que o Friboi compra plantas e as mantém fechadas. Já Luiz Freitas, do frigorífico Tangará, explicou que o preço da carne no Pará se valorizou, pois agora é exportada para o Nordeste. “O Sudeste não atende mais o Nordeste e o Pará aproveita esse mercado, que não enfrenta crise”, argumentou.

Produtores rebatem

Em seguida, produtores reclamaram das justificativas. A alegação de todos é de que apenas 80% da carne abatida em Rondônia são destinadas a exportação. “Com o dólar em alta e a nossa carne comercializada em sua maioria no mercado interno, como aceitar que foi a redução na venda para a Rússia que derrubou os preços?”, questionou Barofaldi. Maurão lembrou que a arroba da carne em Rondônia despencou de preço em junho, enquanto o Irã deixou de comprar carne apenas no final do ano. “Mais uma vez, é uma explicação sem sentido, por isso precisamos ir além, com a CPI, para esclarecer isso tudo”, garantiu. Uma nova reunião entre pecuaristas, Governo e os frigoríficos deverá ocorrer no próximo dia 25, em local a ser definido. A pauta de reivindicação será estudada pelos frigoríficos e o Executivo também vai proceder a estudos sobre o setor.

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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