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Bióloga faz registro inédito de ataque de jiboia a Bugiu em Rondônia

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O primeiro ataque de uma serpente a um bugio de que se tem registro na ciência foi feito por uma bióloga brasileira em Rondônia no ano passado (2013). O caso inédito, descrito em um artigo recém-aprovado pela revista Primates, tem atraído interesse de especialistas internacionais.

O flagrante – que primatólogos acreditam acontecer com regularidade na natureza, apesar de nunca antes ter sido fotografado – apenas foi possível porque a pesquisadora havia habituado os animais à sua presença na região, uma área florestal em Rondônia, assim permitindo seu comportamento natural. O macaco, uma fêmea adulta com pelo menos quatro quilos, foi devorado por uma jiboia em cima de uma árvore a 7,5 metros de altura.

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Fêmea adulta de bugio é devorada por uma jiboia de aproximadamente 2 metros em cima de uma árvore em Rolim de Moura, Rondônia. Esse é o primeiro registro de ataque de uma serpente a um macaco de grande porte nas Américas
O ataque foi registrado pela mestranda em zoologia Erika Patrícia Quintino durante sua pesquisa de campo sobre o comportamento do bugio-de-Purús (Alouatta puruensis), espécie que só existe na América Latina e ainda não foi descrita em nenhum trabalho científico sistemático. O episódio histórico para a primatologia mundial foi fotografado e filmado por Erika em um fragmento de floresta com 2,5 hectares no município de Rolim de Moura. A estudante da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) não esperava que fosse presenciar a ação.

“Para mim foi uma surpresa, eu nem imaginava que ninguém tinha feito esses registros”, afirmou ela por telefone ao Terra direto de Rondônia. “Eu sabia da existência (de jiboias) nessa região, mas não tinha visto nenhum predador desde que comecei a acompanhar os bugios”, disse Erika.

A pesquisadora descreve que seguia os bugios havia aproximadamente 15 dias, observando seus hábitos, quando flagrou o ataque. “Eu ia seguindo eles aonde fossem, passava o dia inteiro com eles: saía cedinho e acompanha até tarde, na hora de dormirem. No outro dia, voltava de manhã e já sabia onde estavam, porque tinha visto onde eles foram dormir à noite. Eu estava habituando o grupo de bugios até eles se acostumarem comigo.”
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Quando já havia adaptado sua rotina à dos macacos, Erika testemunhou a ação e fez o registro inédito. “Uma das fêmeas desceu sozinha para uma vegetação um pouco mais baixa, mas eu estava cuidando do restante do grupo. Foi então que ouvi o grito e fui ver o que era. Eu estava sempre com a câmera ao lado, então comecei a fotografar e filmar”, relata a bióloga.

Os pesquisadores acreditam que esse é o primeiro registro de predação de um macaco de grande porte das Américas por uma serpente
Ataques de serpentes a macacos já haviam sido descritos pela ciência, de acordo com pesquisadores, porém até então não havia registro de um animal de grande porte sendo predado por uma jiboia (Boa constrictor) – ou qualquer outra espécie de cobra -, ainda mais em cima de uma árvore. O orientador de Erika, Júlio César Bicca-Marques, descreve que leu a respeito de ataques de aves-de-rapina, como a harpia, em árvores e sobre predação de macacos-prego por serpentes no chão, não em um ambiente arbóreo.

“Existia uma confiança no meio acadêmico de que esses macacos não seriam vulneráveis a serpentes, mas flagramos um dos maiores macacos das Américas sendo predado. Agora acreditamos que, em áreas mais conservadas, esse tipo de ataque é mais comum do que imaginávamos”, relata o primatólogo. Ele exalta o processo de habituação vivido pela bióloga ao longo de sua pesquisa como fator fundamental para o registro. “A própria presença do pesquisador afugenta os predadores – então onças e outro bichos que subiriam em árvore não chegam nem perto. O predador foge do humano, e isso diminui a nossa chance de ver o caso.”

“Para se ter um registro fiel do que os bichos fazem, eles não podem estranhar a presença (do pesquisador) ali. Interações como essa provavelmente não são tão incomuns, mas são difíceis de se observar”, afirmou ele. “A macaca deu azar, mas a pesquisadora deu sorte de presenciar algo tão raro”, resume Bicca-Marques.
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O ataque aconteceu em cima de uma árvore a 7,5 metros de altura – o que provavelmente só foi possível por se tratar de uma jiboia adulta jovem, considerada também um animal arborícola (que vive em árvores)

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