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Brazilquistão e o escândalo da “Petrolbraz” – Luiz Flávio Gomes

Saindo do meu obscuro retiro, depois de dois anos de intensa e concentrada dedicação para entender as tradições, os costumes e a organização social desse encantador, mas complicadíssimo país, chamado Brazilquistão (de paisagem formosa inigualável, mas perdido e exaurido numa ilha que fica no coração do Atlântico entre Portugal e a linha do Equador), ouso erguer minha voz (ainda que muitas vezes solitária) para reprovar e censurar o vício, o crime e os malfeitos generalizados, sobretudo dos seus líderes (se é que assim ainda podem ser chamados), que estão a merecer algumas humildes, mas sinceras advertências.

Chega um momento em que todos que pensam no bem comum da polis (algo mais que uma meia dúzia, em cujos ouvidos ainda ecoam as lições de Aristóteles) não conseguem deixar de disseminar conselhos aos que paulatinamente, mas ao mesmo tempo obstinamente, nos arrastaram à conjuntura indescritivelmente deplorável e vergonhosa em que nos encontramos há séculos, mas que parece piorar a cada dia. Nesses últimos dias, aqui no Brazilquistão, o tema predileto dos habitantes portadores de pelo menos dois neurônios (acachapante minoria!), divididos 50/50 entre céticos e críticos apaixonados, tem sido acompanhar atentamente os capítulos diários do novelão corruptivo da Petrolbraz, que nas contas do departamento de estatísticas é o trilionésimo escândalo da espécie neste pobre, mas maravilhoso e futurista País.

O efeito desse escândalo, no entanto, pelo que dizem, é diferente, porque tem tudo para ser um dos mais devastadores da história desta sofrida e maltratada Ilha. Com efeito, somente na delação de um ex-diretor da empresa petrolífera fundada na década de 50, que está nas mãos da Corte Suprema, pelo que os informados propagam, já constam os nomes de 25 deputados, 6 senadores, alguns ministros e 6 governadores (ou ex-governadores). Todos, evidentemente, negam qualquer participação nas falcatruas (e, pelas normas jurídicas vigentes, são presumidos inocentes, até prova em contrário). A presunção de inocência, de qualquer modo, não impede a prisão preventiva, se presentes seus requisitos legais.

Se somados os políticos mendazes (sempre se pede desculpa ao estimado leitor pelos pleonasmos) às dezenas de empreiteiras envolvidas, doleiros e eventualmente alguns banqueiros, particularmente aquelas que são reconhecidas como contumazes frequentadoras dos meandros da ladroagem do dinheiro público, calcula-se a expedição de uns 50 ou 60 mandados de prisão (muitos ilegais, certamente, mas o impacto será contundente). Que os suplentes se preparem. Nas últimas eleições, ao que tudo indica, não só foi eleito o Congresso mais conservador desde que os militares bateram asas e voaram, senão também o mais larápio, o mais indigno e degenerado de toda a história da nação (se é que se pode quantificar a arte de furtar nos Congressos Nacionais do mundo todo, tal como demonstra o livro Nobre Deputado).

Se a moda repelente, mas frutífera da delação pegar, é de se imaginar a maior corrente da felicidade que já se viu, pois cada um vai incriminar incontáveis outras pessoas (tudo começa pelo escalão de cima, depois vem o segundo escalão e por aí vai, até chegar às profundezas do pré-sal). Se um publicitário, políticos e banqueiros estão na cadeia (algo nunca jamais visto por estas bandas da tropicália sobre-equatorial), tudo agora pode ocorrer neste nosso esgarçado e fragilizado País, reconhecido mundialmente como o paraíso da impunidade em razão da fraqueza das suas instituições. O interesse maior, dizem os informados, é chegar nos corruptores.

Outro efeito que o escândalo da Petrolbraz deve gerar (todas as casas de apostas sinalizam isso) é a imediata cessação do financiamento empresarial das campanhas eleitorais, que se transformou num balcão de negócios a fazer inveja a algumas manipulações de bolsas de valores. O convencimento geral é de que não tem mais jeito: é uma pouca-vergonha que tem que acabar porque o financiador não doa coisa nenhuma, faz investimento (para cada R$1 real doado, há retorno de R$ 8 reais). Os censores dizem que nem vai ser necessário continuar com o abaixo-assinado que corre pelo País para que o ministro da Corte Máxima devolva o processo engavetado, onde já se decidia (por 6 a 1) pela proibição do financiamento empresarial das campanhas.

O tom de desalento deste nosso diário brazilquistanês é notório, posto que o que reina em suas páginas são o desgosto e a descrença que manifesta a respeito das coisas e dos humanos. Mas também pela reprovação, pela censura, pela expressão de sentimentos fatalistas se pode melhorar uma nação. Que Brazilquistão seja exemplo para outros países carente de instituições e tradições sólidas, acima ou abaixo da linha do equador.

 

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