Painel Político
A maior agência de notícias em seu Whatsapp do Brasil

Cacoal: A educação, os palestrantes e a pedagogia da maionese

0
O município de Cacoal é considerado por muitas pessoas como uma referência da educação do estado de Rondônia, especialmente pelo fato de concentrar uma quantidade de cursos de graduação universitária que atende toda a região central do estado e onde vivem centenas de estudantes de várias outras regiões do estado, além de muitos que vieram de outros estados. Essa realidade também implica dizer que o município tem excelentes professores em todas as áreas do ensino, sendo que muitos deles poderiam ser aproveitados para atuar em palestras e encontros pedagógicos, para o aperfeiçoamento de outros professores. Mas não é esta a realidade; sempre aparece na cidade algum leigo para dizer um monte de bobagens que somente servem para irritar os profissionais, como aconteceu esta semana…
Os alunos, professores, vereadores e empresários da cidade foram chamados às pressas para ouvir a palestra do ministro José Barroso Filho, que é membro do Superior Tribunal Militar. No convite estava escrito que o tal palestrante trazia para o estado de Rondônia a “Caravana da Educação”.
Esses nomes bonitos sempre atraem o governador Confúcio Moura e, certamente, ele estava eufórico com a visita do eminente educador ao nosso estado. Quando eu vi aquele barulho todo, antes da chegada do palestrante, sinceramente me lembrei da visita do professor Paulo Freire ao estado, em meados da década de 90. Naquela ocasião dezenas de professores de todos os lugares de Rondônia se deslocaram para a capital. Os professores pagaram passagem para ouvir Paulo Freire. Como era de se esperar, ele simplesmente deu uma aula genial no auditório da UNIR. Eu estava lá! Confesso que ao ouvir o ministro do Tribunal Militar falando esta semana, imaginei o túmulo de Paulo Freire revirando, porque fazia muito tempo que eu não via uma coisa tão chata…
Alguns desses “palestrantes” que visitam nosso estado deveriam ter o cuidado de estudar um pouco, antes de vir. Pelo menos o básico sobre a Geografia, Sociologia e Geopolítica do estado. Eles viajam muito na maionese, falam muitas bobagens e pensam que todo mundo aqui no estado é idiota. Tem uma dica infalível sobre essas situações: se algumas pessoas são obrigadas a preencher cadeiras em auditórios, com certeza, a palestra não tem nada de interessante, além do que, se houver muito estudante do ensino básico uniformizado, eles foram levados como o gado é levado para o abate.
Esse tipo de atitude é muito comum em Rondônia e costuma ser praticado em larga escala. Essas palestras não contribuem para aprimorar o conhecimento dos professores e criam situações desnecessárias. Durante todo o tempo em que falou no plenário da Câmara de Cacoal, o ministro do Superior tribunal Militar apenas tentou desconstruir o trabalho dos professores, sem saber que existem escolas em Cacoal com excelentes índices de qualidade nas avaliações do MEC. Ele começou falar antes das 10 horas da manhã; parou de falar às 13:40 e não abriu para que nenhuma pessoa desse opinião. Foi um monólogo chato e sem nenhuma novidade.
Sem ouvir as pessoas que estavam no auditório, ele voltou para o conforto do seu gabinete em Brasília, sem conhecer a realidade educacional de Cacoal. Rondônia tem centenas de professores que fariam muito melhor…
Aliás, não é a primeira vez que um leigo vem ao estado falar sobre a educação e “vomitar receitas prontas” sobre como devem trabalhar os professores. A confusão seria garantida, se um professor de Rondônia, ou de outro estado, fosse ao Superior Tribunal Militar, dizer como devem atuar os ministros. Até Mangabeira Unger já veio a Rondônia dar opiniões sobre a educação, isso sem esquecer do colunista da revista Veja Cláudio de Moura e Castro.
Nenhuma dessas pessoas conhece a realidade das escolas brasileiras, nenhuma dessas pessoas conhece a realidade das escolas de Rondônia e, o que é pior, essas pessoas nunca atuaram no Ensino Básico do país. Talvez seja por isso que o ministro José Barroso Filho disse tantas bobagens. Em nenhum momento o ministro falou da falta de estrutura nas escolas públicas, em nenhum momento ele explicou por que o governo do presidente postiço Michel Temer quer tirar mais de 100 milhões do orçamento da educação e transferir para a aquisição de passaporte.
A educação deve ser o único setor profissional que aceita esse monte de leigos ditando regras e receitas. O ministro do Superior Tribunal Militar deveria ir ao Rio de Janeiro, reunir os policiais militares e explicar por que existem tantos militares do estado envolvidos com o crime, mas é muito mais fácil visitar a Amazônia e pregar a reinvenção da roda, como se aqui somente existissem os índios ainda não contactados, como disse outro ministro brasileiro.
Quando Michel temer foi julgado no TSE, um dos ministros disse que só quem não sabia que a Odebrecht havia feito delação eram os índios não contactados da Amazônia. No caso do ministro que veio a Cacoal essa semana, ensinar os professores como devemos dar aula, ele disse que já trabalhou em um dos “quatro” estados da Amazônia, mas não lembrava qual foi. Qualquer aluno das séries iniciais sabe que a Amazônia não tem apenas quatro estados e que essa informação é muito básica. A Amazônia Legal tem 09 estados e a Região Amazônica possui 07 estados. Isso o ministro palestrante precisa estudar.
Finalmente, não podemos aceitar que a educação brasileira, já em frangalhos, seja discutida por leigos que somente atendem a delírios de políticos e governantes sem compromisso com a formação de nossas crianças, nossos jovens e adultos. Nossa educação somente atingirá os objetivos que busca, quando for um espaço onde os debates são realizados entre profissionais da educação, alunos e pais de alunos, sem permitir que pessoas sem a formação necessária queiram ditar os caminhos. Caso o professor Paulo Freire tivesse ouvido a palestra daquele lunático ministro do Superior Tribunal Militar, ele certamente teria sido inspirado a escrever mais um de seus brilhantes livros. Neste caso, seria, certamente, a “Pedagogia da Maionese”… Tenho dito!!!
FRANCISCO XAVIER GOMES
Professor da Rede Estadual
Comentários
Carregando