A carta mais difícil que escrevi – Por Reginaldo Trindade

Caríssimos Irmãos, Com o coração apertado, comunico que a 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal decidiu, em 31.08.2017, por nos afastar formalmente do trabalho de defesa do Povo Cinta Larga.

Caríssimos Irmãos, Com o coração apertado, comunico que a 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal decidiu, em 31.08.2017, por nos afastar formalmente do trabalho de defesa do Povo Cinta Larga, ordenando a remessa de todos os feitos à Procuradoria da República em Vilhena/RO no prazo máximo de 120 dias.

Considerando que é muito difícil que o Conselho Superior, a quem cabe dar a palavra final, decida contra o colegiado que tem o papel de orientar, no âmbito da instituição, os rumos da questão indígena; estaremos vivenciando, por mais algumas semanas, os últimos dias de um trabalho iniciado em abril de 2004.

Nesses dezesseis anos e meio de intenso trabalho corremos toda sorte de riscos, inclusive da incompreensão e do preconceito. Foram muitos os aprendizados, as emoções, as angústias. O desencanto que nos assombrou, no entanto, não nos levou a esperança. Jamais!

Estávamos em nosso melhor momento, já tendo ecoado nossa luta por todo o Estado de Rondônia e sonhando alçar voos ainda mais altos no país e quiçá no mundo, quando, em abril de 2016, tivemos conhecimento de que o trabalho de uma vida havia sido questionado.

Naquela época, faríamos, em algumas semanas, reunião importante, que contaria com a presença, dentre outras altas autoridades, do Embaixador da Polônia e do “Vice-Embaixador” da União Europeia…

Ou seja, nosso trabalho “morre vivo”!

Agradecemos aos quantos estiveram conosco nesses anos todos; em especial aos caríssimos amigos/irmãos do GRUPO CLAMOR – Cinta Larga: Amigos em Movimento pelo Resgate.

Rogamos que todos continuem ajudando, o máximo que puderem, a sofrida comunidade indígena, independentemente de quem esteja à frente de sua defesa. De nossa parte, seguiremos fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para minorar, uma vírgula que seja, tamanho sofrimento. Não precisamos de qualquer divisa para fazer o bem às pessoas. Ninguém precisa.

Aliás, nossas responsabilidades vão muito além de nossas atribuições.

Seguiremos confiando, sobretudo na Providência. O Altíssimo sempre sabe o que faz. Aprendemos com o filósofo Demócrito que “Se sofrer uma injustiça, console-se, a verdadeira infelicidade é cometê-la” e, com o poeta Rilke, que “A vida tem razão em todos os casos”.

As épocas mais difíceis são as que mais exigem do homem de bem. Trabalhar com nossos irmãos indígenas ensinou que o verdadeiro guerreiro é o que jamais se deixa vergar. Quanto mais acuado for, mais inspiração terá!

Há, porém, tempo para tudo nesta vida. O Povo Cinta Larga, cedo ou tarde, haverá de assumir, verdadeiramente, o leme de suas vidas. Se nosso afastamento for o tributo a pagar para isso, o preço terá sido pequeno demais.

Sinceramente,

Porto Velho/RO, Amazônia Brasileira, 02 de Novembro de 2017.

REGINALDO TRINDADE

 

Procurador da República

PS. 1. Terminamos assim, melancolicamente, a carta mais difícil que tivemos que escrever. Até hoje.

PS. 2. No nosso momento mais simbolicamente marcante, escrevemos algo em que acreditávamos piamente e que, nessa hora mais extrema, não custa repetir. Quem dera ecoasse fundo no coração e na alma das pessoas: Eu tenho esperança que um dia, nesse maravilhoso país, índios e não índios serão tratados como verdadeiramente são: seres humanos! Eu tenho esperança que um dia nossa Constituição será efetivamente respeitada e não simplesmente modificada ao sabor dos interesses da ocasião e pelas mais inconfessáveis razões. Eu tenho esperança que um dia o preconceito, mesquinho e ignorante, será substituído pelo amor. Eu tenho esperança que a fé dos índios por dias melhores será eterna – assim como os diamantes! Eu tenho esperança que sempre haverá pessoas de bem, que jamais repousarão enquanto não reverterem essa secular história de indignidades contra as minorias no Brasil e no mundo. Eu tenho esperança que um dia o Governo do Brasil defenderá, de verdade, os povos indígenas. Não depois, mas antes que aconteça alguma tragédia – da qual tanto todos se lamentem.

PS. 3. Muito obrigado, de coração, ao Povo Cinta Larga, pela confiança depositada, pelas lições apreendidas, pela dádiva da amizade. PS. 4. “E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar, Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar. Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá. O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.”

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