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Chester Bennington, do Linkin Park, cantava como se carregasse o mundo nas costas

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Vocalista foi encontrado morto, aos 41 anos, na casa onde morava, nos Estados Unidos

Daquele corpo franzino, um vozeirão. As cordas vocais pareciam explodir, estalando, saltando para fora da garganta. Comprimido na beirada do palco, Chester Bennington cantava, se esgoelava, colocava para fora angústias partilhadas por milhões de adolescentes – foram 70 milhões de discos vendidos pela banda dele, o Linkin Park, ao longo de 17 anos de estrada.

No Brasil, repetiu o ritual pela última vez em maio, quando a banda, em sua fase com sonoridade mais pop (ancorando-se cada vez mais na versatilidade recém-descoberta da voz de seu vocalista), encabeçou o festival de heavy metal Maximus Festival, em Interlagos. No palco, era uma força impressionante. Não tinha a classe do amigo Chris Cornell, morto há pouco, mas se garantia na potência. O Linkin Park, até o fim, foi barulhento. Ao fim de uma apresentação, restava um zumbido.

Foi a última, de quatro passagens, de uma banda que encontrou um público bastante fiel em terras brasileiras. Às 9h da manhã de quinta-feira, a polícia da Califórnia recebeu um chamado de uma residência em Palos Verdes Estates. Lá, os oficiais encontraram o corpo de Bennington enforcado. A hipótese de suicídio é investigada, mas ainda não confirmada pela polícia local. Morreu asfixiado, calou a garganta que lhe trouxe a fama e o posto do melhor vocalista daquela geração de bandas roqueiras nascida para calar um detestável pós-grunge do fim da década de 1990.

Bennington, que tinha 41 anos e deixa seis filhos, encabeçou sua microrrevolução. O Linkin Park era rock, era heavy metal, na essência, mas Hybrid Theory, o disco de estreia, escancarou o que estava no underground. Era a fusão, quase industrial, metalúrgica, daquela essência roqueira ao hip-hop e, principalmente, eletrônica. Estouraram a bolha e abriram a porteira da MTV e das rádios para o movimento que cavou a cova do grunge, um gênero já agonizando sob o comando de bandas como Creed e Nickelback.

Bennington, nascido em Phoenix, nos Estados Unidos, cantava com aquele impulso porque a vida lhe deu mais de uma chance de se manter respirando. Aos 7 anos, foi molestado por um amigo mais velho. Anos depois, já no Linkin Park, falou sobre o medo que sentia de contar aos outros sobre os abusos sofridos.

Dizia também que aquilo destruiu sua autoconfiança para falar com os outros justamente na pré-adolescência. Quando os pais se separaram, Bennington foi viver com o pai, um policial, na Califórnia. E lá conheceu maconha, cocaína, crack, ácido e álcool. Já tinha provado tudo aos 11 anos. Aos 16, pesava 44 quilos e decidiu deixar o vício ao presenciar uma troca de tiros na casa do amigo que ele costumada visitar para consumir drogas.

A história de Bennington a partir daí é mais de altos do que baixos. Respondeu a um chamado para audição de uma banda que viria a ser o Linkin Park, lançou um álbum de estreia que vendeu 10 milhões de cópias e chegou ao terceiro lugar da parada de discos mais importantes dos EUA.

Depois dessa estreia, apenas um dos álbuns da banda, The Hunting Party (2014), não figurou no topo na primeira semana de lançamento. A recaída em álcool e cocaína veio no meio do turbilhão de popularidade do Linkin Park, que se manteve no topo do seu jogo com o segundo disco, Meteora, 2003. Em entrevistas, Bennington afirma ter deixado o vício para trás, novamente, em 2006.

Invariavelmente, suas composições voltavam à temática.

Cantava sobre a superação e o cansaço de sentir o peso do mundo sobre as costas. Seus gritos eram pedidos de ajuda, de certa forma. Um artista dono de uma alma corroída – numa reação desesperada, busca por muletas, quaisquer que sejam, para percorrer o caminho da vida. Ele se foi. Restou o zumbido.

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

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