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Com 14 anos, ele pega seis ônibus e viaja 30 km por dia para estudar

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Morador do Jardim Guarujá, aluno de escola pública vive rotina de adulto para aproveitar bolsa de estudos e ter chance de alcançar sonho universitário

Às 4h30, Gabriel Santos do Prado e seus pais estão de pé em uma casa simples do Jardim Guarujá, extrema zona sul de São Paulo. Antes das 5h, o menino parte para uma longa jornada. Gabriel passa 15 horas por dia fora de casa e atravessa 30 quilômetros em seis ou sete ônibus diferentes para estudar em duas escolas.

Tanto empenho tem um objetivo claro: melhorar suas chances na vida e fazer uma boa universidade.

A jornada teve início no ano passado, quando o aluno de uma escola municipal de São Paulo soube que poderia concorrer a uma bolsa de estudos para ter reforço escolar em um colégio privado. Após passar por provas e entrevistas, Gabriel teve de convencer seus pais de que poderia enfrentar o transporte público para chegar até a escola particular no Morumbi.

“Acho que envelheci dez anos no último ano. Ele chega entre 20h e 21h, a gente fica muito preocupado”, diz a mãe Maria da Conceição. “Mas é uma oportunidade, temos de apoiar”, encurta a conversa.

Filho de pais que não completaram o ensino médio, Gabriel diz ter facilidade com português, matemática e história. O gosto pela leitura foi estimulado pelo irmão mais velho, formado em Letras por uma universidade privada com bolsa do ProUni (programa federal).

“Sou muito próximo dele e ele sempre foi estudioso. Ele me leva para passear, já me levou a museus, parques, shows, me empresta os livros dele de inglês e de leitura.”

Na escola particular em que é bolsista, Gabriel participa de uma turma especial, em que 20 jovens estudiosos de baixa renda têm aulas de reforço escolar para equiparar seus conhecimentos ao currículo do 9° ano de uma escola de elite.

“A gente dá oportunidade para dar asas para eles sonharem”, afirma Maristela Carvalho Laurito, pedagoga do projeto Alicerce. Segundo ela, a sala tem uma dinâmica favorável em que os estudantes se ajudam mutuamente. “Quando um tem dificuldade, o outro ajuda, eles querem melhorar como grupo.”

O interesse dos alunos fica claro durante uma aula de matemática. A cada pergunta do professor, os estudantes respondem em coro. Os alunos se revezam em perguntas e os colegas tentam responder às dúvidas antes mesmo do professor.

Esse ambiente de estímulo é uma das grandes diferenças que Gabriel sente em comparação com suas aulas da escola municipal Maurício Simão. “Aqui todo mundo se interessa na aula, o professor não tem que ficar esperando as pessoas pararem de falar para começar a aula. Não tem tanto barulho”, aponta.

Jornada dupla 

A rotina de esforços e dificuldades é compartilhada entre os bolsistas. Também aluna do 9° ano, Ingridy Ferreira Macedo, de 14 anos, conta que também sai de casa por volta das 5h para chegar à escola às 7h15.

Ali, os garotos têm aulas até as 11h30 e almoçam. O tempo é contado para que os jovens consigam chegar à escola pública. Ao meio-dia, Gabriel e seus colegas já estão no ponto de ônibus e têm até as 13h30 para chegar na escola em que estão matriculados, onde têm aulas regulares até as 18h.

Além do horário alongado de estudos, quando chega em casa Gabriel tem as tarefas de duas escolas para fazer. “Chego em casa por volta das 20h. Eu janto e vou fazer os exercícios que tenho para o dia seguinte. Depois vou dormir pelas 22h.”

No final de semana, o garoto divide seu tempo entre o sono atrasado, as tarefas escolares e as aulas de inglês em um curso que também é bolsista.

“A maior dificuldade desses alunos é lidar com a rotina puxada, porque o cansaço é físico, não dá para esconder”, comenta Inês França, responsável pelo acompanhamento de alunos do Ismart. “A gente tem de trabalhar a perseverança e a organização dos estudos para que eles consigam se adaptar.”

Nesta hora, o apoio dos pais é fundamental. “Se a família mostra que a educação tem valor para ela, que está disposta a abrir mão de coisas para que o aluno estude, temos um ambiente propício para que esse estudante decole”, aponta Inês.

Gabriel aproveita a oportunidade para conhecer novos conteúdos e experimentar. No ano passado, ele, Ingridy e dois colegas desenvolveram o projeto de um dispositivo para detectar as cores através da luz. O projeto ganhou a feira de ciências da escola e tem chances de ser levado à Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), que acontece na USP, no próximo ano.

Do IG

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