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Como Eike, egocêntrico e vendedor de ilusões, afundou o Império X

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Em 2011, o mineiro Eike Batista vivia possivelmente o melhor momento como empresário. Estampava publicações nacionais e estrangeiras, embolsava prêmios como grande homem de negócios do País (e uma promessa mundial, ousariam afirmar) e era a inspiração de empreendedores brasileiros. Meses antes, o ex-bilionário, que fundou o Grupo EBX, mandou o recado: passaria Bill Gates, da Microsoft, para trás e se tornaria o homem mais rico do mundo. Para muitos, ele era o cara.

Em dezembro daquele ano, Eike aproveitou toda a popularidade do momento e lançou a autobiografia “O X da Questão – A trajetória do maior empreendedor do Brasil”. O livro alcançou 203 mil exemplares e foi o título mais vendido até hoje pela editora Primeira Pessoa, braço da Editora Sextante especializado em biografias.

Hoje, depois de 23 meses, ler o relato de Eike ao longo de rasas 159 páginas proporciona momentos irônicos e analíticos. Irônicos porque sua autobiografia traz um amontoado de clichês e afirmações que não passaram de promessas. Sem nem um traço sequer de modéstia, o empresário avalia um de seus momentos nos negócios – a exploração de uma operação de garimpo de ouro em Alta Floresta, ao norte de Mato Grosso. “Os méritos maiores foram persistência, obstinação, ousadia e o que as pessoas costumam qualificar de capacidade visionária”.

Sobram frases no livro de culto ao ego, como “sou um empreendedor diferente da média”, “sou perito em identificar diamantes não polidos e aprendi, ao longo da vida, a polir esses diamantes”. Ou ainda “minha trajetória é a prova de que o capitalismo brasileiro está mais maduro. As aberturas de capital de minhas companhias são verdadeiros atestados de maioridade”.

Ego, um grande companheiro

Ao mesmo tempo que o livro confirma que Eike tem um ego difícil de ser delimitado, mostra hoje a inconsistência do plano de negócios do empresário. Naquela época, Eike afirmava no livro: “Por trás do mito, há uma saga empresarial erguida acima de tudo com muito suor e trabalho… Felizmente acertei bem mais do que errei e numa escala e num tempo impensáveis no mundo empresarial”. Quem não ruborizaria ao falar de si recorrendo a palavras como “mito” e “visionário”? Eike Batista.

Eike, o empresário que não teve recato ao se auto-proclamar um mito, afundou. Na última semana (dia 11), mais uma de suas empresas, a OSX (chamada por ele de Embraer dos mares), teve de recorrer à recuperação judicial na tentativa de ganhar tempo junto aos credores e conseguir uma sobrevida. A primeira a usar esse expediente foi a OGX, em 30 de outubro (“A OGX tem no seu DNA algo especial que herdou de mim: a vontade de encantar e surpreender”, descreveu no livro). De figura de destaque nas listas dos maiores bilionários do mundo, o dono do Império X virou sinônimo de caloteiro e agora tem de conviver com o peso de bilhões de reais na forma de dívida, não mais em fortuna.

Com frases e mais frases feitas, o ex-bilionário oferece em “O X da Questão” grandes momentos de auto-ajuda para quem sonha em se tornar empreendedor. “Uma lição que fica para quem decide iniciar um negócio é não desistir na primeira dificuldade”, ensina.

No mesmo capítulo, o autor avança no tema: “A única coisa certa no mundo dos negócios é que você vai errar. Se tiver humildade para reconhecer esta verdade, terá meio caminho andado para aprimorar suas práticas como empreendedor”. A frase, lida sob a luz do atual momento de Eike, certamente causaria irritação e indignação nos investidores que aportaram bilhões de reais em seus projetos. Provocaria também indignação entre os minoritários que apostaram no vendedor de sonhos e colocaram suas economias em ações que viraram pó. “Posso ser acusado de excesso de ousadia, mas nunca pensei em correr atrás do Santo Graal”, garante no livro.

Outro capítulo, o “Visão 360 graus”, também deve incomodar quem comprou os sonhos de Eike, tamanha a sua incoerência. “Eu não aspiro à perfeição. Aspiro ao êxito. Aspire ao êxito você também. Eu desejo entregar ao mercado, aos acionistas, aos colaboradores e à sociedade o que me comprometo a  entregar.”     Ele ficou na promessa. Demitiu boa parte de seu quadro de funcionários e viu suas seis empresas listadas na Bolsa minguarem. “Meu negócio é converter sonho em realidade, e talvez seja este o principal traço da minha trajetória”, explicou. Sua crença, mostram os atuais fatos, fez água.

Para o investidor ainda em dúvida sobre as diferenças entre Eike escritor e Eike gestor, mais um trecho: “Não se deve subestimar a própria capacidade de cometer erros de avaliação. Alguma dose de cautela é vital… Mas se alguém quer risco zero, o melhor é colocar dinheiro no cofre e enterrar a chave em lugar seguro”. Entenderam, senhores investidores?

No capítulo ” Cartilha da Ética”, um reforço de mensagem de confiança aos que tinham alguma dúvida naquele momento. O dono da EBX afirmou que “há empresários que operam 100% dentro da cartilha correta. Sou um deles e faço questão de me manter assim.”

Taxativo, o autor ensina em sua autobiografia que é preciso se cercar de informações científicas quando se está estruturando um negócio (“Acredite na sua intuição, mas procure confirmá-la com dados científicos ou pesquisa”). Em outro trecho, o empresário volta ao assunto – “Por isso a pesquisa foi tão importante em minha trajetória”. A dica, no entanto, parece não ter sido útil para o consumo interno. No caso da petroleira OGX, relatórios mostraram que as reservas dos campos de exploração eram bem menores do que havia sido anunciado. Faltou informação? Quem sabe.

Megalomania

No capítulo 10, “A perfeição é uma utopia”, Eike Batista volta ao tema da megalomania – “Na medida certa, um pouco de megalomania ou ousadia é recomendável. Nã há empreendedor bem-sucedido que não tenha provado uma pequena dose. Quando o negócio se mostra viável, seu idealizador deixa de ser um megalomaníaco”. O leitor poderia então perguntar hoje, com os negócios e a credibilidade de Eike mergulhados em um lamaçal: o autor da frase acima é um megalomaníaco?

Talvez faça parte de pessoas com o perfil de Eike a estratégia da repetição. Fala-se muitas vezes a mesma coisa de forma convincente na intenção de que as pessoas acreditem que aquilo é uma verdade. Um exemplo é quando o autor se descreve como alguém com habilidade para transitar entre várias especialidades, já que “posso lidar com ouro, prata, níquel, cobre, zinco, petróleo, energia, enfim, posso fazer um mundo girar à minha volta…”

Hoje, ao chegar a última página de “O X da Questão”, a conclusão que o leitor tem é de que Eike deixou de citar uma característica importante. É apressado. Foi assim ao se lançar em várias frentes de negócios ao mesmo tempo, ao correr para o mercado para capitalizar suas empresas quando ainda não passavam de projetos e ao proclamar-se um empresário exitoso muito antes de conseguir entregar o que prometeu.

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