Cunha deve ser cassado pelo Congresso, mas não merece

Congresso está fazendo o que mais sabe, arrumando um bode expiatório para se livrar dos pecados

O “bode expiatório” tem sua origem no judaísmo. De acordo com a Torá, livro sagrado dos judeus, “dois bodes eram levados, juntamente com um touro, ao lugar de sacrifício, como parte dos Korbanot do Templo de Jerusalém. No templo os sacerdotes sorteavam um dos bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente, para ser reclamado pelo anjo caído Azazel”.

Tomando esse ritual como exemplo, o mesmo podemos dizer do processo de cassação do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que deve ir para o sacrifício na noite desta segunda-feira. Por mais que seus aliados e ele próprio tentem manobras, escapar é praticamente impossível. Cunha carrega pecados, mas no atual Congresso quem não carrega? Exemplos não faltam, e se prestarmos bem atenção ao noticiário, percebe-se que sacudindo a árvore, não faltam jacas para cair.

Transformar Cunha em “símbolo da corrupção reinante” é uma hipocrisia sem tamanho. Talvez seu maior pecado tenha sido deixar rastros, mas pistas de malfeitos entre os congressistas é uma coisa abundante, a diferença é que o deputado afastado comprou uma briga hercúlea contra um sistema de governo que atrasou o país em décadas, paternalista, populista e como sabemos, ineficiente e corrompido.

A máquina foi toda aparelhada, está emperrada devido a seu peso, e fica cada vez mais difícil enxugar, dada a quantidade de “direitos adquiridos”. Cunha nos fez um favor enorme e vai fazer falta no cenário, bem ou mal, ele trouxe um equilíbrio, se dependêssemos de Renan Calheiros, Dilma ainda estaria trôpega no comando do Brasil. Não é hora de tirar Cunha, é uma injustiça. Teríamos um certo equilíbrio se Calheiros fosse junto. O atual presidente da Câmara não é páreo para o que vem pela frente.

Michel Temer também precisa de Cunha, se for mantido o ritmo atual, a tendência é de crescimento de protestos e pressão politica sobre o governo. Temer já está com fama de “usurpador e golpista”e não está conseguindo reverter, pelo contrário. Sem Cunha na retaguarda, ele ficará cada vez mais fragilizado. Ou Temer acerta seu governo ou teremos mais dois anos conturbados pela frente. E sem a astúcia e sangue frio demonstrado por Cunha na condução de processos complicados, o PMDB tende a ficar refém de si próprio e de partidos reconhecidamente mercenários. As legendas estão se unindo contra Cunha, mas medidas duras e impopulares virão pela frente. E quem será o bode da vez, Michel Temer? Até quando o Brasil vai trabalhar com “bodes expiatórios”?

Nossos bodes no Congresso carregam os pecados dos eleitores brasileiros, que tem mania de querer empurrar os erros para os outros. Se Cunha, por um acaso não ficar inelegível, quem quer apostar como ele é reeleito? Os pecados de Cunha já conhecemos, expia-lo é uma hipocrisia.

Alan Alex é editor de Painel Político

 

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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