Dinheiro do BNDES nunca foi tão bem empregado como nos empréstimos à JBS; e o que o frango tem a ver com isso

No Brasil quando alguma empresa começa a ficar grande, os proprietários passam a ser assediados e achacados por políticos. Isso vale para empreendimentos nas esferas município, estado e claro, União, a diferença é o tamanho, porque os métodos são os mesmos. Quando falamos de uma gigante como a JBS, que depois se tornaria a J&F, a coisa toma uma proporção assustadora.

Uma verdade absoluta é que empresário, de um modo geral, detesta políticos. Empresas já são extorquidas pelo Estado através de impostos, taxas, boletos, certidões, enfim, todo tipo de burocracia inútil que faz o dinheiro do seu suor, escorrer pelo ralo da inutilidade. Porém, os políticos são uma espécie de “atalho”, já que eles conseguem, através da troca de favores, obter outros favores. E a grosso modo, grande parte do sistema funciona dessa forma.

Feitas essas observações, vamos voltar à questão da JBS. Desde que se propôs a “dominar o mundo”, e creia, ela conseguiu, a JBS passou a precisar de dinheiro e claro, com ele, veio a corja de achacadores. O dinheiro veio do BNDES, um banco criado exatamente para isso, para financiar empresas brasileiras com taxas fixadas pelo mercado internacional, ou seja, ele não opera como os bancos “normais” que cobram juros absolutamente surreais. O problema é que para conseguir esse dinheiro, é preciso interferência política e político não “trabalha” de graça.

Mas, vamos voltar a 2009, ano em que a JBS surpreendeu o mercado mundial ao anunciar a compra da Pilgrims Pride Corporation, um dos quatro maiores produtores de frango dos Estados Unidos, que vinha mal das pernas e aceitou a oferta de U$ 2,8 bilhões. Antes de prosseguir, preciso fazer um parênteses sobre essa questão.

O frango consumido no mundo todo é “produzido” em granjas que são cuidadas por pequenos “produtores”, que nada mais são que “cuidadores de galinha”. O sistema é relativamente simples, mas cruel. A Pilgrims Pride, por exemplo, é chamada de “integradora”, ela entrega os pintinhos, ração e uma lista de exigências para os criadores que se comprometem a entregar a produção nos níveis exigidos. Como o preço é fixo, não oscila como a carne bovina, é um negócio seguro para os produtores. Nos EUA, país que exporta 3 milhões de toneladas de frango por ano, os produtores lucram, por ave, U$ 0,36 (ou R$ 1,16). A Pilgrims Pride Corporation é a segunda maior integradora americana, ela detém 18,8% do mercado, ficando atrás da Tyson (23.3%). As outras duas integradoras são a Sanderson Farms (8,7%) e Perdue (8,2%). O restante (41%) é dividido entre as demais empresas espalhadas pelo país.

Share do mercado americano de aves (reprodução Rotten)

Voltando à JBS. O Brasil é considerado atualmente “o açougue do mundo” e a JBS dominava o mercado global de carnes. Com a compra de empresas na Austrália, EUA e Europa, a JBS passou a deter praticamente o monopólio global da carne, o que representa uma afronta para países como Estados Unidos e Inglaterra. Os empréstimos feitos à JBS pelo BNDES são legais, mas só foram possíveis graças a interferência da classe política. E quando entra o “custo corrupção” as cifras são estratosféricas. Existe no Brasil uma simbiose entre os políticos corruptos e parte da classe empresarial, principalmente nas altas esferas.

JBS no mercado global (reprodução Rotten)

E quando as empresas começam a aparecer demais, surgem os pedidos de “doações de campanha” e “ajuda”, que se forem recusados, são retaliados pela perseguição estatal. Sucessivas operações de fiscalização que usam as vírgulas da legislação para travar qualquer tipo de negócio que esteja em andamento. Qualquer empresário brasileiro, grande ou pequeno sabe disso. No caso da JBS, o achaque era do primeiro escalão da República. PMDB e PT, que estavam no poder, aproveitaram a necessidade de empréstimos da JBS para obter dinheiro para campanhas em todo o país. Paralelo a isso, achacadores profissionais como Eduardo Cunha e companhia, ameaçavam com instalação de CPIs no Congresso, que certamente não chegariam a lugar algum, mas causariam prejuízos incalculáveis a uma empresa de proporções globais como a JBS.

A JBS deveria ser um orgulho brasileiro, uma das poucas empresas tupiniquins que conseguiu dominar literalmente o mercado mundial de alimentos processados. Os irmãos Batistas erraram feio ao acreditar que conseguiriam derrubar o sistema, “abalar a república”. Estão presos e vão amargar pela ousadia. Quando o sistema quer, uma “pedalada” vira um crime hediondo, mas um apartamento cheio com mais de R$ 50 milhões e uma mala, filmada, sendo arrastada pelas ruas e uma gravação com o próprio presidente pedindo para “manter a ajuda a um corrupto”, vira “suspeita”.

Marcas adquiridas pela JBS nos EUA, Austrália e Europa

Como resultado da audácia de Joesley e Ricardo Saud, e claro, a malandragem deles em querer lucrar na Bolsa de Valores com a divulgação dos grampos, a JBS encolheu. Em setembro do ano passado, a empresa vendeu a Moy Park, principal processadora de carne e frango da Europa para a Pilgrims Pride Corporation, em uma operação que fez parte do programa de desinvestimento da JBS, anunciado no dia 20 de junho de 2017. Este plano teve início com a das operações de carnes da América do Sul para o concorrente Minerva, por US$ 300 milhões. A Alpargatas foi vendida por R$ 3,7 bilhões para o Cambuhy e Itaúsa. A mexicana Lala comprou a participação na Vigor por R$ 5,7 bilhões. No final do ano, a J&F, holding que reúne os negócios dos irmãos Batista, anunciou a venda da Eldorado Celulose e Papel para a empresa Paper Excellence (PE) por R$ 15 bilhões.

Com a credibilidade no mercado global abalada, a tendência será a empresa encolher cada vez menos, o que é ruim para o Brasil. Apesar dos empréstimos e financiamentos terem sido feitos com recursos públicos, como disse no início, eles são legítimos. O maior problema foi o “fator político” e a metodologia adotada pela JBS para o mercado brasileiro. Eles usam aqui, o mesmo processo usado nos Estados Unidos, só que no Brasil temos problemas sociais gravíssimos e o modelo americano só agrava isso. Em 2013, criadores de frango de Santa Catarina enviaram pedido ao governo para que o BNDES se abstivesse de realizar empréstimos para a JBS, porque eles, os produtores, estavam endividados enquanto a empresa ampliava seu lucro. De acordo com os próprios produtores, eles tinham um custo de produção de R$ 0,32 por cabeça e a empresa queria pagar R$ 0,25.

Cadeia produtiva do frango (Repórter Brasil)

Essa falta de compromisso social com o país também é um fator que “vilaniza” as ações da JBS. Ela poderia (e deveria) remunerar melhor os produtores brasileiros. O Repórter Brasil, produziu em 2016 um especial sobre a cadeia do frango no Brasil e mostra, com detalhes como o mercado opera, as denúncias e o que estava sendo feito à época para amenizar o problema.

O crescimento da JBS se deu em função de políticas de governo, estabelecidas na gestão do ex-presidente Lula. O foco da política era o fortalecimento de multinacionais brasileiras capazes de assumir liderança global em seus respectivos segmentos de atuação. Lamentavelmente retrocedemos nesse caminho, graças a corrupção que faz parte do cotidiano do brasileiro. Dificilmente conseguiremos avançar novamente nesse campo. Voltamos a condição de colônia.

Mercado global de exportações de aves (Repórter Brasil)
Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

Participe do debate. Deixe seu comentário