Estado-Corredor X Estado-Produtor: quem vai ganhar essa disputa?

Entra ano, sai ano, entra eleição, sai eleição, palavrórios, foguetórios e… nada muda em Rondônia, exceto a extrema concentração de renda, como comprova a escandalosa queda do IDH Índice de Desenvolvimento Humano, de 0,776 em 2008 para 0,756 em 2012, semelhante ao norte da África. Aferido pelo PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o IDH é o contraponto para o velho e suspeito PIB, que mede a riqueza produzida em uma região, estado ou país. Para muitos, especialmente governantes, o PIB é a medida que adoram celebrar quando sobe, e justificar – com mentiras deslavadas – quando desce.

Criado pelo economista russo-norte-americano Simon Kuznets em 1934, o PIB consagrou-se como régua para medir o desempenho de economias nacionais e a distribuição da renda gerada pela riqueza produzida. Mas, o que a maioria prefere ignorar, é que Kuznets identificou a relação entre crescimento econômico e a distribuição de renda e que, quando um país/região se desenvolve, a desigualdade aumenta. Mas ele salientou que, no início, uma pequena parcela da população é beneficiada pelo crescimento, para diminuir depois. O problema é que, em Rondônia, a teoria de Kuznets fugiu à regra: há notável crescimento do PIB, mas o empobrecimento aumenta e continua a beneficiar uma pequena parcela, tem quatro décadas.

O eldorado não se concretizou

Qual a origem desse fenômeno? Nestas bandas da Amazônia Ocidental, persistem estratégias de desenvolvimento orientadas para o grande capital, em especial o agronegócio de grãos e pecuária de corte, portanto, o resultado não poderia ser outro. Criado para solucionar os graves problemas gerados pela concentração de terras no centro-sul do país, Rondônia surgiu como o eldorado para milhares de famílias de excluídos e banidos pela mecanização agrícola e o surgimento das grandes lavouras de monocultura. Tudo planejado em Brasília, como sempre, palco de marionetes e do lobby dos grandes capitais e interesses nacionais e transnacionais.

Hoje, 2014, com mais de 100 mil agricultores familiares – o maior contingente da Região Norte – Rondônia agoniza diante da pauperização provocada por históricos surtos econômicos, intitulados ciclos pelo linguajar oficial, que historicamente nega-se a fazer a leitura correta dos desastres. Na economia, os surtos são bem tipificados: grande euforia inicial, com enorme decepção final. Borracha, ferrovia da morte, ocupação fundiária, exploração mineral e florestal, usinas hidrelétricas… qual será o próximo surto engendrado em Brasília e assinado pelos governantes de plantão em Rondônia?

Importamos 95% dos alimentos in natura

É preciso dar um basta nisso, já! É preciso olhar o mundo e deixar a síndrome do umbigo de lado, tão nociva quanto o sonho do eldorado que nunca foi concretizado. Israel, um pequeno território com área inferior a 10% do Estado de Rondônia, encravado num deserto hostil e pedregoso, e com uma população quase cinco vezes maior que a nossa (oito milhões de habitantes), produz 95% dos alimentos in natura que consome. Aqui, importamos 95% dos alimentos in natura que consumimos. Lá, terra fértil e água inexistem. Aqui, bem, aqui é outra história. Para os técnicos e especialistas do governo, muito do que importamos “não pode” ser produzido aqui. Cansei de ouvir essa afirmação.

Gostaria de propor um estágio em Israel para os nossos governantes e seus “especialistas”, mal formados ou desinformados ou, pior, não comprometidos com o desenvolvimento de Rondônia. E isso inclui os famosos secretários de agricultura e desenvolvimento econômico do estado e dos municípios, notáveis em palavrórios e foguetórios quando entregam tratores e sementes para os miseráveis agricultores. Eles, os governantes – governador, prefeitos, secretários, especialistas – acreditam que estão fazendo muito, quando, na realidade, além de não fazerem nada, espremem na miséria exércitos de agricultores desvalidos e suas famílias. O empobrecimento parece ser uma política de estado. Pior, nossa produtividade agrícola é decepcionante, o que significa afirmar que, quanto mais produzimos, maior prejuízo geramos.

O Estado-Corredor dos postos de combustíveis

Rondônia consolidou-se como “Estado-Corredor”, com uma única rodovia federal que corta-nos de leste para oeste, e opera como notável corredor para a passagem de milhares de carretas e milhões de toneladas de alimentos – in natura e industrializados – para abastecer nosso estado, mais o Acre, Amazonas, Roraima e até Venezuela. Terras férteis ou potencialmente produtoras, com milhares de agricultores esquálidos, são assistentes impotentes de políticas públicas desorientadas, sem objetivos honestos ou minimamente orientadas para o desenvolvimento econômico e a integração comercial. Nem um – e apenas um – entreposto de alimentos os governantes foram capazes de erguer. O Estado-Corredor alimenta apenas os postos de combustíveis e as barcas do Madeirão.

Agora, no apagar das luzes, o governo de plantão corre para criar uma central de abastecimento, depois de quatro anos cansados de ouvir este pregador no deserto, olhado com desdém e com ouvidos moucos pelo governador, vários secretários de estado e da prefeitura. Todos agora correm, não para solucionar a escandalosa importação de alimentos e a criação de uma agricultura de alimentos de mesa. Correm para atender às demandas do calendário eleitoral ou para garantir grandes interesses pequenos, de olho no enorme potencial de negócios que uma central de abastecimento pode promover.

O “Estado-Produtor” é apenas um sonho mal sonhado, porque largado e esquecido, espremido e refugado. Agora, com o calor eleitoral, volta à pauta, mas ainda não saiu dessa posição miserável para ganhar estrutura de objetivo de estado, com compromisso, plano e bem longe daquilo que enoja: proposta. O “Estado-Produtor” não é uma ideia ou um título de trabalho escolar. É um imperativo para o desenvolvimento de Rondônia. Somente com a construção de sólida agricultura de alimentos, poderemos pensar em modificar o cenário econômico de Rondônia.

Agora pode mudar?

Podem inventar, sapatear e discursar, mas não há outro caminho. Industrialização? Faz-me rir. Ouço isso tem mais de 20 anos e… nada. A industrialização é a contramão da nossa natureza econômica, e um desvio estratégico imenso. E caro. Estamos distantes milhares de quilômetros das fontes de matérias-primas e insumos demandados por um sem número de formatos industriais. Poucos perfis de indústrias adequam-se à nossa realidade. O que apresenta o maior potencial no curto prazo é o da agroindústria e do processamento de meia dúzia de matérias-primas, do couro aos produtos do extrativismo vegetal.

Entra ano, sai ano, entra eleição, sai eleição, palavrórios, foguetórios e… nada muda em Rondônia. Ou agora pode mudar. Que o futuro governador eleja a agricultura como prioridade estratégica para o desenvolvimento econômico. Que a produção de alimentos de mesa dê trabalho e renda para mais de 100 mil agricultores familiares e suas famílias, expurgados do PIB. Que o futuro governador entenda que podemos nos abastecer e ainda exportar alimentos para milhões de famílias de outros estados e países. Que o futuro governador não caia na conversa fiada e desafinada de meia dúzia de candidatos a secretários e “técnicos”, especialistas no conforto do ar condicionado e que sobrevivem de regurgitar relatórios e papelórios que nada modificam na estrutura econômica do estado.

José Armando Bueno é consultor de empresas.

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Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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