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Falso fotógrafo brasileiro engana imprensa mundial com fotos e textos surreais; até a BBC foi vítima

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Eduardo Martins chegou a arregimentar 120 mil seguidores no Instagram e teve “reportagens” e fotos publicadas em grandes veículos

A chamada “grande imprensa” não resiste a estereótipos, ainda mais se quem os encarna for loiro, dos olhos claros e com discurso humanitário. Foi assim que um tal de “Eduardo Martins”, suposto paulistano de 32 anos, se dizendo “fotógrafo da ONU” e que havia superado abusos na infância e uma leucemia no início da vida adulta e se lançara às principais zonas de guerra do mundo, entre elas Iraque e Síria, para registrar o sofrimento humano.

Ninguém checou, e todos caíram. BBC, Recount Magazine, The New York Times e a Vice, todas publicações respeitadas, mas que não resistem as essas histórias fantasiosas publicaram reportagens, entrevistas e fotos do golpista brasileiro que ainda não foi descoberto e que, após ser avisado que estavam lhe investigando anunciou a um desavisado pela seguinte mensagem “fala irmão. Tô na Austrália, tomei a decisão de passar um ano em uma van rodando o mundo. Vou cortar tudo inclusive internet, tb (também) deletei o IG (Instagram). Quero ficar em paz. A gente se fala qd (quando) eu voltar. Abraços”. E na sequência: “Valeu. Vou deletar aqui o zap. Fica com Deus“.

E foi assim que ele sumiu, sem deixar vestígios, mas envergonhando as redações das principais agencias ocidentais. E quem conta essa história é a própria BBC Brasil, que em julho desse ano chegou a publicar extenso artigo usando o fake como fonte. Veja abaixo como a BBC narra seu infortúnio:

Em 7 de julho de 2017, a BBC Brasil publicou um texto apresentando fotos e vídeos que seriam de autoria de um brasileiro que se apresentava para seus mais de 100 mil seguidores no Instagram como Eduardo Martins, fotógrafo da ONU. Após a publicação do conteúdo, surgiram suspeitas não apenas sobre a autoria das imagens enviadas como também sobre a verdadeira identidade de Martins. A BBC Brasil começou a investigar o caso há um mês e, pouco a pouco, os elementos de uma história construída por dois anos começaram a ruir. Diante das suspeitas e do risco de violação de direitos autorais, o conteúdo original foi retirado do ar. Pedimos desculpas a nossos leitores pelo engano. O caso servirá para reforçar nossos procedimentos de verificação. Conheça o caso:

Montagem com imagens do suposto fotógrafo
Image captionO suposto fotógrafo Eduardo Martins gostava de mostrar nas redes sociais suas viagens pelo mundo | Reprodução/Instagram

A história era de grudar os olhos na tela: um fotógrafo brasileiro, jovem, loiro e bonito, que havia superado abusos na infância e uma leucemia no início da vida adulta e se lançara às principais zonas de guerra do mundo, entre elas Iraque e Síria, para registrar o sofrimento humano. O resultado do trabalho eram imagens com alma, que poderiam estampar as páginas de qualquer publicação jornalística do mundo. O problema é que grande parte desta história era mentira.

Eduardo Martins, suposto paulistano de 32 anos, se apresentava em seu perfil no Instagram, onde tinha 127 mil seguidores, como fotógrafo da Organização das Nações Unidas (ONU) nem campos de refúgio. Descrevia seu cotidiano com grandiloquência heroica.

“Uma vez, durante um tiroteio no Iraque, eu parei de fotografar para ajudar um menino que tinha sido atingido por um molotov e o retirei da zona de tiro. Eu paro de ser fotógrafo para ser um ser humano”, afirmou em uma entrevista para a publicação estrangeira Recount Magazine, em outubro de 2016.

O depoimento vinha ricamente ilustrado por imagens de conflitos em Gaza, na Síria, no Iraque – as mesmas que ele postava em seu perfil de Instagram.

Ali dizia ainda que gostava de surfe – intercalava a publicação de fotos sangrentas a supostas imagens suas sobre pranchas em praias que dizia serem na Austrália. Entre seus feitos, relatava ter até mesmo dado aulas do esporte a crianças na Palestina.

A cada reportagem ou foto que emplacava, Eduardo procurava novos veículos que publicassem seu material. Usava como provas de sua autenticidade o que já havia saído sobre ele na imprensa, além da grife ONU. No Instagram, publicava reproduções de páginas que teriam usado seu trabalho, como o jornal americano The Wall Street Journal.

Para aumentar a veracidade do que dizia, deixava públicos comentários calorosos de “amigos”. Entre os cumprimentos estavam elogios de um suposto repórter do The Wall Street Journal chamado Thomaz Griffin, por uma dessas publicações na imprensa internacional. A redação do diário americano afirmou à BBC Brasil que não emprega nenhum jornalista com esse nome.

Imagem publicada no jornal
Image captionImagem do americano Daniel C. Britt foi publicada invertida no jornal Wall Street Journal, método usado pelo suposto brasileiro Eduardo Martins | Foto: Reprodução

Ao mesmo tempo, por meio do Instagram, Eduardo se aproximou e conquistou a confiança de pessoas reais, conhecidas no meio.

Foi o caso do fotógrafo brasileiro Marco Vitale, que chegou a recomendar suas fotografias para editores de diversos veículos nacionais. Ele foi virtualmente apresentado a Eduardo por uma pessoa real, que teria sido namorada do fotógrafo. Falando à BBC Brasil ele se questionou se seria “o culpado” por promovê-lo no país.

Outra profissional renomada que mantinha contato frequente com ele era a romena radicada nos EUA Diana Alhindawi. Ela contribui frequentemente para o jornal americano The New York Times a partir de zonas de guerra e, em conversa com a reportagem, se mostrou surpresa com as suspeitas que recaíam sobre Eduardo.

Em suas postagens de Instagram, Eduardo se mostrava intensamente envolvido no cotidiano das guerras. Chegou a lamentar a morte de um fotógrafo amigo identificado na rede com o perfil @shadikadar, vitimado em um ataque a bomba na Faixa de Gaza. O luto foi apoiado por diversos comentaristas, que ignoravam que @shadikadar era provavelmente mais uma mentira do suposto fotógrafo.

Não existe na internet qualquer outra menção ao nome além daquela feita na mensagem fúnebre do próprio Eduardo.

Em junho deste ano, ele chegou à BBC Brasil. Ofereceu sua história e suas fotos gratuitamente. Recusou-se a falar por telefone, sob a justificativa de que estava no front em Mossul, no Iraque, espaço disputado pelas forças de segurança do país e pelo grupo extremista autodenominado Estado Islâmico. Mandava mensagens de voz por WhatsApp, sempre como arquivos de áudio, nunca instantaneamente gravadas.

CLIQUE AQUI para ler a reportagem na íntegra na BBC Brasil

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