Feminismo e “ideologia de gênero” como tarefas do pensamento para a transformação do mundo. (Dito de modo breve, a UNIR não é Samuel Milet)

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A fala do professor Samuel Milet, é exemplo de despreparo para condução de dialogo em situação de tensão moral

Disse em Mesa Redonda sobre Questões de Gênero na última Semana de Ciências Sociais da UNIR, que quase poderíamos parodiar Marx e Engels na célebre e poética frase inicial do “Manifesto Comunista”,  para dizer que um fantasma ronda o país, com o nome de “Ideologia de gênero”. Eu diria que o verdadeiro nome do fantasma é “Feminismo”. Pois o que realmente incomoda é o questionamento do estabelecido. A interdição que proíbe a mulher de pensar o mundo e agir politicamente para transformá-lo.

A fala do professor Samuel Milet, é exemplo de despreparo para condução de dialogo em situação de tensão moral, conforme disse a professora Débora Diniz, pessoa que tem um trabalho de muita qualidade e importância no campo da Bioética, da Antropologia e dos Direitos Humanos. Ouvi o áudio da fala de Milet há pouco e eis que ela apresenta em imagens trágico-cômicas a repetição da sentença que levou a morte em guilhotina a Olympe de Gouges, na Revolução Francesa de 1789: “ter ousado ir além {dos estritos limites sociais impostos ao} do seu sexo”.

Digo que o nome do fantasma é Feminismo porque toda questão relacional é política, no sentido de Hegel, acerca da dialética do senhor e do escravo. O Feminismo é movimento político que procura pensar a condição humana e nela o lugar que as instituições sociais elaboram para os sujeitos sexuados ao instituí-los enquanto sujeitos gendrados, ou seja, sujeitos em referência a estruturas simbólicas que tem por função interpelá-los, de modo a constituir suas subjetividades em identificação ao padrão social de referência.

O ordenamento dos gêneros é o ponto mais sensível de todas as sociedades, pois ela toca o fundamento antropológico da existencialidade humana, enquanto ser sensível, sexuado,  sensciente e histórico, portanto transformável. Entretanto, considerando a estrutura patriarcal de nossa sociedade, e para falar também da outra ponta do espectro político, no caso, o liberal inteligente Stuart Mill, o escândalo, digo, é a possibilidade de existência autônoma da “escrava moderna”. Ocorre que a mulher, como mostrou Levi-Strauss, é o bem mais precioso de qualquer sociedade: por ser insubstituível na função de reprodução (a sociedade ainda precisa do útero), como força de trabalho (também fundamental em qualquer sociedade) e em seu potencial erótico, em sentido amplo.

Obscurecer as relações de poder que instituem a relação entre os gêneros é parte do que está implicado na “ideologia de gênero”. Como toda ideologia, ela mostra e esconde. No caso, as profundas assimetrias que fundamentam a nossa sociedade e a nossa cultura. A assimetria étnica, de gênero e de classe e as assimetrias regionais, geopolíticas. A chamada questão de gênero é complexa porque envolve todas as questões humanas e sociais, desde a constituição de nossas subjetividades lida em matriz psicanalítica, até as instituições.

Para estudar as formas de poder que estruturam as relações sociais de gênero, necessitamos de dispositivos institucionais também complexos e consolidados por informação matemática, científica, artística, filosófica, entre outros saberes. Penso que é preciso criar estruturas institucionais capazes de explicitar a fundamental relevância das questões implicadas em nossa humanização. Há tempos venho dizendo às colegas de trabalho que necessitamos de algo como um “Instituto de Estudos de Gênero e Diversidade Cultural”, a exemplo do Instituto de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina, que realiza a cada dois anos, o Seminário “Fazendo Gênero”.

Penso um instituto voltado para pesquisa-extensão e que tenha como base as pesquisas realizadas na UNIR, sobre violência de gênero, sexualidade, desigualdade, feminismo…; seriam articuladas a experiência de outras instituições, a exemplo da ANIS (Instituto feminista de Bioética e Gênero), e dos projetos Promotoras Legais Populares e O Direito Achado na Rua, entre outros. Algo como um Instituto de Estudos de Gênero e Diversidade Cultural poderia dar a questão o status que ela requer para deixar de ser vista como algo marginal nas instituições acadêmicas onde quem pesquisa as relações de poder que estruturam e transversalizam as nossas relações sociais de gênero, são vistos\as no mínimo, como exóticos\as. Mas temos aumentado em número, gênero e qualidade, o que significa que todo esse trabalho social não é em vão.

Entretanto, entendo que para pensarmos um instituto qualquer, em matriz democrática, precisamos pensar um modelo que se oriente pelo princípio de trocas cooperativas entre os centros e grupos de pesquisa e ensino, e não no modelo do individualismo atomístico e acumulativo que informa a lógica das instituições estatais de fomento e controle das atividades educacionais e científicas. O saber é um bem coletivo universal e partilhá-lo poderia ser o princípio de orientação desse tipo instituição.

Acredito que o ofício de ensinar requer a atividade do pensamento. Mas o problema do nosso tempo (que coincide com a ameaça totalitária e com a exacerbação da violência, Arendt) é realizar o trabalho do pensamento capaz de inquirir os fundamentos de qualquer tipo de poder que aniquile a criatividade, a inteligência, a beleza, a sensibilidade compreensiva, a diversidade e, conseqüentemente, a liberdade respeitosa do limite que a presença do outro pode requerer.  Penso que quanto ao caso Samuel Milet, é preciso ir além dos atos punitivos cabíveis, para dar uma resposta com a qualidade que imprimimos ao ofício de ensinar, que segundo o meu entendimento, e de muitos\as que trabalham em educação, deve ser fundamentado no trabalho de pensar e realizar o mundo no qual queremos viver.

Porto Velho, 23 de outubro de 2016.

 


[i] Arneide Bandeira Cemin é doutora em Antropologia (USP), com pós doutorado em Bioética pela UNB, professora do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Mestrado e Doutorado de Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente; pesquisa imaginário social e relações sociais de gênero, e busca discutir Bioética Intercultural e Feminista

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