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Festa do Divino fortalece a religiosidade no Vale do Guaporé

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A romaria fluvial do Divino Espirito Santo, venerado no Vale do Guaporé pelas comunidades ribeirinhas do Brasil e Bolívia, passou pelo município de Costa Marques e chega à localidade de Porto Murtinho, em São Francisco do Guaporé, nesta quarta-feira (11), por volta das 17h. É o desfecho da manifestação religiosa que tem a fé como sustentáculo, ao mesmo tempo em que renova a esperança de dias melhores para estes povos.

Em Porto Murtinho, após os atos litúrgicos que expõem o Espírito Santo como caminho para chegar a Deus, o grupo que conduz a romaria no batelão encerra o período de regras rigorosas que foi cumprido nos últimos 40 dias.

São homens de várias idades que ficam protegidos das eventuais tentações, longe das famílias. Eles dedicam dia e noite às orações e cânticos para que as promessas feitas pelos devotos sejam atendidas pelo Espírito Divino. “A romaria fluvial visita as comunidades para renovar a fé e manter a chama da esperança entre os ribeirinhos. Este povo é esquecido e carente”, explicou Francisco de Assis, que nesta jornada é o encarregado da coroa do Divino.

Dentro do carité, que significa pequena igreja, igreja no rio, todos têm funções definidas e regras de comportamento que precisam ser obedecidas, sob pena de o romeiro ser deixado na próxima localidade, para a tristeza de todos.

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Francisco é um dos que seguem no batelão coberto com palhas, o carité. Ele diz que a romaria é, em alguns casos, a única presença da Igreja Católica numa comunidade, porque faltam padres para atender a regiões tão distantes. Por onde a romaria passa, o fervor religioso se manifesta. Famílias inteiras deixam os afazeres domésticos e vão às casas visitadas pelos romeiros. Ali são entoados cânticos e feitas orações. Se for momento de refeição – café, almoço, jantar – todos são convidados. Não é permitido recusar a oferta.

COSTA MARQUES

Na segunda-feira (9), o cortejo passou por Costa Marques. A procissão com a bandeira, cetro e coroa do Divino foram acompanhados por devotos em todas as visitas. A parada mais longa  aconteceu na Paróquia do Divino, no centro da cidade. O templo foi elevado à dignidade de Basílica Menor pelo papa Bento XVI “para honrar a fé no Senhor Divino Espírito Santo, transmitida pelos afro-brasileiros no Vale do Guaporé”.

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Mais tarde, o cortejo seguiu até o porto da cidade, onde aconteceu o momento mais emocionante. A romaria deixou a cidade com o ritual conhecido, mas que todos querem rever. O batelão deu três voltas em frente à cidade, simbolizando a presença divina na terra e na água, e seguiu com cânticos entoados  pelos foliões, incluindo crianças que acompanham a romaria e que também ficam longe da família e obedecem a rigorosos critérios comportamentais.

RONQUEIRA

Os remeiros cumprem promessa usando a força dos braços para levar a embarcação aos locais previstos no roteiro. Os movimentos com o remo são ritmados. Do porto, a população observa a forma como os remos são operados. São três movimentos diferentes, e num deles a água do rio é jogada para cima, provocando um efeito que parece hipnotizar os observadores.

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Fogos são disparados do porto e respondidos por devotos de Buena Vista, localidade boliviana para onde o cortejo segue. O anúncio da chegada são os tiros de ronqueira, um canhão artesanal que é abastecido várias vezes com pólvora vigorosamente socada.

Em Buena Vista, a devoção dos ribeirinhos bolivianos segue o mesmo ritual, inclusive com a doação de donativos que serão utilizados na jornada que se segue e na festa que acontece partir desta quarta-feira. Alguns têm tão pouco, que oferecem apenas um prato de arroz.

Da localidade boliviana, o batelão retornou ao Brasil, e seguiu para Santa Fé, a oito quilômetros da cidade de Costa Marques, na zona rural.

A procissão fluvial chegou às 18h40, já noite em Santa Fé. Jovens, idosos e crianças aguardavam pacientemente a romaria. Quando o primeiro tiro de ronqueira soou, alguns devotos entraram na água escura do rio Guaporé para pagar promessas. A fé os fez ignorar eventuais riscos oferecidos pelo rio. Momentos depois, foram os primeiros a beijar a bandeira, o cetro e a coroa do Divino, os símbolos terrenos do Espírito Santo, o Espírito de Deus. Mais cânticos, orações, uma noite de vigília e nova jornada pelo rio até Santa Izabel.

O ponto alto da romaria é Porto Murtinho, de onde o cortejo saiu no Domingo de Páscoa. A localidade está preparada para a acolhida. As casas foram pintadas, bandeirinhas estão em todas as ruas e barracões são preparados para servir como refeitórios e cozinha. É lá que acontecerá, após cumprida toda a liturgia, a grande festa, com direito a baile, comidas e bebidas.

Para facilitar o acesso dos milhares de turistas que devem participar, o governo de Rondônia realiza obras de infraestrutura. Equipes do Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura e Serviços Públicos (DER) preparam a estrada que leva ao porto. Enquanto a Superintendência Estadual da Juventude, Cultura, Esportes e Lazer (Sejucel) repassou recursos para a construção de galpões, para o som e palco.

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HISTÓRIA DE DEVOÇÃO

A devoção ao Divino Espírito Santo iniciou em Portugal, no século XIV, quando o reinado vivia momentos turbulentos. O imperador Diniz decidiu tornar seu sucessor um filho, fruto de relacionamento ilegal, em detrimento do filho legítimo, dom Afonso. Este declarou guerra contra o pai para defender seus direitos, e uma batalha se tornou iminente. A rainha Isabel recorreu ao Espírito Santo.

A rainha prometeu que se a guerra fosse evitada mandaria fazer uma réplica da própria coroa e colocá-la para peregrinar para difundir o culto ao Divino Espírito e  arrecadar doações para os pobres. Quando a batalha entre pai e filho ia iniciar, a rainha prostrou-se de joelhos com algumas monjas entre as legiões oponentes.

Dom Diniz mandou um emissário até as mulheres para saber o que estava acontecendo. A rainha contou sobre sua promessa. O rei cedeu ao apelo, entendeu-se com o filho e o derramamento de sangue foi evitado.

O culto ao Divino chegou ao Brasil através dos portugueses, e se espalhou com os escravos. Suas regras, que são confiadas à irmandade, são claras, e nada pode ser feito para contrariá-las. O ritual obedece ao que era obedecido há 122 anos.

Texto: Nonato Cruz
Fotos: Ésio Mendes
Secom – Governo de Rondônia

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