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“Gravidade” aponta o caminho para o uso de tecnologia digital

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No momento em que a indústria cinematográfica pena para se adaptar às mudanças de hábito causadas pela internet, “Gravidade”, excelente ficção científica do diretor mexicano Alfonso Cuarón, pode oferecer algumas respostas.

Até agora, o principal ataque de Hollywood a seus concorrentes – dos downloads e serviços on demand até a sofisticação e barateamento dos aparelhos que hoje criam uma sala de cinema na sala de casa – tem sido apostar em grandes blockbusters que, segundo garantem os estúdios, precisam ser vistos na telona.

Estes filmes-evento (geralmente franquias de ação ou de super-heróis) partem do princípio de que “mais é mais”: mais batalhas, mais explosões, mais barulho, mais efeitos especiais e mais 3D, um item quase obrigatório na promessa de “experiência cinematográfica” – além, é claro, de uma forma de conseguir milhões de dólares extras com o ingresso mais caro.

Em muitos casos o retorno financeiro é excelente, mas em poucos a tecnologia digital de fato parece acrescentar algo fundamental ao filme. “Gravidade” chega para mudar o jogo, no mais ousado, sofisticado e bem-sucedido uso do 3D no cinema desde “Avatar” (2009).

O longa acompanha os astronautas Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalski (George Clooney) em uma missão – a primeira dela, a última dele – para reparar o telescópio Hubble. Tudo corre bem até que a destruição de um satélite russo causa uma reação em cadeia e espalha detritos pelo espaço, que danificam o ônibus espacial Shuttle, cortam a comunicação de Stone e Kowalski com a Terra e os deixam sozinhos na luta por sobrevivência e por uma forma de voltar ao planeta.

Os diálogos de “Gravidade” têm muito mais inteligência e humor do que a média dos blockbusters, mas o roteiro – escrito por Cuarón e seu filho, Jonas – é bastante convencional e hollywoodiano, centrado em uma mulher que precisa superar um trauma do passado para poder seguir em frente.

O renascimento carrega um tom espiritual por vezes incômodo, e certamente não há no filme de Cuarón a mesma profundidade de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, clássico de 1968 dirigido por Stanley Kubrick. Mas, como “2001”, “Gravidade” é um filme de sensações, provocadas principalmente pelo inteligente jogo entre som e movimento que acompanha belíssimas imagens.

Por um lado, Cuarón promove uma constante quebra de expectativas, entregando silêncio quando se espera barulho; por outro, encara a ausência de gravidade como condição primordial do filme, explorando-a a todo momento e muito além de objetos flutuantes. Juntos, os dois recursos resultam em um estado de imersão.

A tecnologia, portanto, ajuda “Gravidade” a conseguir algo raro entre blockbusters: provocar emoção genuína. Na sala do cinema, sente-se a tensão quando os detritos se aproximam, complicando uma situação que já parece impossível; o desespero quando a câmera nos coloca dentro do capacete de Stone, que respira ofegante conforme o nível de oxigênio cai; a comoção quando ela ouve algo tão banal quanto o latido de um cachorro em uma frequência de rádio da Terra.

O elenco reduzido e afinado também ajuda. Clooney oferece uma voz experiente e equilibrada em meio ao caos, enquanto Bullock se entrega física e emocionalmente a uma personagem difícil. Se não é uma atriz brilhante, ela parece ter refinado seus critérios e encontra em “Gravidade” o melhor papel da carreira.

Cuarón, por sua vez, se firma como nome forte em Hollywood, após transformar mais de quatro anos de trabalho em um filme imperdível e que aponta o caminho para o uso de tecnologia digital no cinema. Ao leitor que, como eu, sofre só de pensar nos desconfortáveis óculos, fica um conselho: desta vez, escolha o 3D.

 

Fonte: UltimoSegundoIg

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