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Homem é preso por estupro e cárcere privado de jovens que sonhavam com carreira no futebol

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Onze garotos do Pará acreditaram no homem que prometia uma carreira

A repórter Thais Lazzeri, da revista Época, conta a história de um homem calvo, baixo e gordo, Ronildo Borges de Souza tornou-se, aos 43 anos, ídolo de uma legião de aspirantes a jogador de futebol em Breu Branco, interior do Pará. Batata, como é conhecido, nunca esteve em campo nem levantou uma taça de campeão. O mais próximo que chegou de jogadores de verdade, como Neymar e Renato Gaúcho, foi para tirar fotos, que carrega em um álbum. Mas é um craque na arte de convencer meninos de que é capaz de torná-los jogadores profissionais em um grande clube.

Ronildo teve a sorte de esbarrar em Maradona – não o argentino, mas seu conterrâneo Dionísio Neto Viana –, que  dá aulas gratuitas de futebol para meninos carentes. Ronildo prometeu levar os melhores deles para equipes de São Paulo. “Era tudo o que a gente queria”, disse o filho de Dionísio, que pede anonimato. Pais e filhos enxergaram um futuro de oportunidades. Da seletiva, 11 foram escolhidos – um deles, o filho de Dionísio. Ronildo pediu R$ 1.000 por jogador, para os custos de viagem e estadia. Alguns tomaram dinheiro emprestado e entregaram a Ronildo. Embarcaram num ônibus em 13 de fevereiro.

Depois de três dias de viagem, 11 meninos entre 13 e 20 anos, ansiosos, desembarcaram em São Paulo e foram para uma pensão. Quando perguntaram sobre os testes em um tal Barcelona Futebol Clube, homônimo desconhecido do gigantesco clube espanhol, Ronildo escapou. “Ele falou que, como a gente demorou para juntar dinheiro, cancelaram os testes”, diz um dos garotos. Por 20 dias, eles foram, de ônibus, da pensão a uma quadra para, em tese, treinar. Então se mudaram para uma casa alugada em Cidade Dutra, Zona Sul da cidade, onde Ronildo foi preso semanas depois. Com uma camisa rosa do Barcelona, ele foi levado para o 48º Distrito Policial, acusado de abuso sexual e de manter os garotos em condições análogas à escravidão. 

Ronildo tinha na bagagem um kit de golpista futebolístico: um histórico escolar em branco da Secretaria de Educação de Ituporanga, no Pará, três certidões de nascimento em branco, seis carimbos de cartório – quatro com nomes de escrivães, um identificado como de um gestor escolar e outro de uma escola municipal de ensino fundamental. Era um material básico para falsificar a idade dos meninos e ludibriar os clubes. Os meninos dizem que Ronildo sugeriu que fizessem exatamente isso, mas nenhum deles aceitou.

Ouvir os meninos mais velhos contar o que viveram durante 40 dias com Ronildo é assustador. Todos afirmam ter sofrido algum tipo de abuso na casa de Cidade Dutra. Ronildo apresentou uma folha com uma lista de afazeres e a distribuição de tarefas. Confiscou os documentos de todos, proibiu-os de conversar com vizinhos e de sair de casa em sua ausência – regras que, felizmente, eles descumpriram. O que parecia ser normas de um alojamento é entendido de uma forma completamente diferente pela Justiça. Confiscar o dinheiro dos meninos é estelionato. Quando Ronildo sentenciou o que fariam ou não, colocou-os numa situação análoga à da escravidão. A proibição de movimentação é traduzida na legislação como cárcere privado. Mas nada teria provocado consternação não fosse a denúncia de que Ronildo abusava sexualmente dos garotos.

Cinco garotos disseram à polícia ter sido estuprados por Ronildo. “Uma vez viu Ronildo espreitando a vítima pela fresta da porta do banheiro, e que tentou agarrá-lo na saída”, diz um dos depoimentos. “Que eram comuns os pedidos de relação sexual e passar a mão no pênis dos meninos, que tentava beijá-los.”Segundo os meninos, Ronildo pedia para conversar com os menores em particular. No começo, oferecia refrigerantes. Então, começaram os pedidos feitos individualmente. Como mostram as estatísticas sobre crimes sexuais contra menores, o agressor procura os mais vulneráveis na ausência de testemunhas. Ronildo ofereceu chuteiras novas e até uma vaga num clube de futebol em troca de sexo. Um dos meninos conta o que ouviu de Ronildo ao recusar a proposta: “Vou matar você aqui e ninguém vai saber”. Ronildo usava seus 88 quilos para pressionar a vítima. Um garoto de 14 anos disse à polícia que Ronildo pediu para dormir a seu lado todas as noites e que acariciava sua barriga e seu órgão sexual. O menino relatou que Ronildo queria forçá-lo a fazer sexo e que, ao tentar se desvencilhar, foi agredido com socos e colocado para fora de casa. Apesar dos abusos e de manter contato com os pais, nenhum dos garotos pediu para voltar ao Pará – o sonho do futebol prevaleceu.

Ronildo foi preso em flagrante. Com ele, os policiais apreenderam fotos de outros adolescentes. Nas repugnantes imagens, os garotos, do Maranhão, vestiam calcinha e estavam ao lado de Ronildo, que aparece sorrindo e com uma lata de cerveja na mão. “Sinal de que ele já fazia isso antes”, afirma o delegado Pedro Luis de Souza, responsável pelo caso. Ronildo, realmente, não é novato na área dos golpes e crimes. Tanto ele quanto outro aliciador, Luciano Pereira Dias, o Belém, são investigados pela Delegacia Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa desde 2014 pelos mesmos crimes.Em 2011, Ronildo foi acusado de negociar 12 meninos do Pará com a Portuguesa Santista, clube do litoral de São Paulo. Ele e o clube foram condenados no ano seguinte. Consta na sentença que os réus não poderiam inscrever ou intermediar a inscrição de atletas e que “não se pode aceitar que pessoas ligadas ao clube ou empresários com interesses comerciais sejam guardiões dos adolescentes”. A lei proíbe meninos menores de 14 anos de ter contrato profissional. Na ocasião, o juiz considerou improcedente a denúncia de tráfico de pessoas contra Ronildo.

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