Índios reclamam de abandono e pedem mais atenção do poder público de Rondônia

In Porto Velho
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Indígenas reclamaram das condições em que vivem os moradores da Casa do Índio. Questões foram discutidas em audiência pública realizada na Câmara de Vereadores.

Uma audiência pública foi realizada na tarde da última terça-feira (18) na Câmara Municipal de Porto Velho para debater questões indígenas. Índios das etnias Karipuna e Karitiana fizeram uso da tribuna para reclamar do abandono e do preconceito, segundo eles, sofrido inclusive no âmbito acadêmico. Eles também pediram apoio ao Estado e Município para ter acesso a serviços básicos, como água e saneamento.

O encontro reuniu representantes de quatro etnias: Karipuna e Karitiana, Cassupá e Kaxarari, e o Ministério Público Federal em Rondônia (MPF) e Fundação Nacional do Índio (Funai). Na ocasião, os índios pediram melhorias nas áreas de saúde e educação, proteção de territórios e garantia de direitos já conquistados.

Fernando Karitiano, que foi personagem de um vídeo apresentado na abertura da audiência pública, disse que os Karitianas que residem na Casa do Índio da capital, dependem da água pluvial para tomar banho e lavar roupas.

“Colhemos a água da chuva em uma caixa, mas não é o suficiente para suprir nossas demandas, mesmo as necessidades básicas são feitas em um matagal que fica aos fundos da Casa do Índio”, disse em tom de lamento. “Nossos irmãos estão pedindo socorro, estamos abandonados”, completou.

Valdemir Barabada Coeryn, na tribuna, diz que 98% dos índios formados estão desempregados (Foto: Toni Francis/G1)
Valdemir Barabada Coeryn, na tribuna, diz que 98% dos índios formados estão desempregados (Foto: Toni Francis/G1)

Respeito

Durante a audiência, o estudante Cleidson Karitiana reforçou a questão da discriminação sofrida pelos indígenas. “Dentro da universidade tem pessoas que acreditam que lugar de índio é no mato. Perguntam por quê estou estudando se sou índio e zombam, dizendo que sou bolsista”, reclamou.

Outro estudante, Valdemir Barabada Coeryn, diz que falta projetos que permitam ao índio ter dignidade, tanto na vida profissional quanto na estudantil. “Vivo de vender artesanato com minha mãe, ganho pouco e, muitas vezes, tive que ir a pé, andando quilômetros, para a faculdade”, acentuou.

Valdemir ainda pontuou as dificuldades enfrentadas por quem vive na Casa do Índio. “Uma parente minha, que mora na Casa do Índio, tem que andar quase um quilômetro todo dia, para ter acesso à água do Rio Madeira, para tomar banho e lavar roupa, isso tudo enfrentando uma descida íngreme, escorregadia e, muitas vezes, ocupada por usuários de drogas”, completou.

Cotas

Valdemir Barabada reclamou também da falta de políticas públicas voltadas à valorização do índio e das cotas na universidade. Segundo ele, o número de indígenas na academia é pequeno. “Precisamos de um espaço para expor nossa arte, nossa dança e nossos costumes. Precisamos de um alojamento para os estudantes, e a política de acesso do índio à universidade tem que ser posta em prática”.

Nesta semana, o Ministério Público Federal em Rondônia (MPF-RO) recomendou à Universidade Federal (Unir) que altere o formulário de autodeclaração étnica. Segundo o órgão, as vagas da cota para indígenas podem estar sendo ocupadas por não-indígenas no vestibular da Universidade Federal.

A recomendação foi feita à Unir com base em uma reclamação de lideranças indígenas apresentada ao MPF-RO. O órgão observou que o formulário de autodeclaração de raça e etnia utilizado pela Unir pode estar contribuindo para que outros alunos preencham indevidamente as vagas da cota dos indígenas.

O procurador da República Daniel Lôbo explica que no modelo atual do formulário de autodeclaração o candidato apenas marca um “X” para identificar sua raça ou etnia (se é indígena, negro ou pardo). Por isso, o MPF expediu uma recomendação ao reitor da Unir, Ari Ott, para que a partir do próximo vestibular adote formulário de autodeclaração qualificada para indígenas.

No novo formulário, o candidato deverá declarar acerca da comunidade ou povo indígena a que pertence, identificar terra indígena, aldeia ou endereço urbano ou rural em que vive, bem como o parentesco por consanguinidade ou adoção que demonstre sua ascendência indígena.

Para o MPF, indígenas que vivem em meio urbano podem ser contemplados pela cota, mas o simples parentesco por afinidade, adquirido por meio do casamento de não-indígena com indígena, por exemplo, não dá direito a utilizar vaga da cota destinada aos indígenas.

Comunidades indígenas querem espaço para expor e comercializar seus artesanatos (Foto: Toni Francis/G1)
Comunidades indígenas querem espaço para expor e comercializar seus artesanatos (Foto: Toni Francis/G1)

Fonte: g1/ro

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