Lojistas pedem socorro, não aguentam mais assaltos, e o restante da população também

Em média, uma loja é assaltada a cada dois dias, prejuízos são enormes; faltam policiais e sobram apadrinhados

Porto Velho — A falta de segurança em Rondônia, que é responsabilidade do governo do Estado, está causando uma série de prejuízos a população, principalmente de Porto Velho, capital que atravessa uma grave crise financeira desde que Confúcio Moura assumiu o comando do Estado em 2011. Promessas feitas durante a primeira campanha em 2010, diziam que seriam feitos investimentos na industrialização, geração de empregos e educação, mas se mostraram uma verdadeira fraude eleitoral. Em função desse estelionato aplicado pelo governo, a crise financeira agravou na cidade e como reflexo imediato, o aumento da criminalidade. Os números apresentados pela segurança pública são fantasiosos, descaradamente maquiados e quem mora na cidade sabe que isso é verdade.

Para se ter uma idéia, em média são registrados 160 boletins de ocorrência, apenas em Porto Velho, e não são feitos mais, por falta de polícia. A Polícia Militar, linha de frente no combate ao crime, está desafasada em relação ao efetivo. Em 2012 a PM tinha um total de 5.528 homens, incluindo Corpo de Bombeiros, mas esse número inclui também os oficiais, que não vão para as ruas, e aqueles que estão à disposição de outros órgãos, como Tribunal de Justiça, Ministério Público, segurança do governador e segurança nos demais órgãos do Estado. O prefeito afastado de Ouro Preto do Oeste, Alex Testoni, chegou ao cúmulo de criar uma “casa militar” onde mantinha para atender seus interesses, quatro policiais militares.

Segundo levantamento feito pelo Ministério Público, Porto Velho conta com apenas um quarto da quantidade de policiais militares que deveria ter. O ideal, estatísticamente, seria 1 policial para cada 250 habitantes e a média em Rondônia é de 1 PM para cada mil pessoas. Ainda segundo esse levantamento, os números da segurança pública apresentados pelo Estado não batem com os dados do Ministério Público, de 2010 a 2015, foram instaurados 98.214 inquéritos e relatados foram somente 33 mil. Ou seja, o governo mente descaradamente. Atualmente, apenas 3.385 homens da PM estão nas ruas, o restante cumpre outros serviços burocráticos. Na capital, atualmente, cerca de 6 viaturas da PM estão disponíveis para atender a população. Mas já chegou a ter apenas 3 circulando, por incrível que pareça.

Lojistas não aguentam mais

Os empresários que possuem lojas na Avenida Carlos Gomes, uma das principais área de comércio da capital, não aguentam mais terem suas lojas arrombadas e furtadas nas madrugadas. Os ladrões não se intimidam com câmeras de segurança, quebram as vitrines, entram e levam o que querem. Os prejuízos são enormes. Os que possuem mais recursos, contratam vigilância armada, o que não é o caso da maioria. As investigações sobre os roubos ficam paradas, porque a Polícia Civil, responsável pela condução dos inquéritos está sobrecarregada, sem nenhuma condição de trabalho, “a gente resolve o que vai chegando, os casos mais velhos, e por mais velhos quero dizer da semana passada, vão aguardando. Mas a gente faz o que pode”, explica um delegado em meio a mais de 10 mil inquéritos abertos apenas em sua delegacia. Alguns delegados acumulam mais de 15 mil, mas não é por falta de querer resolver, é por falta de policiais, viaturas e condições mínimas de trabalho.

Caminhadas do governador acompanhado de seguranças virou meme nas redes sociais
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Roubos a residências

O mesmo drama dos lojistas é sentido pela população de um modo geral. Os roubos e invasões à residências proliferaram em escala assustadora. Cerca de 10 casas são invadidas a cada 24 horas apenas em Porto Velho. Alguns casos envolvendo violência, proprietários são espancados e em outros casos os danos são apenas materiais. E não tem distinção de classes, todos são roubados, dos mais pobres que muitas vezes possuem apenas um televisor e um botijão de gás aos mais ricos. Na semana passada, um condomínio de classe média registrou o roubo de dois carros, em plena luz do dia. A Polícia Civil, que vinha monitorando a quadrilha a algum tempo, conseguiu capturar os ladrões, mas eles não ficam presos muito tempo. E esse é outro problema. Delegados e policiais relatam que normalmente os criminosos são sempre os mesmos, alguns tem mais de 20 passagens pelo sistema e eles continuam voltando. A ressocialização não existe. E cada vez mais menores se envolvem em crimes. Em conversa com vários desses infratores, eles relatam que faltam opções simples em suas vidas, como escolas e práticas esportivas. Nesse quesito o governo de Confúcio Moura também é uma enganação. O Estado praticamente aboliu o incentivo à práticas esportivas. No quesito educação, os números são assustadores, mas esses também o governo distorce.

Seguranças particulares

Atualmente tem policia para todo lado, menos onde deveria, que é nas ruas. E quando o assunto é desvio de função, abrange tanto PM (incluindo bombeiros) quanto polícia civil. No DER e DEOSP existem cerca de 10 policiais e bombeiros “à disposição do órgão”. No Centro Político Administrativo do governo do Estado são aproximadamente 100 homens que estão trabalhando nas mais diversas áreas. Aprovados em concursos recentes já estão “à disposição”. Na Assembleia Legislativa também estão “à disposição” um efetivo total de pelo menos 30 policiais. Apenas o ex-presidente da Casa, deputado Hermínio Coelho conta com 4 policiais que fazem sua segurança de sua família, a justificativa seriam as ameças por ele sofrido enquanto denunciava o atual governador. O presidente, Maurão de Carvalho anda sem segurança, “ainda não precisei”, declarou o deputado. Existem policiais à disposição do Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas, Ministério Público, Caerd, prefeituras e dezenas de outros orgãos públicos. Mesmo que o governo resolvesse convocar todo esse pessoal, eles não teriam como e nem onde trabalhar. Faltam delegacias, viaturas e até cadeia.

Planejamento zero

Secretário de segurança foi passear na Colômbia com comitiva. Até hoje, nenhum resultado prático
Secretário de segurança foi passear na Colômbia com comitiva. Até hoje, nenhum resultado prático

Nos últimos anos o governo do Estado fechou 4 das 8 delegacias de polícia que haviam em Porto Velho. As que restaram, funcionam em horário comercial e normalmente com um escrivão e um policial. As especializadas (roubos e furtos de veículos, homicídios, crimes contra o patrimônio e delegacia da mulher) estão entulhadas de inquéritos abertos e sem previsão de conclusão. Os prédios estão caindo aos pedaços literalmente, e não raramente as delegacias ficam sem comunicação. O governo insiste em construir Unidades Integradas de Segurança Pública (UNISP) que não foram concluídas e vão distanciar ainda mais a polícia das comunidades. Nos últimos anos, o governo simplesmente fechou os postos de polícia comunitária em diversos bairros. Em alguns, a população se uniu para protestar e chegaram a atear fogo em pneus e fechar ruas, devido a violência. Na região dos bairros Ulisses Guimarães, Mariana e adjacências, os bandidos impuseram um toque de recolher. O 8º DP, que atende a região raramente fica aberto e registra ocorrências simples. Normalmente as vítimas são encaminhadas para a Central de Flagrantes, que fica na avenida Jorge Teixeira, há mais de 10 quilômetros de distância. A realidade na central também não é diferente das demais delegacias. Recém reformada e entregue com pompa, o prédio apresenta graves problemas e teve dois princípios de incêndio recentemente. O prédio também apresenta falhas estruturais, exala mau cheiro em todos os ambientes e vive lotado, devido ao fato de estar centralizando todas as ocorrências. Pior de tudo isso, é que o governo não tem nenhum plano emergencial para a segurança pública em Rondônia. No início desse ano, a cúpula da segurança viajou para a Colômbia à pretexto de “intercâmbio de informações referentes a políticas e gestão de segurança pública para implementação no Estado de Rondônia”. Foram cinco dias de passeio, às custas dos cofres públicos e o resultado prático dessa viagem até hoje não foi visto, exceto as “selfies” tirados pelos viajantes.

Logo após o retorno da viagem, o governador cobrou resultados pelo Facebook, disse na época que “todos já haviam viajado, feito cursos e estava na hora de apresentar resultados”. Nada aconteceu. O único resultado, até hoje, foi a conta paga pelo povo. E continuamos pagando.  Os assaltos não param de acontecer e sequer o sistema de câmeras estrondosamente anunciado funciona. Pago com recursos de compensação social das usinas, parte do sistema foi instalado, mas não funciona. E quando, e se funcionar, só vai servir para observar os crimes acontecendo, já que o problema principal continua, falta polícia.

Aprovados não tem onde treinar

O governo realizou, ano passado, um concurso público para a Polícia Civil e ainda não convocou os aprovados porque espera concluir a reforma da Academia de Polícia para que os novos agentes possam treinar. As obras se arrastam e nem 10% foi concluído e possivelmente não seja ainda este ano. Mas essa desculpa serve para mascarar um problema ainda maior, o governo não tem caixa para essas contratações. Gastando aos tubos com programas sem nenhum efeito prático para a população, como o tal Plano Futuro que torrou milhões em publicidade, além de conceder reajustes salarias de forma desordenada, o caixa ficou comprometido. A Polícia Militar já fala em greve e a polícia civil também vem discutindo essa possibilidade. O governo também montou um aparelhamento de servidores comissionados sem função alguma, com salários altíssimos apenas para agradar esposas e apadrinhados. Recentemente a assembleia legislativa realizou uma audiência pública para debater a situação da segurança pública, e terminou o debate chegando a conclusão lógica, falta polícia e o Estado não tem como contratar. Enquanto isso a população fica refém dos marginais e quem tem recursos corre para condomínios e prédios e quem não tem, precisa contar apenas com a fé e a sorte. E nos condomínios, com os investimentos cada vez maiores em segurança, a conta começa a ficar salgada até para quem tem dinheiro. Assim é o governo da cooperação, coopera com todo mundo, até com a bandidagem.

News Reporter
Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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