Medicina dá os primeiros passos para desvendar autismo

Quando o menino Russell nasceu, parecia perfeitamente “normal”. Só que seus olhos, de um profundo azul, logo diriam tudo. Ele não fixava o olhar em ninguém, nem na mãe, nem no pai. Um ano, e ele mal falava. Na escola, não brincava com ninguém e, se brincava, não conseguia entender os joguinhos. Não tinha amigos, pois não se interessava por ninguém. Vivia fechado em seu mundo particular. Alguém diria que era insensível, que vivia no “mundo da lua”. Pois tudo o que fazia era ficar num canto, empilhando objetos, repetindo frases, sozinho.

Russell é autista – um mistério da mente que, apesar de uma prevalência maior que a da síndrome de Down, é ainda pouco compreendido. Para começar, não é um transtorno, mas um grande espectro de diferentes transtornos de causas desconhecidas, que se convergem em 3 traços fundamentais em comum. Primeiro, o autista não vê as pessoas como indivíduos, mas como objetos. E, sem empatia, vive em um mundo só seu. Segundo, tem grave dificuldade de comunicação e, portanto, é incapaz de demonstrar o que quer ou sente. E, terceiro, é preso à rotina. Ele repete comportamentos obsessivos por muito tempo, seja falar a mesma frase várias vezes sem contexto, seja organizar objetos a esmo.

Agora, como esses aspectos interferem na vida da pessoa, em que grau e associado a quais atitudes varia muito. Há os casos mais graves, quando há um retardo mental sério e a criança não aprende a falar praticamente nada. Nem sequer os pais ela consegue reconhecer. São as imagens que se veem na televisão de crianças girando em torno de si mesmas durante horas, completamente isoladas em seu mundo. Já em outros casos, a criança fala, pode até ficar repetindo uma frase que ouviu do vizinho ou viu na TV, mas não consegue se comunicar. Entende enunciados simples, mas não interpreta nada além, muito menos figuras de linguagem, como metáforas.

O termo autismo surgiria em 1912 – então, considerado apenas uma “alienação” em pacientes com esquizofrenia. Só em 1943 o austríaco Leo Kanner falou de autismo como um transtorno propriamente dito. Na época, achava-se que a causa era o ambiente em que a criança era criada. A culpa era dos pais. Hoje se acredita que a síndrome é causada por uma constelação de fatores diferentes, que não incluem influências psicológicas. Mas, finalmente, a ciência começa a encontrar padrões de variação genética comum entre autistas. Em um estudo publicado em 2010 na revista científica Nature, foi identificada em autistas uma prevalência 20% maior de uma anomalia rara em que se duplicam ou apagam certos genes – especialmente os relacionados ao desenvolvimento da criança.

Essas pequenas pistas estão muito distantes de uma eventual cura. Mas isso não quer dizer que nada possa ser feito. Quando o diagnóstico é precoce, a criança pode ser tratada com ajuda da terapia familiar e desenvolver certas aptidões, como socializar-se um pouco mais e melhorar a linguagem. Terapia comportamental, que reinforça comportamentos positivos com prêmios, pode ensiná-lo a mostrar o que quer. E remédios também atenuam alguns sintomas. Embora não haja medicamentos específicos para o autismo, eles atenuam sintomas como agressividade e depressão.

Síndrome do gênio isolado

Ele era um gênio. Aos 5 anos de idade, já havia composto uma importante peça musical. Mas tinha um comportamento difícil. Não se relacionava com os outros; na verdade os ignorava. Cresceu sem amigos, seu casamento afundou rapidinho e o que sobrou de sua vida foi o que tinha de indiscutivelmente único: a genialidade musical. Essa é a história de Mozart, mas poderia ilustrar a vida de outros portadores de um tipo moderado de autismo, o transtorno (ou síndrome) de Asperger.

Em The Genesis of Artistic Creativity (“A Gênese da Criatividade Artística”, sem tradução brasileira), o psiquiatra Michael Fitzgerald analisou a vida de 21 gênios das artes e concluiu: parte dos problemas que tiveram era decorrente dessa condição – assim como a sua genialidade. Ou seja, Mozart, Andy Warhol, Franz Kafka e George Orwell eram gênios autistas.

Portadores do transtorno de Asperger têm a mesma dificuldade para socializar, criar relações afetivas, comunicar-se, além da propensão a comportamentos repetitivos e solitários. Mas há uma diferença brutal em relação a outros autistas. Seu QI é acima da média. Às vezes, muito acima. Tanto que diferenciar um superdotado de um portador de Asperger na infância é quase impossível.

A razão para sua vantagem está em seu próprio problema. Como o mundo externo não importa, quem tem transtorno de Asperger consegue se focar mais em um único interesse: música, ciência, literatura. Como não consegue se comunicar verbalmente, volta-se para o estudo. O mesmo comportamento obsessivo de alinhar objetos e buscar semelhanças em coisas aleatórias os torna cientistas natos.

Daí os casos como o do economista Vernon Smith, que, ao ganhar o prêmio Nobel, atribuiu o prêmio ao autismo. Afinal, podia “desligar-se do mundo” quando quisesse e se concentrar só no estudo. Foi assim que Asperger virou pop.

Superinteressante

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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