Painel Político
A maior agência de notícias em seu Whatsapp do Brasil

Menor que matou ex-namorada e enviou imagens para amigos sabia de punição branda

0

A dona de casa Rosemary Dias Ferreira, de 44 anos, diz que ainda espera a filha Yorrally, de 14 anos, cruzar a porta, no final da tarde, com uniforme da Escola Militar do Novo Gama, um município de Goiás nos arredores de Brasília. Mas, desde a última segunda-feira, esta não é a única imagem que invade seus pensamentos de hora em hora: Rosemary assistiu um vídeo no qual a menina implora para o ex-namorado não executá-la. Na noite do crime, o delinquente tinha 17 anos, 11 meses e 28 dias de idade. Pela legislação brasileira, responderá pelo homicídio conforme estabelece o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente)– o que significa internação de, no máximo, três anos. As imagens do crime foram espalhadas pelo menor para celulares de amigos e postadas na internet. A busca pela filha demorou 15 horas. Yorrally saiu de casa no domingo pouco antes do meio dia para ir ao shopping. O corpo só foi achado no dia seguinte, estirado em um matagal. Nesse período, enquanto Rosemary e a polícia buscavam pela menina, o menor criminoso assistiu a um jogo de futebol, comemorou a vitória do seu time com amigos e só foi preso quando saía de uma consulta ao dentista. O sonho de Yorally, segundo a mãe, era seguir a carreira militar e conhecer os Estados Unidos. Não deu tempo. Já o ex-namorado, um delinquente frio e cruel, que a assassinou estará em liberdade nos próximos três anos. Emocionada, Rosemary conversou com o site de VEJA nesta quarta-feira.

Como foi a busca por sua filha? Eu comecei a estranhar a demora. Yorrally sempre me dizia onde estava, costumava dar satisfação de quanto tempo iria demorar e com quem saía. Quando começou a anoitecer e ela não voltou para casa, comecei a ficar muito preocupada. Tentei muitas, muitas vezes falar com ela pelo celular. Não tinha nenhum sinal. Saí pelas ruas, conversei com vizinhos, fui até o shopping onde ela me disse que estaria. Cheguei a falar com moto-táxis da região. Ninguém sabia dela. Entrei em desespero.

Como a senhora soube do crime? Acionamos a polícia, o celular dela tinha uma espécie de rastreador, um GPS, que é ligado ao do pai dela. Acionamos o rastreador e vimos que o endereço apontava a casa de um namoradinho que ela tinha. Um rapaz que eu conhecia. Fui até a casa dele e o enfrentei.

Como era o relacionamento entre eles? Não chegava nem a ser um relacionamento. Eu não aprovava o menino. Eles se conheceram pelo Facebook e ficaram juntos um mês e meio, dois meses, no máximo. Embora o rapaz fosse educado e me tratasse com respeito, parecia uma pessoa dissimulada. Nunca me olhava nos olhos. Na minha frente, não falava gírias. Mas eu sempre ouvia ele e Yorrally conversando ao telefone e ficava espantada como ele falava alto, era agressivo e falava gírias. Eu e o pai dela nunca aprovamos esse namorico.

O menor chegou a filmar o assassinato de sua filha e enviar o vídeo aos amigos. A senhora viu as imagens? Eu assisti o vídeo três vezes. E nas três vezes eu não consegui chegar ao fim. Choro e me desespero. Não consigo ver o corpo da minha filha destruído. Ele bateu muito nela. Agrediu com força. Yorrally estava com um aplique no cabelo muito lindo, que eu tinha dado de presente para ela. Estava linda, com o cabelo cumprido, bem brilhante, toda feliz e vaidosa. Minha filha era assim, cheia de vida, animada. Mas ele era muito ciumento, não gostava de vê-la bonita. Ele arrancou o aplique da cabeça dela com toda força. Bateu no rostinho dela. Pude ver todas as marcas no enterro. O corpo todo ferido. No vídeo, ela pede desesperada para não ser morta. Pude ouvir a vozinha dela suplicando: “Pelo amor de Deus, não me mate. Pelo amor de Deus, não me mate. Não me machuque, por favor”. Meu coração está destruído. Não tenho nenhuma vida. Meus dias se arrastam e são pesados desde que ela foi assassinada. Ele é um monstro. Só de lembrar dela suplicando eu morro um pouco.

O menor que matou a adolescente Yorrally Dias Ferreira, de 14 anos, filmou a execução e enviou as imagens para amigos pelo celular é frio, não demonstra arrependimento e teria apressado a morte da ex-namorada porque completaria 18 anos dois dias depois do crime. Essas são as primeiras conclusões da investigação da polícia e do Ministério Público do Distrito Federal, após tomar depoimentos do infrator, dos amigos que viram as imagens e de familiares da vítima.“Ele contou, no depoimento, que trocou uma bicicleta e um aparelho de som pela arma. A compra foi feita no dia do crime. O menor apressou a venda das coisas para conseguir pegar a arma porque ele sabia que se matasse a Yorrally na terça-feira, quando ele já tivesse 18 anos, iria para uma prisão comum. Ele me disse que eu não queria ir para a cadeira porque sabia os risco que corria, que temia ser violentado, e que demoraria muito para sair. E disse, com frieza: ‘Peguei a arma logo e resolvi o que precisava’”, afirmou o promotor de Infância e Juventude do DF Renato Barão Varalda. Yorally foi morta no último domingo, depois de ser levada para um matagal no Gama (GO), onde foi baleada com um tiro na cabeça. Amigos do menor afirmaram que receberam as imagens do crime pelo celular ou as encontraram publicadas na internet. A delegada Viviane Bonato disse que o celular apreendido com as supostas imagens foi encaminhado para perícia. O motivo da barbárie: o delinquente estava com ciúmes porque Yorally estava namorando um rapaz de uma gangue rival.

A maioridade penal pelo mundo

Muitos países tratam como criminosos comuns adolescentes que cometem delitos

  1. Estados Unidos (Oklahoma): 7 anos Em muitos estados, não há lei específica sobre idade mínima para a responsabilização penal. Até 2005, a pena de morte podia ser aplicada também aos menores de 18 anos. Mas a Suprema Corte derrubou a medida
  2. Irlanda: 10 anos Vale para casos de crimes graves. Acima dos 12 anos, os adolescentes podem ser penalmente acusados por qualquer delito. Até 2006, o mínimo legal era de 7 anos
  3. Japão: 14 anos O Código Penal está em vigor há 113 anos. Mas o rigor com jovens infratores foi elevado depois de crimes bárbaros praticados por adolescentes
  4. Suécia: 15 anos A regra vale desde 1902. A partir desta idade, os adolescentes podem ser presos – embora o estado priorize medidas de reinserção social
  5. Argentina: 16 anos Até 1983, o limite era de 14 anos de idade. Recentemente, o Congresso tem discutido a volta da norma anterior

Ao ser preso, o menor confessou o crime e narrou detalhes do assassinato, tanto em depoimento à polícia quanto à Promotoria de Infância e Juventude do DF. Nos dois casos, não demonstrou nenhuma compaixão: contou que jogou a camiseta que usava – com manchas de sangue – em um cesto de roupas sujas e depois foi assistir ao jogo do seu time de futebol. “Ele até disse que comemorou muito a vitória do seu time”, disse a delegada ao site de VEJA.

O crime – planejado e cruel – traz à tona mais uma vez o debate sobre a idade em que as pessoas podem ser consideradas responsáveis por seus crimes. Não há resposta pronta: o assunto precisa ser discutido de maneira pragmática, de olho nos efeitos que cada solução pode trazer. Mas, como em outros casos envolvendo menores que agem à margem da lei, novamente a população ficará à espera de uma ação do Executivo que há décadas não apresenta alternativa para melhorar um modelo que cria delinquentes juvenis em série. O infrator que assassinou Yorraly será submetido a exames para saber se tem transtornos psicológicos e de personalidade. Preso na noite de segunda-feira quando saia de uma consulta ao dentista, o menor que matou Yorraly responderá conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ou seja, no máximo, cumprirá três anos de internação. Com passagens anteriores pela polícia por tráfico de drogas e lesão corporal, caso respondesse como adulto, o delinquente poderia ser condenado a 30 anos de prisão. Mas, por dois dias, não será. O corpo da menina Yorally, aluna do 6º ano, foi enterrado na tarde desta quarta-feira no cemitério do Gama. Sua irmã mais velha, Tainara Loyane Dias, de 24 anos, disse ao jornal Correio Braziliense que o menor sabia que era sua última oportunidade para matar a ex-namorada sem ser imputado como adulto. “Ele já tinha falado várias vezes que ia acabar com a vida da minha irmã. Fez essa crueldade consciente de que a punição seria branda.”É provável e difícil acreditar no contrário que as dezenas de projetos sobre mudanças no ECA ou as propostas de emendas à Constituição para alterar a maioridade penal avancem no Congresso Nacional. Pelo menos até que políticos e a sociedade tenham coragem de enfrentar a questão. Enquanto isso, impunes, os adolescentes continuarão vendo a porta do mundo do crime continuar aberta para eles.

 

Comentários
Carregando