Ação da fabricante de armas Taurus dobra de valor com Bolsonaro – mas movimento não faz sentido

Para parte do mercado, valorização da Taurus estaria atrelada ao avanço do candidato Jair Bolsonaro na corrida eleitoral

Infomoney – Uma ação sem liquidez vê seu volume negociado saltar 118 vezes em menos de um mês, de R$ 111,86 mil em 3 de setembro para R$ 13,31 milhões em 21 de setembro. O movimento é de alta, mostrando um forte otimismo dos investidores para uma ação antes esquecida e desacreditada pelo mercado.

Trata-se do papel preferencial da Forjas Taurus (FJTA4 -2,9%), que acumula ganhos de 102,9% nesse intervalo, enquanto a ação ordinária (FJTA3 -1,62%), que possui menor liquidez, tem valorização de 112,8% de 3 a 21 de setembro. Sem nenhuma notícia nova ou mudança nos fundamentos da empresa, muitos investidores fora desse movimento questionam as razões para isso.  Um dos motivos apontados seria a desvalorização recente do dólar, o que impulsionaria o resultado da companhia, uma vez que 67% de sua receita viria de venda para os EUA e de exportações para diversas regiões. Porém, a interpretação de grande parte do mercado é de que essa valorização estaria atrelada ao avanço do candidato Jair Bolsonaro (PSL) na corrida eleitoral e que sua eventual vitória impactaria positivamente os negócios da Forjas Taurus. Cabe destacar que Bolsonaro é conhecido defensor do porte de armas e do maior investimento em segurança pública.

Mas há um problema com essa interpretação: o candidato do PSL já repetiu diversas vezes que, se eleito, vai “quebrar o monopólio da Taurus” no mercado de armas brasileiro. Ou seja, na verdade, a empresa sairia perdendo em caso de vitória de Bolsonaro. Seu filho, Eduardo Bolsonaro, também já se posicionou contra a empresa.

Em postagem em seu perfil no Facebook datada de novembro de 2017, ele diz que “teria orgulho da Taurus se ela produzisse material de qualidade” e questiona o monopólio do setor: “não quero quebrar a Taurus, mas como fabricantes como Glock, CZ, Sig Sauer e outras têm competência para produzir armamento de qualidade no exterior mas não podem fabricar suas armas aqui no Brasil embora tenham tentado?” Tiago Reis, CEO e fundador da Suno Research, lembra ainda que a Frente Parlamentar de Segurança Pública, ou “bancada da Bala”, é contra a Taurus, o que traria dificuldade a Bolsonaro, se eleito, em aprovar no Congresso medidas favoráveis para a empresa.

Para Reis, o movimento é puramente especulativo e que, “na grande maioria das vezes, de fato, não apresentam motivos racionais compreensíveis para se procederem”. Em relatório, Reis apontou que “repudia e recomenda a todos os investidores à não se aventurarem em processos especulativos de curto prazo, dado o alto risco envolvido em operações dessa natureza”, destacando que a empresa não é uma companhia saudável.  Reis relembrou alguns dados do balanço do segundo trimestre da Forjas Taurus que sinalizam que a empresa não vive seu melhor momento nos fundamentos. O patrimônio líquido da companhia está negativo (mais passivos que ativos) em R$ 510 milhões, tornando, com isso, a relação dívida líquida/patrimônio líquido também negativa. “Com esses dados, não é necessário se aprofundar em maiores detalhes sobre a sua saúde financeira para constatar que, de fato, se encontra bastante preocupante a situação da Forjas Taurus nesse momento”, avalia Reis.

O forte movimento atípico descolado de qualquer novidade chamou a atenção até da B3, que pediu explicações à companhia. Em documento assinado por Thiago Piovesan, diretor vice-presidente administrativo e financeiro, a empresa esclarece desconhecer qualquer fato ou que possa ter influenciado o número de negócios ou valores negociados de suas ações.  Na última sexta-feira, os papéis FJTA3 -1,62% e FJTA4 -2,9% até registram expressiva queda, mas já apontaram recuperação nesta segunda-feira. Por enquanto, muitos investidores ainda não compraram a ideia de que a combinação Bolsonaro e Forjas Taurus, apesar de intuitivamente parecer válida, não é a melhor aposta para os investidores.

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Postado por Alan Alex
Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.