Na cadeia, Marcelo Odebrecht passa os dias se exercitando e escrevendo

O repórter Fausto Macedo, do jornal Estadão de São Paulo, divulgou nesta fim de semana matéria mostrando como é a rotina de um dos presos mais ilustres do país, o “príncipe” Marcelo Odebrecht, condenado a 19 anos de prisão pelo juiz federal Sérgio Moro e que fechou um acordo de delação premiada com a justiça.

O mais rico e poderoso dos presos da Lava Jato parece resignado. Às vésperas de completar um ano de prisão e com negociação por acordo de delação premiada iniciado, Marcelo Bahia Odebrecht age como se só agora entendesse o recado subliminar do nome da operação policial que o colocou atrás das grades: Erga Omnes – do latim “vale para todos”.

Na cela de 12 metros quadrados da Custódia da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, sem luz no teto e um buraco de latrina no chão, algumas convicções que Odebrecht sustentou publicamente perderam solidez. “Para dedurar tem que ter o que dedurar”, disse a deputados da CPI da Petrobrás, três meses após ser preso, no dia 19 de junho de 2015 alvo da 14ª fase da Lava Jato.

Desde quarta-feira, o presidente afastado do Grupo Odebrecht passou a negociar formalmente com procuradores da República aquilo que pode “dedurar” no esquema de cartel e corrupção na Petrobrás. Parte de uma estratégia de defesa que ele mesmo concebeu – sobretudo nos últimos três meses, depois que voltou para a carceragem da PF, na 22ª fase, batizada de Operação Acarajé, com a prisão do marqueteiro do PT João Santana.

Os pagamentos da empreiteira em conta secreta do publicitário levaram ao mais duro golpe dos investigadores contra Odebrecht, a delação da secretária Maria Lúcia Tavares, que confessou trabalhar em um departamento oficial que cuidava das propinas do grupo, e resultou na 23ª fase, Operação Xepa.

Sobre o colchão fino na cama de concreto gelado da cela sem janela, Odebrecht passou e repassou orientações aos advogados – uma banca de notáveis encabeçada atualmente pelo criminalista Nabor Bulhões. Anotações, memoriais e registros que redige obstinadamente, todos os dias, em cadernos e pedaços de papel. São documentos que produz para seus criminalistas e para a família.

Nos tribunais, as arguições montadas com base em suas diretrizes caíram uma a uma – e com elas a convicção de que alguém rico e tão próximo do poder não fica preso no Brasil. Enquanto isso, na 13ª Vara Federal em Curitiba, novos pedidos de prisões foram autorizados – pelo menos um deles em resposta à atuação agressiva e de confronto com as investigações. “Ele nunca deixou de acreditar que porque é rico e poderoso sairia logo da cadeia”, confidenciou uma autoridade, em reservado.

Cárcere. Odebrecht é o único empresário do grupo “VIP” de empreiteiras acusada de cartel ainda preso em Curitiba, sede das investigações. Transformou a cela – que divide com três outros presos – em academia, escritório e biblioteca.

Duas rotinas obsessivas tomam os dias de Odebrecht, no seu longo período de cárcere: escrever e exercitar-se. Os anos de formação nas melhores universidades do mundo, o poder de comando num dos maiores conglomerados industriais do País e o patrimônio bilionário da família foram de pouca valia até aqui, nessa rotina de prisioneiro.

Como os demais detentos – empresários e executivos corruptos, doleiros, traficantes -, Odebrecht tem direito a uma hora de sol por dia na custódia da PF, o que já motivou reclamações. As celas não têm luz, só a do corredor, nem TV e nem rádio. As visitas da família são às quartas-feiras – a irmã e a mulher são as mais frequentes.

A maior parte do período de cárcere, “o príncipe” – como passou a ser tratado pelos demais presos – ficou detido no Complexo Médico-Penal, em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba.

Na unidade, administrada pelo Estado, Odebrecht virou o interno “118065”, um dos presos do pavilhão 6 – que no final de 2014 passou a abrigar a população crescente de encarcerados de colarinho branco.

Um novo perfil de detentos que rendeu ao complexo penal do Estado algumas melhorias. Um novo sistema de aquecimento de água para os banhos foi instalado, depois da primeira leva de empresários removida da PF para a unidade, em novembro de 2014.

Perto das acomodações da carceragem da PF, o presídio médico é um “paraíso”, contam os presos que já passaram para regime domiciliar. O espaço é maior e o banho de sol é diário, não ficando restrito a uma hora. As celas são maiores, têm janela e o uso de televisores e rádios é liberado. Há ainda regalias como a permissão para entrada de alimentos especiais – mas na rotina do dia a dia Odebrecht come as quentinhas de arroz, feijão, macarrão e carne dos demais detentos.

Odebrecht obteve direito a uma dieta especial fortalecida com frutas secas, com damascos, biscoitos integrais, torras sem glutem e queijo processado – tipo polenguinho. Em ofício encaminhado ao juiz da Lava Jato em março, após ele ser transferido para a PF, a defesa chamou uma médica particular que atestou que o “príncipe” estava com a saúde “preocupante”, havia perdido 2,3 quilos e estava anêmico.
Negócio.

Forjado pelo avô Norberto Odebrecht e pelo pai Emílio a assumir o império empresarial construído pela família, Marcelo tem em seu portfólio negociações bilionárias que levaram o grupo à sua era de ouro – nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
Mas longe do comando das empresas há um ano, seu principal negócio hoje é obter com a Procuradoria da República uma redução de pena – quem sabe, voltar para casa, como fizeram outros empresários delatores.

Aos 47 anos e depois de passar o aniversário, o natal e o Revéillon de 2015 na cadeia -, Odebrecht foi condenado no mês passado pelo juiz federal Sérgio Moro a 19 anos de prisão. Há ainda outros duas ações penais em andamento na Lava Jato e outras por virem. O cenário obrigou o empresário a dar sua cartada final.

O conteúdo da delação-bomba pode determinar os rumos da Lava Jato – que em pouco mais de dois anos já atingiu presidentes, senadores, deputados, magistrados e poderosos empresários – e do grupo Odebrecht.

Após um ano de prisão, Marcelo Bahia Odebrecht não é só mais um preso – entre os 157 – da Lava Jato. É o maior troféu para os investigadores da força-tarefa, criada em 2014 pelo Ministério Público Federal, Polícia Federal e Receita para desmontar o estruturado e bilionário esquema de cartel e corrupção na Petrobrás.

“A lei deve valer pra todos ou não valer pra ninguém”, disse o procurador da República Carlos Fernando de Santos Lima, da força-tarefa da Lava Jato, no dia da prisão de Odebrecht.

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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