O filé da Lava Jato

Ele não atua na construção civil, não tem contratos de fornecimento para obras da Petrobras, e, até onde se sabe, não participou do esquema de pagamento de propina para políticos e funcionários da estatal. Mas uma coisa une o grupo JBS, maior exportador de carnes do mundo, às empreiteiras que estão na mira da operação Lava Jato: a companhia foi a principal financiadora de campanha dos investigados pelo procurador-geral Rodrigo Janot nas eleições do ano passado.

Dos 32 políticos que concorreram a cargos eletivos no ano passado e se tornaram alvo de inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal), nada menos do que 25 receberam doações da JBS, que detém, entre outras marcas, a Friboi, a Seara e a Vigor. Os dados são da prestação de contas dos candidatos ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral)

No total, a campanha desses candidatos a governador, senador e deputado federal, consumiu mais de R$ 118 milhões. Desse montante, 30 milhões vieram do grupo de Joesley Batista, o que o torna o maior doador individual para os investigados, muito à frente das construtoras Queiroz Galvão, UTC, OAS e Galvão Engenharia, protagonistas da operação.

A maior beneficiária das doações do JBS em números absolutos foi a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR). Ela recebeu R$ 8,6 milhões diretamente da companhia, além de R$ 950 mil da Seara, na sua tentativa de conquistar o governo paranaense.

Apesar de feito uma das campanhas mais caras do país, com receitas declaradas que superaram R$ 21 milhões, Gleisi não conseguiu sequer chegar ao segundo turno –ficou em terceiro lugar, atrás do também senador Roberto Requião (PMDB) e do governador reeleito Beto Richa (PSDB).

Na seqüência, vem o senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), único nome da oposição incluído nas investigações até o momento. Ele recebeu R$ 3,9 milhões do JBS, numa campanha que custou R$ 18 milhões.

O grupo também financiou parte da campanha de 18 dos 19 candidatos a deputado federal do PP que estão na lista da Lava Jato. No geral, as doações ficaram entre 30% e 50% do que o candidato gastou, mas em alguns casos, a dependência do JBS superou 90%. Dos mais de R$ 1,2 milhão gastos pelo deputado federal Roberto Britto (PP-BA), apenas cerca de R$ 100 mil não vieram do dono da Friboi.

As exceções

Dentre os grandes figurões da Lava Jato, apenas dois podem dizer que não receberam do JBS — o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), que perdeu a disputa pelo governo fluminense, e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Cunha, aliás, é o único da lista a não ter sido financiado nem pelo JBS, nem pelas empresas investigadas no cartel. Isso não significa, porém, que ele tenha feito uma campanha modesta. O peemedebista acumulou receitas acima de R$ 6,8 milhões, com doadores de peso como Bradesco, Santander, Ambev e BTG Pactual.

O levantamento não incluiu investigados eleitos em 2010, como o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), e os senadores Romero Jucá (PMDB), Ciro Nogueira (PP-PI), Fernando Collor (PTB-AL) e Humberto Costa (PT-PE).

Na época, ainda eram permitidas as doações ocultas, via diretório nacional do partido, que tornava impossível saber a origem correta dos recursos destinados aos candidatos.

Maior doador

Depois de ter ficado em terceiro lugar em 2010, o JBS chegou ao posto de maior financiador individual das eleições de 2014. O grupo destinou a políticos e partidos R$ 366,8 milhões, o equivalente a quase 40% de seu lucro obtido em 2013, que foi de R$ 929 milhões.

O JBS iniciou uma ascensão meteórica no mercado agropecuário a partir dos anos Lula, quando foi instituída a política dos “campeões nacionais”, que visava o fomento à formação de grandes players brasileiros em mercados estratégicos, como agricultura, telecomunicações e petróleo.

Esse fomento se deu por meio de empréstimos com juros subsidiados pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que geraram criticas ao governo por conta da falta de transparência nos critérios para a escolha dessas empresas. O fogo cruzado aumentou com o incentivo a negócios que não vingaram, como a operadora Oi e o grupo X, do ex-bilionário Eike Batista.

Hoje, o grupo JBS tem faturamento anual na casa dos R$ 90 bilhões e é acusado de práticas monopolistas por concorrentes, enquanto amplia negócios no exterior. Entre 2005 e 2014, o grupo pegou R$ 2,5 bilhões emprestados do BNDES para o financiamento de suas atividades, como mostrou uma reportagem do portal UOL. A empresa nega que haja relação entre os empréstimos e as doações, mas já há na oposição quem defenda no Congresso uma CPI do BNDES.

 

Fonte: JOTA

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Muryllo F. Bastos é advogado, editor do site e Painel Político. Natural de Vilhena.

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