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O que fazer quando as fotos vazam na web

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Um ano atrás, Layane Praxedes , 22, chegou ao trabalho como de costume. Naquela manhã, no lugar do cumprimento habitual, a estudante recebeu dos colegas olhares estranhos e percebeu que eles estavam cochichando entre si. A sensação era de estar naquele sonho em que você está pelada na frente de estranhos, mas, no caso dela, era tudo realidade. “Eu não imaginava do que se tratava, achava que minha roupa estava lascada. Jamais pensei que fotos íntimas minhas estavam sendo repassadas por e-mail”, explica a garota nascida na cidade de Brotas , interior de São Paulo.

Layane foi vítima de “ revenge porn ” (vingança pornográfica, em tradução livre), movimento que leva um ex-namorado a publicar fotos íntimas de uma garota como revanche pelo fim de um relacionamento ou por causa de uma briga. “Namorei um cara por um ano e tínhamos o hábito de nos fotografar um para o outro. Ao terminar com ele, o meu inferno começou”, diz a garota.

Para revidar o pé na bunda, o rapaz anexou mais de 30 fotos de Layane e mandou para colegas de trabalho e familiares da ex. “Só fui saber quando um paquera da época me ligou dizendo que tinha recebido uma mensagem com imagens minhas nua e seminua. Fiquei pasma”.

A exposição de fotos íntimas de adolescentes infelizmente é quase uma rotina na internet. A questão entrou mais uma vez em discussão quando Fran , 19 anos, de Goiânia , se tornou piada nas redes sociais por conta de um vídeo íntimo que seu namorado de 22 anos compartilhou pelo aplicativo Whatsapp . Poucas semanas depois uma história acabou muito mal em Parnaíba , no Piauí , quando Júlia Rebeca , 17 anos, se suicidou depois do vazamento de uma gravação em que aparecia fazendo sexo com dois colegas. Na semana passada, Giana Laura , 16, de Veranópolis , na serra gaúcha, também se matou após o ex-namorado divulgar uma imagem sua nua.

De acordo com Aurélio Fabrício Torres de Melo , professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie , garotas podem tomar atitudes tão drásticas porque passar por um constrangimento desse tipo é um grande choque. “Ela foi traída”, observa o especialista. “É uma quebra de sigilo e de confiança.”

O psicólogo diz que o diálogo, principalmente por parte da família, é muito importante para as vítimas conseguirem superar um incidente como esse. “Se a menina tem certeza de que vai ter apoio em casa, o dano é menor”, explica. “No caso onde a pessoa se sente sozinha, sente vergonha de todo mundo, inclusive da família, o prejuízo é muito maior. Ela precisa saber que esse não é o fim do mundo”.

O suporte da família e dos amigos é crucial, ainda, por conta do impacto que uma história dessas provoca na autoestima da vítima. “Ela vive esse evento como uma reprovação. No seu íntimo, considera que fez uma coisa errada, e está sendo reprovada por todo mundo”, explica Aurélio.

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Apoio familiar é importante para quem sofreu este tipo de ataque. “A menina precisa se sentir segura”

O fim do mundo como ela conhecia
Após ter sido exposta, Layane, que é órfã, acabou sendo expulsa de casa pelos tios, com quem morava de favor, mudou de emprego e começou a tentar se camuflar. “Fiquei sete meses mal, retraída. Demorei para voltar a trabalhar. Não queria sair de casa de jeito nenhum”, conta. “Passei a andar de jeans e moletom de capuz. Mudei de visual. Não queria que me reconhecessem”.

Como não teve apoio familiar, Layane buscou ajuda psicológica, o que, segundo ela, foi muito importante para a sua recuperação, assim como o apoio do atual noivo. “Eu fui me libertando”, diz. “Antes tinha medo do que as pessoas diziam sobre mim, hoje eu não me importo”.

A estudante Daniela* , 23, não teve suas fotos íntimas divulgadas, mas chegou muito perto de passar pela mesma situação. Moradora de São Paulo , namorou por dois anos um menino que fazia diversas chantagens emocionais. “Ele me pedia fotos íntimas como prova de amor”, afirma a garota. No começo deste ano, eles tiveram um término conturbado, mas, como viviam em cidades diferentes, conseguiram seguir a vida e engataram novos relacionamentos.

Um tempo atrás, Daniela começou a receber ameaças da atual namorada do ex, que ameaçava publicar as fotos de Daniela se ela não parasse de procurá-lo. “A gente nem se falava mais, mas não sei o que ele falava para ela e nem como minhas fotos foram parar nas mãos da garota.”

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Quem compartilha fotos íntimas de uma pessoa pode ser processado por calúnia e/ou difamação

Antes que as ameaças fossem consumadas, a estudante preferiu se antecipar. “Decidi reagir e expus a minha história na internet”, explica. “As pessoas fazem isso contando com o seu medo, então falei para todo mundo que havia fotos e que eles estavam me ameaçando. Meu ex-namorado ficou alucinado e ligou me ameaçando de novo. Foi quando decidi ir para a delegacia”.

Denunciar o agressor o mais rápido possível
Segundo a dra. Isabela Guimarães , advogada especialista em direito digital, é importante a garota que tiver fotos íntimas publicadas na web denunciar o agressor o mais rápido possível. “A primeira coisa que se deve fazer é procurar uma delegacia de crimes digitais, o ministério público ou uma delegacia comum para abrir um inquérito policial”, explica a profissional.

“Quem divulga conteúdos íntimos de alguém pode ser investigado e processado pelos crimes de difamação [que fere a reputação] e/ou calúnia [ofensa à dignidade ou decoro]”, esclarece Isabela. Se a vítima tiver menos de 18 anos de idade, não só a fonte das fotos como todas as outras pessoas que a disseminaram podem ser condenados. “Quem compartilhar ou tiver posse das imagens está cometendo crime de pedofilia e pornografia infantil”, diz a advogada.

No caso de Daniela*, as fotografias não chegaram a ser publicadas, então ela fez um boletim de ocorrência por ameaça. “Se eles tivessem soltado as imagens, eu teria que deixar o meu computador apreendido, com acesso aberto às redes sociais”, conta a estudante. “Achei desencorajador, porque seria uma invasão de intimidade muito grande”.

Layane também prestou queixa contra o ex-namorado. “Não foi para frente por falta de provas para incriminá-lo”, diz. Segundo Isabela, o jeito mais eficiente de juntar provas contra um agressor é fazendo a ata notarial. “Você vai até um tabelião de notas, ele abre o site onde estiver a divulgação e registra o que viu em uma ata”, explica a advogada. “Este documento é importante porque tem fé pública, o que ele disser não vai ser questionado como adulterado. Dar um print da tela não é seguro, porque pode ser editado”. O grande problema deste procedimento é o valor: uma ata notarial pode custar até R$ 1,5 mil.

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A advogada Isabela Guimarães alerta: “Seja proprietária das fotos íntimas. Faça em seu dispositivo”

“‘Não quer ver na internet? Então não faz!’”
Quando publicou um texto contando a chantagem de que estava sendo vítima, Daniela* recebeu apoio de alguns e foi alvo de críticas de outros internautas. “Me diziam para mostrar as fotos para provar que elas existiam mesmo”, diz a garota. “Outros falavam: ‘Não quer ver na internet? Então não faz’”.

Layane também teve que enfrentar olhares tortos. “Tinha vizinha minha que dizia que eu era vagabunda e que ia roubar o marido delas”, fala a estudante. “Foi duro lidar com pessoas me julgando como p***, como se eu tivesse feito aquelas fotos para me expor. Não acho justo ser julgada por estar experimentando a minha sexualidade.”

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O que une as vítimas de “revenge porn” é o fato de terem confiado em seus parceiros. “Aquelas fotos foram tiradas em um momento que fazia sentido para mim”, explica Layane. “Você não pensa que aquele momento mágico vai acabar e você vai se dar conta de que se relacionou com um tremendo babaca.”

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Antes de fazer as imagens, pense nos riscos de ela ser divulgada e não mostre o rosto ou tatuagens

“Você conhece alguém e nunca vai imaginar que ele vá fazer esse tipo de coisa”, diz Daniela. “É importante saber que pode acontecer com qualquer pessoa e o agressor pode ser seu namorado, seu amigo, seu irmão.”

Layane exalta, no entanto, que é natural fazer fotos sensuais para o namorado e que não há que se condenar, principalmente quando alguém foi vítima de uma exposição como essa: “Não é errado. Todo mundo faz isso. Errado é compartilhar algo tão íntimo.”

“Desde que o mundo é mundo as pessoas fazem”
A advogada Isabela Guimarães diz que é natural fazer vídeos ou fotos íntimas com seu parceiro. “Desde que o mundo é mundo as pessoas fazem. A menina que grava um vídeo não está cometendo um crime. É moralismo nosso julgá-la por aquele conteúdo”, analisa ela. Ainda assim, a profissional alerta que, antes de ligar a câmera num momento íntimo com o namorado, é importante saber que há riscos do material cair na internet. “Você não sabe se o menino vai continuar sendo de confiança”. Por isso, ela dá algumas dicas de segurança:

– Não se identifique. “Evite mostrar o rosto ou uma cicatriz ou tatuagem”, enumera Isabela.

– Seja a proprietária do vídeo ou dasimagens. “Faça tudo com o seu dispositivo. Se for o caso, leve o cartão de memória embora com você”, aconselha.

– Caso fique sabendo que uma imagem está sendo divulgada sem o consentimento da menina, faça uma denúncia anônima. “Qualquer um pode denunciar um caso de divulgação de fotos íntimas”, diz a advogada. “As pessoas tendem a desumanizar a vítima, não percebem que tem uma pessoa com sentimentos sofrendo por causa daquilo.”

*o nome da personagem foi alterado para proteger a sua identidade

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