Operação Lava-Jato deixa rastros no RS

A população da cidade gaúcha de Charqueadas sofre na pele os efeitos da corrupção ocorrida na Petrobras. Recentemente, foi fechada a sede da Iesa Óleo e Gás, uma das empresas envolvidas no escândalo investigado pela Operação lava Jato da Polícia Federal. Há alguns anos, a instalação da fábrica de módulos era um prenúncio de tempos de bonança e pleno emprego. Mas o resultado foi a situação de calamidade pública decretada pela prefeitura, com a demissão de mil pessoas, dívidas de mais de R$ 350 mil no comércio local, que ainda deve amargar quedas de até 30% nas vendas, milhões em financiamentos não quitados, doações suspeitas para campanhas políticas… Mas, principalmente, um sentimento de desilusão e revolta entre aqueles que tiveram suas vidas afetadas por promessas não cumpridas.

Mas apesar das facilidades para a instalação da unidade e dos milhões em financiamentos liberados por bancos públicos (como os mais de R$ 40 milhões do Badesul), o relacionamento com a Iesa nunca foi muito fácil, segundo relatam os credores. Os pagamentos sempre aconteciam com atraso até 2014, quando cessaram. A Petrobras anunciou que assumiria a dívida, mas não o fez.Essa instabilidade também era sentida dentro da fábrica. Além dos problemas com pagamentos de salários e benefícios, os trabalhadores chegaram a ficar um mês parados pela falta de material.

Doações para campanha do prefeito
Os problemas começaram logo, com a escolha do terreno onde seria construída a unidade. A prefeitura se comprometeu a conseguir o terreno nas margens da RS-401, avaliado em pouco mais de R$ 900 mil no processo de desapropriação. Mas a proprietária do local recorreu à Justiça e um acordo foi firmado elevando o valor para R$ 3,9 milhões, sendo que a prefeitura arcaria com R$ 1,1 milhão e o restante seria pago pela Iesa. Isso tudo em 2011.

No ano seguinte, foram disputaradas as eleições municipais e o prefeito Davi Gilmar Abreu de Souza (PDT) buscava a reeleição. Entre as doações recebidas por ele na campanha estavam R$ 300 mil de Armando Chaves Garcia, que é presidente da Granja Carola, empresa proprietária do terreno de 36 hectares que foi desapropriado. A Iesa também deu sua contribuição, com R$ 40 mil, doados para a direção municipal do partido do prefeito.O fim do contrato da Iesa com a Petrobras veio logo após a eclosão da sétima etapa da Operação Lava Jato que prendeu os principais empreiteiros do País, inclusive dirigentes da Iesa. Os trabalhadores ficaram sabendo do desfecho por mensagens de celular, mas logo a Justiça suspendeu as demissões e tentou o bloqueio de dinheiro das contas da empresa para garantir o pagamento das indenizações trabalhistas, calculadas em aproximadamente R$ 17 milhões.Com a suspensão, os demitidos não receberam o salário de novembro, não sabem se vão conseguir receber a rescisão, e também não conseguem procurar emprego com carteira assinada, porque, legalmente, ainda trabalham para a Iesa. Uma audiência de conciliação realizada na última quarta-feira não resolveu o probelma e uma nova reunião está marcada para 11 de dezembro.

Cada um se vira como pode. Uns contam com as economias, outros com bicos, e os que estão em situação mais precária já recorreram ao Centro de Referência da Assistência Social (Cras), onde está sendo feito o cadastramento para a inclusão em programas sociais e entrega de cestas básicas para os mais necessitados. Mas isso é apenas para quem vive em Charqueadas. Estima-se que 60% dos trabalhadores eram de fora do Estado e de outras cidades da região.

Na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Charqueadas, o movimento de ex-funcionários é constante. Um deles era Luciano Couto de Aquino, 39 anos, pai de três filhos, que buscava informações sobre como fazer o cadastro com a prefeitura para receber benefícios sociais até que consiga trabalho fixo. O sentimento dele, como o de outros afetados pelas demissões, é de revolta por viver na pele o que a corrupção representa no País.Além de ter perdido o emprego, Furtunato Cardoso dos Santos, também amarga a perda de uma nova oportunidade de trabalho, já que as demissões foram suspensas pela justiça, além de saber que sua esposa não será efetivada na vaga temporária em um loja da cidade por conta dos efeitos que a demissão em massa provoca no comércio local.“Como cidadão me sinto desprezado e até mesmo desinformado do que acontecia. Tu vive em um mundo ilusório, que não é real. Tu via muita coisa acontecendo e não tinha o que fazer. E se fala em salários e pessoas que estavam lá dentro, salários de R$ 50, 60 mil, não sei até que ponto isso é real, e para pessoas que iam uma, duas vezes por semana na empresa”, afirma.davicontasreproCalote de R$ 350 mil no comércio local

Segundo a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Charqueadas, o impacto da chegada da Iesa foi grande, exigindo investimentos para atender a demanda apresentada pela empresa e pelo desenvolvimento que parecia bater à porta, mas que logo mostrou sua real face.

“Os comerciantes começaram a se qualificar, para ter produtos de qualidade para fornecer vários investimentos para absorver (a demanda)… nossos colegas começaram a investir em imóveis, loteamentos novos, agitou o comércio, novas redes de lojas vieram, pessoas empregadas no comércio (…) Mas a Iesa desde o início mostrou que não era boa pagadora, sempre teve um problema sério para pagar”, afirma o presidente da CDL, Nário Delfin Delgado, que acumulou prejuízos de R$ 10 mil ao fornecer para a Iesa. “Mas temos informações de que a soma chega a R$ 350 mil”, completa.

Segundo ele, o impacto na região é grande, tanto que, neste ano, o comércio local já prevê uma redução de 20% a 30% nas vendas, “também deve haver redução de empregos”, prevê.
Mas os efeitos da crise provocada pela Iesa não surgiram apenas após a rescisão do contrato com a Petrobras. Desde o começo do ano, os fornecedores viam as dívidas aumentarem, sem sinalização de que haveria a liquidação. O gerente do restaurante familiar que fornecia alimentação para a Iesa, Oscar Paulo da Silva, conta que a dívida acumulada chega a R$ 95 mil, sendo que a empresa reconhece apenas R$ 80 mil. O restante atribui a empreiteiras que trabalhavam com ela.

“O que eu tinha para receber era o meu lucro, pelos 15 meses de trabalho, por isso trabalhei de graça, não recebi… fui um exemplo de escravidão, porque trabalhei e não tive lucro, ficou na mão deles”, afirma Oscar, dizendo que tudo que recebeu foi usado para pagar fornecedores e evitar problemas. “Meu avô dizia que teu bem maior é o teu nome”, justifica sobre a conduta de negócios praticada no interior.
O maior medo de todos é que caso a Petrobras não consiga retomar os investimentos feitos na região para continuar com o Pólo Naval, a Iesa possa se tornar mais um museu a céu aberto, como se vê bem próximo dali na usina Jacuí 1, onde a estrutura está parada há 25 anos, sem uso.

Fonte: terra

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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