Os bastidores da queda do chefão da Santo Antonio Energia envolve doação de dinheiro a políticos de Rondônia

Este á uma história de poder que envolve cifras e contratos milionários

José Bonifácio Pinto Junior, o chefão todo poderoso da empresa Santo Antonio Energia (SAE), responsável pela construção da hidrelétrica de Santo Antonio, caiu. A sua queda foi vendida pela mídia nacional como resultado de uma suposta disputa interna da Odebrecht, construtora líder da usina. Mas a sua saída pode estar mesmo associada uma série de fatos explosivos que envolvem desde a doação de dinheiro a políticos graúdos de Rondônia até a conexão promíscua com um forte grupo empresarial chinês.

Com o apoio de fontes seguras, a reportagem percorreu os subterrâneos do poder em Rondônia e descobriu que, antes mesmo de gerar energia, a usina de Santo Antonio já produziu fatos que são nitroglicerina pura, capazes de alçarem as obras da usina a escândalo internacional. Muitos destes fatos podem estar por trás da queda de Boni, que entre obras civis, rodadas de Whisky Royal Salute 21 anos e passeio de jatinhos do governo de Rondônia, se tornou o homem forte da usina.

Este á uma história de poder que envolve cifras e contratos milionários. Segundo as fontes da reportagem, que por motivos óbvios não podem ser reveladas, Boni, o manda chuva da Santo Antonio, ajudou muitos políticos de Rondônia e tinha uma relação muito próxima com o governo estadual da época. Era figurinha carimbada nas fazendas do ex-governador Ivo Cassol, um exemplo do grau de proximidade com o poder.

Empresário Chinês, sócio brasileiro de Ivo Cassol e ex-governador de Rondônia, na China

Investigações já em curso feitas por autoridades do Poder Judiciário de Rondônia apontam para uma relação nada republicana entre Boni e um homem que aparece apenas como J.C.R. Este homem, segundo documentos a que a reportagem teve acesso, seria o elo que ligava a Santo Antonio Energia a um grupo político no Estado. É o mesmo homem que aparece num dossiê intitulado Conexão China, feito por um empresário de Rondônia e que relata como um grupo chinês operou uma fraude milionária na Bolsa de Valores de Hong Kong a partir de contratos com a usina de Santo Antonio.

Existem fortes indícios de que J.C.R operava para abastecer o caixa de campanha do seu grupo político. Tudo aponta para uma relação promíscua entre a SAE, este grupo político e o grupo chinês, que nos documentos a que a reportagem teve acesso, ora aparece como Susfor/UTR, ora como VP e ainda como uma empresa panamenha, tudo indica que uma offshore criada com o objetivo de enganar as autoridades brasileiras.  Não por acaso, muito menos por coincidência, J.C.R trabalha hoje justamente para este grupo chinês.

Por trás da cortina de fumaça que envolve esta relação estaria a doação ilegal de quantias milionárias a políticos, inclusive com saques documentados na boca do caixa. Segundo o dossiê Conexão China, políticos graúdos de Rondônia sacaram em uma agência bancária de Porto Velho pelo menos um milhão de reais da empresa UTR, em quatro cheques de R$ 250 mil, sacados na boca do caixa. A “doação”, segundo o dossiê, seria um acerto para reduzir pressões e investigações que estavam sendo realizadas contra as usinas hidrelétricas que estão sendo construídas naquele Estado.

O dossiê Conexão China traz documentos explosivos sobre estes fatos e está trancafiado em cofres espalhados em vários pontos do País e do mundo, com forma de resguardar a segurança de seus autores. A reportagem teve acesso a apenas uma parte do documento e espera obter, nos próximos dias, o dossiê completo.

O documento, recheado de documentos, fotografias e cópias de extratos bancários, possui ainda horas e horas de fitas gravadas, que demonstram como políticos de Rondônia se associaram de forma criminosa ao grupo Susfor/UTR. O grupo, aponta ainda o documento, disseminou informações falsas na Bolsa de Valores de Honk Kong, captando milhões de dólares que também foram parar na campanha ao governo do Estado de Rondônia.

Muitos e-mails gravados mostram diálogos entre empresários chineses e brasileiros, apontando sempre a existência de um “Boss” (Chefe), principal beneficiado com o esquema montado dentro da usina de Santo Antonio. Os documentos demonstram ainda que o mesmo esquema operou na usina de Jirau. O homem que aparece como J.C.R, também aparece como braço direito e secretário do “Boss”, ou chefe.

A Polícia Federal está investigando a ação do grupo chinês no Brasil. A tentativa principal é provar como dinheiro obtido ilegalmente na China foi parar na campanha de políticos de Rondônia. Se a PF obter as provas que espera, muitos políticos graúdos do Estado podem perder o mandato, já que é proibido receber dinheiro de empresas estrangeiras para campanhas eleitorais no Brasil.

Empresa chinesa com atuação no Brasil operou golpe internacional 

Matthew Yip: fraude milionária?

Nossas fontes garantem que isso tudo tem também uma relação com a queda de Boni na Santo Antonio. A posição dele ficou insustentável à medida a Odebrecht foi informada do barril de pólvora que era a construção da usina. Some-se a isso a incapacidade do diretor de conter a fúria de empregados e a greve que paralisou a obra por quase um mês, e têm-se o combustível fatal que levou ao desligamento do ex-todo-poderoso Boni das obras da hidrelétrica de Santo Antonio.

A empresa chinesa Sustainable Forest Holdings Limited (Susfor) – listada na Bolsa de Valores de Hong-Kong sob o código HKX:723 ou HKX:723-OL – lucrou muito com a venda de ações na Bolsa de Valores de Hong-Kong no final de 2009 e início de 2010. As ações do grupo tiveram um aumento substancial, mas a partir da divulgação de informações falsas sobre contratos com as usinas hidrelétricas do Rio Madeira, em Porto Velho, Rondônia.

Em novembro de 2009 a Susfor divulgou ao mercado financeiro chinês que acabara de firmar um grande contrato de supressão vegetal e aquisição de toda a madeira que seria retirada da área do reservatório das usinas de Rondônia. Segundo comunicado enviado inclusive para a Bolsa de Valores de Hong-Kong, o contrato dava direito à Susfor colher e ficar com a madeira da floresta existente em uma área de mais de 200 mil hectares, o que daria cerca de 45 milhões de metros cúbicos de madeira.

As informações são duplamente falsas. Primeiro, a quantidade de madeira existente nas duas usinas não supera os dez milhões de metros cúbicos, menos de 25% do anunciado pelo grupo chinês. Segundo: os contratos entre a Susfor e as empresas responsáveis pelas usinas não existiam. Naquele momento, uma empresa do Brasil, a VP Construtora, estava ainda em negociação com as usinas para a aquisição da madeira e apenas havia procurado a Susfor para oferecer esta madeira que seria retirada pela VP das áreas das usinas.

Mas as informações falsas fizeram efeito na Bolsa de Valores de Hong-Kong e as ações da empresa subiram, dando início ao processo de venda de ações e lucro de milhões de dólares dos controladores da Susfor, a partir de informações falsas.  O aumento dos valores das ações se dá exatamente no momento em que a empresa anuncia o contrato inexistente no Brasil.

Mas a fraude não parou por ai. Em abril de 2010, as ações continuaram subindo porque a empresa realizou um grande seminário em Hong-Kong, onde anunciou para investidores do mercado financeiro o seu mega-contrato fantasma. Mais uma vez, a Susfor disse que já tinha o contrato e que já estava começando  a colheita da madeira, ou a supressão da área.

O grupo anunciou também que os seus resultados financeiros tiveram grande melhora a partir da operação em Rondônia, saindo da situação de prejuízo e obtendo um lucro de mais de 180 milhões de dólares de Hong-Kong (mais de 40 milhões de reais). A informação consta nos balanços trimestrais e do anual feito pela empresa e apresentado ao mercado. Este balanço se demonstra também uma fraude, já que não existia, naquele momento, nenhuma operação da Susfor em Rondônia.

O grupo comprou somente em junho de 2010 a empresa VP, portanto somente a partir desta data poderia anunciar tal contrato, mas o que aconteceu depois disso foi de dar inveja a qualquer grande fraudador. A empresa fez um contrato de aquisição da VP, mas não pagou pela empresa nem a transferiu para o seu nome, ficando os contratos todos em nome de VP e esta sendo uma empresa praticamente sem dono. A Susfor fez contas de mais de um milhão de reais em nome da VP e não pagou, deixando a empresa com cadastro negativo nos órgãos de proteção ao crédito.

A Susfor continuou mentido ao mercado. Em um comunicado o grupo diz que aumentou a lucratividade graças a sua eficiência em Rondônia, otimizando o processo de supressão da madeira, reduzindo os custos com empreiteiras contratadas para retirar a madeira. No entanto, as empresas que estavam retirando a madeira estavam contratadas pelas usinas, e não pela Susfor, que não se preocupou nem em transferir a VP para o seu nome para que pudesse ser realmente a detentora dos contratos de aquisição da madeira.

O mais curioso é que após a alta das ações, período em que houve volume grande de venda, a Susfor anunciou, em agosto de 2010, a recompra de um lote grande de ações, que já estavam com um valor menor. A empresa divulgou informações falsas no mercado, fazendo os preços das ações subiram. A empresa realizou venda de ações com o preço elevado e depois recomprou a um preço inferior, obtendo altos lucros na operação.

Dono do grupo usa laranjas para administrar a empresa

Quem mais lucrou com a operação fraudulenta foi o controlador da Susfor, o chinês que mora em Nova York e que se apresenta no Brasil como Matthew Yip, mas cujo nome oficial que consta em seu passaporte é Wip Matthew Kan Kuen. Nascido em Honk Kong, Matthew já se meteu em outros escândalos e chegou a ser preso e processado nos Estados Unidos, em 1988, acusado de desviar recursos da multinacional Sansung, através de uma empresa de importação que ele operava nos EUA.

Apesar de estar à frente de todas as negociações em Rondônia e de se apresentar como dono do grupo, Matthew não aparece em nenhum documento oficial nem mesmo como um simples diretor da Susfor. O nome dele simplesmente não existe do ponto de vista formal, mas comunicados por e-mail e telefone provam que é ele quem manda e é o verdadeiro dono do grupo.

Depois de quase dois anos se passando por donos de contratos que não existiam, a Susfor de Matthew conseguiu os contratos com as usinas.  Usando contratos de compra e venda feitos com os donos da VP que nunca foram pagos, os donos da Susfor transferiram os contratos de aquisição da madeira feitos com as usinas, usando o argumento de que eles haviam comprado a VP.

Os contratos foram transferidos  e os então a SUSFOR passou a ser dona da madeira, mas como levaram o calote, os donos da empresa estão ingressando na Justiça brasileira para reaver os contratos e embargar as operações do Grupo Chinês no Brasil. Os ex-donos da VP também preparam uma denúncia que será entregue ao consulado chinês no Brasil e à Bolsa de Valores de Hong Kong.

O ninho de irregularidades que permeia toda esta história começa a chamar a atenção de autoridades brasileiras, que começaram a investigar o esquema. Diretores da Susfor em Porto Velho já começaram a ser notificados pela Polícia Federal. Pelas investigações iniciais, tudo indica que o esquema está sendo usado pra fraudar a Bolsa de Valores, mas há quem diga que pode ser algo maior: um mega esquema para lavar dinheiro da máfia chinesa.

Fonte: Painel Político

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

Participe do debate. Deixe seu comentário