Polícia prende casal responsável por abortos; desaparecida pode estar morta

A investigação sobre o desaparecimento da grávida Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de 27 anos, trouxe à tona o funcionamento de uma rede clandestina de aborto que, instalada há anos no Estado do Rio, estava impune. Nesta quinta-feira, a polícia prendeu a técnica de enfermagem Rosemere Aparecida Ferreira e seu ex-marido, o policial civil Edilson dos Santos, que, além de serem considerados os principais suspeitos do caso, viraram personagens-chave de um trabalho que tem como meta desbaratar uma grande quadrilha de aborteiros.

Rosemere na 35ª DP: segundo policiais, ela admitiu que faz parte de uma quadrilha que pratica abortos, que seriam realizados por um médico que foi preso três vezes - Pedro Kirilos / Agência O Globo
Rosemere na 35ª DP: segundo policiais, ela admitiu que faz parte de uma quadrilha que pratica abortos, que seriam realizados por um médico que foi preso três vezes – Pedro Kirilos / Agência O Globo

Os dois estavam foragidos havia aproximadamente seis meses. Policiais acreditam que Rosemere e Edilson — detidos em flagrante em 2013, mas beneficiados por alvarás de soltura, depois revogados — voltaram a cometer o crime em vários locais na Região Metropolitana. Segundo investigadores, Rosemere admitiu que estava numa clínica em Campo Grande onde Jandira teria feito um aborto. Mas, segundo ela, a jovem sumiu após sair de carro com uma de suas funcionárias, que a levaria até o terminal rodoviário do bairro.

Em depoimento ao delegado Hilton Alonso, da 35ª DP (Campo Grande), Rosemere afirmou que recebeu uma ligação da funcionária, sobre uma ‘‘complicação’’ com Jandira. A empregada teria dito que ia resolver o problema sozinha. De acordo com o delegado, a clínica de aborto fazia de quatro a cinco operações por dia.

Junto com Edilson e Rosemere, foi preso ainda um taxista que integraria o bando, mas não teve o nome divulgado.

Jandira Magdalena dos Santos Cruz, desaparecida em Campo Grande após seguir para uma clínica de aborto – Reprodução / Reprodução

Informações nos processos de Edilson e Rosemere na Justiça mostram o que teria acontecido com Jandira. De acordo com um processo aberto após uma operação policial numa clínica em Xerém (Caxias), em 13 de março de 2013, um integrante da quadrilha se encarregava de buscar as grávidas e levá-las até o local do aborto.

Na ação judicial, a quadrilha é classificada como altamente organizada e de alta periculosidade, por ter “extensos meios para atrair mulheres das mais diversas regiões, inclusive de outros estados”. Rosemere, no processo, é descrita como a chefe do bando, que mantinha contatos telefônicos e pessoais com as gestantes, negociava preços, agendava cirurgias, indicava os locais de encontro, fazia triagem das pacientes, recebia os valores e depois distribuía o lucro entre os comparsas.

Um outro integrante da quadrilha, ainda procurado pela polícia, é o médico Carlos Eduardo de Souza Pinto, que também teve a prisão preventiva decretada pelo caso de Xerém. Ele foi preso três vezes em flagrante por fazer abortos. A primeira prisão aconteceu em 2010, numa clínica clandestina na Gamboa. A segunda em 2012, quando ele operava em Bonsucesso — provavelmente o mesmo endereço que consta do cartão de visitas de Rosemere cuja foto estava no celular de Jandira. A terceira prisão ocorreu no ano passado, em Xerém.

Nesse caso, ele passou a responder também por tentativa de homicídio porque, ao tentar fugir da polícia, interrompeu o atendimento a uma paciente, deixando-a ensanguentada numa maca. Policiais conseguiram capturá-lo e o obrigaram a estancar o sangramento. Apesar das reincidências e de ele estar foragido, o Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj) informou que uma sindicância sobre a conduta do médico ainda está em andamento. Segundo o presidente da entidade, Sidnei Ferreira, as denúncias contra Carlos Eduardo só chegaram ao conselho em janeiro passado, quando foi aberta a investigação.

— Nossa sindicância não está ligada ao processo criminal. São duas coisas diferentes. Aqui apuramos o comportamento ético do médico, que pode ser punido ou não. Temos que seguir o código do processo ético e seus prazos.

MÃE DE JOVEM SE DIZ ALIVIADA

Mãe de Jandira, Maria Ângela dos Santos foi informada por parentes sobre a prisão de Rosemere e Edilson. Após manifestar alívio, ela disse que espera que os dois ajudem nas buscas pela sua filha.

— Acho muito difícil encontrar minha filha viva, mas espero que eles revelem onde ela está. Não vou até a delegacia para vê-los, não tenho condições para isso. Só quero justiça — disse, emocionada, Maria Ângela.

Ex-marido de Jandira, o vendedor Leandro Brito Reis também manifestou alívio com as prisões realizadas nesta quinta-feira. Seu relacionamento com Jandira vinha sendo investigado pela 35ª DP.

— Agora espero que toda a verdade sobre o caso de Jandira venha à tona — disse Leandro.

As informações são dos repórteres Fábio Teixeira e Gustavo Goulart de O Globo (RJ)

 

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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