Ministro deixa Fazenda e ex-presidente do STF se filia ao PSB

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ter participado no dia 28 de março, em Curitiba, do último evento de sua pré-campanha à presidência para as eleições de outubro. A candidatura do petista, que já vinha ameaçada pela Lei da Ficha Limpa, sofreu mais um duro golpe com a decretação de sua prisão. Lula recebeu 24 horas para se entregar, mas as estendeu para 48 enquanto aproveitava para deixar uma última mensagem política. A dramática saída de cena daquele que liderava as pesquisas de intenção de voto coloca em disputa, neste momento, quase um terço do eleitorado. E o número de aspirantes a esses votos aumentou discretamente enquanto o Brasil dirigia as atenções à saga judicial do ex-presidente. Henrique Meirelles deixou na sexta-feira o Ministério da Fazenda para disputar o Palácio do Planalto pelo MDB, enquanto o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa se filiou ao PSB entre clamores do partido para concorrer à presidência. No dia seguinte, a ex-ministra Marina Silva (Rede) entrou de vez em sua pré-campanha.

A corrida eleitoral já contava com mais de dez candidatos, entre eles o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que deixou o cargo nesta sexta-feira para se dedicar à campanha, e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), segundo colocado nas pesquisa de intenção de voto. Também se apresentaram para a disputa o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), o senador Alvaro Dias (Podemos-PR) e, mais recentemente, o empresário Flávio Rocha, que se filiou ao PRB prometendo contraponto a um “ciclo marcado por excessivo intervencionismo estatal” — Rocha disputa o discurso liberal com João Amoêdo, do Novo. Outros dois candidatos reivindicam mais diretamente os votos de Lula, apesar da pouca expressão eleitoral de seus partidos. A deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) e o líder do movimento sem-teto Guilherme Boulos (PSOL) se uniram a Lula no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo (SP) durante as horas que antecedem sua prisão e foram apontados como sucessores pelo petista.

Enquanto isso, longe dos maiores holofotes, Meirelles convocava entrevista coletiva para deixar a Fazenda e celebrar sua “sensação de dever cumprido”. “Foram meses de muito trabalho onde tiramos o Brasil da sua mais grave crise e construímos as bases para um forte crescimento nos próximos anos”, declarou, acrescentando que “o país caminha na direção certa”. Segundo ele, o país “voltou a crescer, gerar empregos, tudo isso com inflação baixa e os menores juros da história, mas ainda há muito por fazer”. E Meirelles parece se considerar a pessoa indicada para fazer aquilo que o Governo Michel Temer não conseguiu. Para tanto, carregará por um lado a impopularidade do presidente, cuja aprovação não passa de 5%, mas com a força de uma economia em recuperação.

Já o ex-ministro Joaquim Barbosa entrou no páreo de forma ainda mais discreta, pelo menos por enquanto. Não bastasse concorrer com a prisão de Lula, a filiação de Barbosa, que o PSB confirmou na sexta-feira, foi ofuscada também pela troca de comando no Governo de São Paulo. A posse de Márcio França (PSB) como governador reuniu a cúpula do PSB na capital paulista e adiou a realização de um evento mais pomposo para anunciar a adesão do ministro símbolo do julgamento do mensalão ao partido socialista. Apesar da grande expectativa de alguns integrantes do partido em relação à candidatura presidencial de Barbosa, não está certo que ele de fato disputará o Palácio do Planalto neste ano.

“Joaquim Barbosa é um homem público honrado, de trajetória admirável, que vem reforçar e qualificar os quadros do partido. É uma satisfação contar com o ex-ministro no PSB neste momento tão desafiador do nosso país”, celebrou o presidente do partido, Carlos Siqueira. Apesar da empolgação do líder partidário, Barbosa deixou no ar a filiação em mensagem publicada em sua página no Facebook “O PSB deixou claro que não me garante de antemão a legenda para uma possível candidatura à Presidência da República”, escreveu.

Na mensagem, o ex-presidente do STF diz que ainda questiona se deve ou não ingressar na “disputa político-eleitoral”. “No entanto, a legislação eleitoral brasileira impõe prazos peremptórios. Restam-me, pois, duas opções: não me filiar e ficar fora do processo; ou filiar-me, sem o compromisso de ser candidato, consciente de que o partido pode escolher outro caminho que não a candidatura própria. Escolherei uma dessas opções dentro do prazo regulamentar”, finalizou. Desde então, Barbosa não se manifestou mais publicamente.

A discrição titubeante de Barbosa compete em eficiência com a falta de timing — ou o azar — de Marina Silva. Ainda tentando botar a Rede Sustentabilidade de pé após perder dois deputados para o PSB, a ex-senadora relançou sua pré-candidatura oficialmente num sábado em que ninguém estava interessado nisso — ela já havia se apresentado para a disputa em dezembro. “Não dá para querer mudar e não mudar”, diz seu slogan de campanha, que terá dificuldade para se espalhar pelo país devido à baixa expressão partidária da Rede. Sem o mínimo de cinco parlamentares no Congresso, Marina terá de brigar pelo direito de participar dos debates televisivos.

El País / Rodolfo Borges

Alan Alex

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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