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Há uns três ou quatro anos o Jurandir, que chamam de Jura, me convidou para assistir uma apresentação do evento que ele anualmente promove, denominado FESTCINE AMAZÔNIA, o qual leva aos mais longínquos rincões de nosso Estado e outras regiões amazônicas, indo, inclusive aos países vizinhos, uma forma educativa de lazer para os irmãos que estão afastados dos centros urbanos e totalmente isolados dos sistemas de comunicação.
Meu filho, Lucas, estava somando na equipe do Jura, cabendo a ele fazer a filmagem do evento, daí o convite para que eu conhecesse o trabalho.
Fomos até a localidade denominada Cujubim, que fica bem próximo de Porto Velho.

Chegamos por lá entre 17 e 18 horas.

Um caminhão com todo o equipamento estava descarregando o material necessário em um local previamente escolhido, no núcleo urbano existente na localidade.

De lá saiu uma enorme barraca, caixas de som, tela de cinema, cadeiras para o povo.

Tudo muito arrumadinho e adequado.

Havia um bolicho, daqueles antigos, secos e molhados, do outro lado da rua, e por ali me acomodei, enquanto a estrutura para o espetáculo era montada.
Num repente surgiu uma enorme quantidade de crianças e adolescentes que vinham de uma escola, todos caminhando em direção à beira do rio, que estava à minha vista.

Muita criança mesmo! Vinham eles naquela algazarra natural da meninada ao sair das salas de aula.

Indaguei para onde eles iam e alguém me informou que no rio havia lanchas que os levariam para casa, emendando o informante que alguns daqueles meninos chegariam em casa por volta de 23 horas, porque eram muitas paradas no beiradão, para o desembarque da molecada.

Fiquei a imaginar o tanto de sacrifício eles faziam para buscar conhecimento e, quem sabe, terem uma vida melhor, que só a escola pode proporcionar.
Fui até o barranco e os vi, de forma ordeira, adentrarem às embarcações, buscando um assento e colocando colete salva vidas.

Haviam saído de casa ainda pela manhã, cumpriram o horário escolar e bateriam em casa altas horas da noite.

Quem vive na cidade não faz ideia desse sacrifício que a garotada do mato faz para ter acesso à escola, sem contar que ao desembarcar alguns deles, esperados pelos pais, tem que adentrar em varadouros escuros, guiados por alguma luz tênue que lhes ilumina o caminho rumo ao lar.
Não fiz contagem, mas devem ter embarcado ali de trinta a cinquenta jovens, e no dia seguinte tudo se repetirá.

Que saga!

Voltemos ao Festcine.

Quando bem encaminhados os preparativos, despencou uma chuva forte e a energia elétrica foi interrompida.
Pensei comigo, acabou a festa.

Nada disso. No caminhão havia um potente gerador que garantia ótima iluminação e perfeita operacionalidade de todos os equipamentos. Holofotes foram acesos e o trabalho continuou.
Então, do escuro onde eu estava, comentei com o Jurandir que com aquela chuva, por certo não haveria público.

Ele abriu um meio sorriso condecendente e me disse em tom ameno: espere para ver.

Na hora marcada para início do show na mata, começaram a chegar os ônibus que fazem transporte escolar. Vinham com lotação plena e assisti o desembarque das pessoas.
Todos trajavam suas melhores roupas. As mulheres com vestidos bonitos, algumas maquiadas, sapato com algum salto alto, pisando na lama que já se formara.

Foram, também ordeira e civilizadamente, tomando os assentos, os quais protegidos da chuva pela imensa barraca que fora erguida.

No bolicho onde eu estava, assistia aquelas cenas embasbacado, pois diante de tantas dificuldades, mesmo com a vida difícil e desamparada que estas comunidades levam, havia neles uma alegria tão intensa como de meninos e adultos ricos que vão ao Cirque du Soleil.

Houve a projeção de um filme que, como de hábito no festival, trata sobre ecologia, sustentabilidade, preservação, de forma bastante didática e acessível.

Os expectadores em clima de êxtase, com aquela enorme tela, personagens em movimento, som de belíssima qualidade, vez por outra se manifestavam com palmas ou sorrisos.

A chuva amenizou e no bolicho, que continuava no escuro, havia um banheiro, que foi franqueado para quem dele necessitasse.

Nenhum deslize de comportamento. Pessoas educadas, simples, como já disse, com suas melhores roupas, que, com certeza não são de grifes, mas ressaltavam aos olhos estarem primorosamente limpas.

Lembrei da minha mãe quando em casa dizia à prole de sete filhos, aos quais eram distribuídas tarefas: não é por ser pobre a casa, que ela deva ser suja.
Ali estavam pobres brasileiros, enfiados no mato, embora quase periferia da cidade grande, demonstrando que embora carentes de fotuna são educados, ordeiros e limpos.

Eu, vez por outra manuseava meu celular, acionando aquele dispositivo de iluminação, para enxergar alguma coisa. Enquanto eu fazia isto alguém, que eu não percebi, me observava.

Devo ter feito isto umas quatro ou cinco vezes.
Do outro lado da rua o show continuava. Acabado o filme houve uma rápida manifestação sobre o tema abordado no filme, comentários variados e estava a chegar o grande momento.

No material de divulgação constava a apresentação de um palhaço, do qual nunca ouvi falar, mas que é conhecidíssimo e apreciado pelo povo. Era enorme a expectativa pelo surgimento do palhaço.
De fato se tratava de um cara muito engraçado e suas presepadas arrancavam gargalhadas da platéia.

Alegria pura extravasada com palmas e gargalhadas.
Lucas firme na sua atividade de filmagem, documento que seria importante para prestar contas aos patrocinadores, especialmente ao BNDEs que disponibilizou recursos para que o evento se realizasse.
De repente, na escuridão onde eu estava, me surge uma menininha, com um vestidinho de chita, cabelos bem penteados. Ela me presenteou com a melhor cena da noite.

Disse-me a pequenina:
– moço, me empresta a sua lanterninha, que eu quero ir no banheiro e lá está muito escuro.

Meu IPhone virou uma lanterninha. Acionei o dispositivo para ela e o toco de gente se dirigiu ao sanitário.
Rapidamente ela estava de volta e com um sorriso meigo me agradeceu. – Obrigada moço.

Quase me cai uma lágrima diante da cena de tamanha ingenuidade e pureza.
Do outro lado o palhaço encerrou sua apresentação. A chuva cessara. Os ônibus tiveram suas portas abertas e o povo em estado de encantamento e felicidade embarcou para o retorno aos lares, depois de uma noitada gloriosa.
Jurandir, a quem eu já apreciava, passou a ser uma referência para mim em matéria de engajamento e cidadania.

Nos dias que correm estou assistindo e estou revoltado com a confusão que está ocorrendo com o transporte fluvial de alunos.
Tudo parado por conta de alegações as mais variadas. Contratos superfaturados, inadimplência do município, regras e mais regras dos órgãos fiscalizadores, que estabeleceram administrações paralelas e engessam as ações administrativas, das mais simples às mais complexas.

Os fiscalizadores operam censuras, restrições e condenações seguindo à risca o que consta de seus ortodoxos manuais havendo quem fique deliberando sobre situações críticas do dia a dia de uma administração pública, sem que jamais tenha administrado um quiosque de tacacá.

Fico a lembrar daquela meninada saindo da escola tomando rumo da beira do rio, embarcando nas lanchas e indo para casa, depois de um dia de aula, de evolução intelectual e social, que agora está sentada à beira do barranco, há meses, esperando o barco vir pegá-la para a transportar rumo ao futuro e, principalmente à dignidade e cidadania.

Não podemos esquecer que dignidade é cláusula pétrea e fundamento da nação e nada, absolutamente nada pode se antepor à conquista desta dignidade.

Se não há acordo com os prestadores de serviço; se as regras rígidas dos donos da verdade estão a imprimir este estado lastimável de abandono aos que tanto precisam, sugiro ao Prefeito que quebre regras, se insurja, infrinja, aja como o mandatário que foi escohido pelo povo para cuidar dele e não de firulas legais descabidas em momentos tão cruciais.

Se há um lock out das empresas pratique o ato que se lhe é exigido.
Avalie a frota de barcos e a exproprie, abrindo dotação orçamentária para as indenizações.

Peça imediata imissão na posse.
Contrate a mão de obra que hoje atende às empresas, em caráter emergencial e, pelo amor de Deus, traga estas crianças para a escola.

Não as abandone. É muito cruel o que está acontecendo.

Ora bolas, vão fazer audiências públicas; vão rescindir contratos. vão fazer nova licitação.

E os meninos no barranco e no abandono por mais de um ano até que se complete o ciclo virtuoso de legalidade tão decantado pelos burocratas de plantão.

Que tal eu emprestar minha lanterninha para que este tortuoso caminho seja iluminado e a finalidade maior da administração seja cometida.
Protesto indignado e revoltado.

Gostaria de não ficar só.

* Amadeu Guilherme Matzenbacher Machado
Conselheiro Aposentado do Tribunal de Contas
Advogado Militante
OAB/RO 4-B

Alan Alex
Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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