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O dia em que a PF não entrou e deixou de encontrar R$ 2 milhões com Confúcio Moura

Agentes ficaram na porta do apartamento aguardando a saída de Rômulo da Silva Lopes

No dia 18 de novembro de 2011, agentes da Polícia Federal bateram à porta da residência oficial do então governador de Rondônia Confúcio Moura (MDB). Mas, ele não era o alvo naquele dia. Os policiais foram prender Rômulo da Silva Lopes, afilhado de Confúcio e homem de confiança. E a proximidade era tanta que ele morava na mesma casa que o chefe do Executivo.

O governador recebeu os policiais e mandou chamar Rômulo, que nervoso, se vestiu rapidamente e foi levado para a Superintendência da Polícia Federal em Porto Velho. Enquanto isso, em vários outros pontos da cidade, outros alvos eram acordados pela PF.

Mas, como Confúcio não era alvo, os policiais não revistaram o quarto ocupado por Rômulo e por isso deixaram de encontrar R$ 2 milhões em espécie que estariam escondidos embaixo da cama do assessor de Confúcio. Para entender um pouco mais sobre essa história, precisamos voltar à 2011, primeiro ano do primeiro mandato do ex-governador.

Confúcio havia recebido o Estado com o caixa enxuto e uma estrutura funcional. Todos os contratos com fornecedores estavam em dia, e de repente, logo na segunda quinzena de janeiro, começam a surgir notícias sobre atraso nos pagamentos. A primeira vítima era um contrato de fornecimento de alimentação para presos e doentes, cujo valor era altíssimo, dado a quantidade de público atendido. E esse era um contrato que chamava a atenção. Rapidamente emissários do governo passaram a assediar o empresário Júlio César Bonache, então detentor dos contratos com a Sesau e Sejus.

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Em fevereiro, ainda antes do carnaval, os contratos de Júlio César começam a atrasar. Como ele trabalhava com produtos perecíveis e em grande volume, os fornecedores cobravam à vista, e o Estado não repassava os valores, o que deu início a uma crise. O mesmo quadro se repetia em outros contratos também essenciais, como o de locação de veículos, compra de medicamentos, locação de imóveis. Enquanto a crise se agravava, grupos de emissários procuravam os empresários oferecendo “ajudar a receber” em troca de um percentual. Em alguns casos, como o de alimentação, chegaram a cobrar 40% do valor do contrato para liberar o pagamento. No centro de tudo isso, segundo delações de José Batista, Rômulo da Silva Lopes e Rafael Santos Costa, estava Confúcio Moura. Um quarto depoimento, feito espontaneamente, viria à público em outubro de 2013, era do ex-assessor de Confúcio, Herbert Lins, preso na operação Apocalipse, deflagrada pela Polícia Civil com intuito de “limpar os credores” que começaram a perturbar Confúcio por promessas feitas durante a campanha eleitoral de 2010.

Em uma longa carta publicada na internet (CLIQUE AQUI PARA LER NA ÍNTEGRA), Herbert Lins revelou uma série de detalhes que corroboravam os depoimentos dos presos na Termópilas. Em determinado trecho, Lins declarou, “a Policia Federal não tinha dado o verdadeiro bote no apartamento do governador Confúcio Moura (PMDB), ao prender o seu motorista Rômulo – que supostamente tinha traído a confiança do seu chefe. Pois debaixo da sua cama, se encontrava uma mala com a soma de R$ 2 milhões de reais”.  

Após ter sido solto, Rômulo voltou para Ariquemes onde reside com a família. Ele não quer mais conversa com a turma de Confúcio Moura.

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Depoimento de Batista foi devastador

Ex-homem forte de Confúcio, José Batista Silva foi preso na Operação Termópilas em 2011. Ele fez delação premiada e em 2014 cópias de seu depoimento se tornaram públicas. PAINEL POLÍTICO divulgou com exclusividade os detalhes. Veja abaixo como funcionava os esquemas, segundo Batista e CLIQUE AQUI para ler na íntegra:

Direcionamento de licitações milionárias

Logo que Confúcio Moura assumiu o governo teve início uma verdadeira maratona de seus emissários nas empresas que prestavam serviços ao Estado. De acordo com Batista, certa vez em viagem a cidade de São Paulo, eles haviam ido conhecer algumas empresas que atuam na área de tecnologia. Batista contou que ficou hospedado, junto com Wagner Luis de Souza no Hotel All Street, próximo a Avenida Paulista, enquanto o governador ficou em outro hotel que ele não sabia informar e no dia seguinte Francisco de Assis chegou à cidade de São Paulo se juntando ao grupo. Nessa viagem eles estiveram em várias empresas, entre elas a JBS Friboi. Batista afirmou que, durante um jantar, estando à mesa ele, Wagner, o governador e Assis, este último afirmou, “que eles tinham ido a empresa JBS Friboi e que tinha achado um jeito de ‘esquentar’ os recursos”. Assis só fez este comentário e ninguém tocou mais no assunto. A JBS doou em 2010, R$ 2 milhões para a campanha de Confúcio Moura.

Trecho do depoimento de Batista à Polícia Federal
Trecho do depoimento de Batista à Polícia Federal

Nesta mesma viagem, Batista detalhou o encontro de Confúcio com o ex-deputado estadual do Paraná Lindolfo Júnior, que na época trabalhava com um grupo ligado a empresa EICON Informática. Segundo Batista, após uma conversa, Lindolfo, que teria namorado a filha de Confúcio no passado, apresentou várias pessoas ao governador e a Assis, e citou os nomes de Luis Tedesco, Rose e Samanta, e afirmou que essas pessoas tinham projetos na área de tecnologia e poderiam interessar ao governo. Em fevereiro de 2011, Batista conta que foi chamado ao gabinete de Confúcio e este lhe disse que Lindolfo iria trabalhar nos projetos básicos da EICON, empresa que iria prestar serviços nas secretarias de Saúde, Educação, Finanças e Segurança. Na ocasião, Lindolfo teria dito que essas mesmas pessoas (Luis Tdesco, Rose e Samanta) iriam trabalhar no projeto básico da empresa CINACS Logística e no processo de aquisição de medicamentos da Sesau que seria efetuado mediante ata de registro de preço, cujo contrato total girava em torno de R$ 112 milhões a R$ 119 milhões. Batista então comentou a situação com Carla Mangabeira, na época diretora financeira da Sesau, quando ela lhe informou que estava vindo de Ariquemes uma pessoa para assumir a Gerência Financeira da SESAU, com a função específica de tratar da elaboração dos projetos básicos com o claro intuito de direcionar o processo licitatório. Essa pessoa, segundo Batista, se chamava Marcos, mas ele não soube dizer o sobrenome. Batista afirmou ainda em seu depoimento que “com certeza, Lindolfo, Luis Tedesco, Rose, Samanta e Marcos estavam direcionando licitações para beneficiar as empresas citadas por meio da elaboração do projeto básico.

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Fornecedores tinham que pagar propina para receber

A Operação Termópilas teve início quando investigações que visavam “identificar e colher provas a respeito de grupo criminoso estabelecido na Secretaria de Estado de Saúde de Rondônia (SESAU), montado para desviar verbas do Sistema Único de Saúde (SUS), em conjunto com empresários locais”. A partir dessas investigações, descobriu-se que havia um grupo criminoso agindo em diversas esferas. Mas foi a partir do depoimento de Batista que as coisas ficaram mais claras. Ele conta que em janeiro de 2011 houve uma reunião no auditório do Ministério Público com todos os fornecedores e o governador alegou as dificuldades para pagamentos das dívidas, segundo ele, herdadas do governo anterior e propôs o pagamento em 24 parcelas, já que as dívidas giravam em torno de R$ 170 milhões e R$ 66 eram da SESAU. A Secretaria de Finanças montou uma sala para atender os credores e como a SESAU não tinha dinheiro, a SEFIN repassava e a SESAU pagava. Batista conta que começaram a chegar credores dizendo que a SEFIN havia parcelado suas dívidas em pequenas parcelas (3, 5 ou 6 vezes), quando o valor era para ser pago em 24 vezes. Ele então procurou Wagner Luis, na época adjunto da Sefin perguntando se o critério de pagamento havia mudado. Wagner então pediu que Batista voltasse à tarde e assim foi feito. No mesmo dia reuniram-se no gabinete da SEFIN, Batista, Wagner, Francisco de Assis e Carla Mangabeira  e na ocasião Assis teria dito a Batista, “você esqueceu que tínhamos dívidas de campanha para pagar”, explicando que estava pagando as empresas em menos parcelas em troca de recebimento de propina na porcentagem de 9 a 30% do valor a ser recebido pelo fornecedor. Que a partir daí, Assis começou, semanalmente a passar uma lista de fornecedores que já teriam acertado o pagamento previamente na SEFIN com o próprio Assis e Wagner. Batista detalhou ainda que Carla Mangabeira fazia os ofícios descrevendo o valor total da dívida e a quantidade de parcelas em que deveria ser efetuado o pagamento para que  SEFIN depositasse o valor na conta da SESAU. A SEFIN então fazia a transferência, valor este, que segundo Batista não obedecia o critério de parcelamento previamente definido, ou seja, era depositado e liberado ao fornecedor o valor global, sob o qual incidia a porcentagem da propina. Batista afirmou que ele ou o secretário titular, na época Orlando Ramires, em conjunto co Carla Mangabeira efetuavam o pagamento da empresa. Os fornecedores que não aceitavam pagar a propina, recebia um ofício da SESAU que lhe dava direito a obter uma carta de crédito junto à rede bancária.

Alan Alex
Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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