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Porto Velho 100 – Próximos 10 anos podem definir outros 100

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Ao completar um século, Porto Velho coleciona as cicatrizes e os danos de uma história pontuada de descaso, desprezo e a falta das bases da cidadania contemporânea, considerando esta como o princípio pelo qual os cidadãos participam da vida em sociedade, com seus direitos e deveres. Contaminados e vilipendiados em seus direitos por sucessivos governos municipais e até estaduais, e carente de lideranças realmente vocacionadas para o desenvolvimento social e econômico, boa parte da população omitiu-se ou foi acomodada nas peculiaridades do subdesenvolvimento.

Consolidou-se o repúdio ou negação ao exercício dos deveres da cidadania pelo desprezo aos seus direitos mais básicos.

Os vetores mais importantes da falta da cidadania estão distribuídos pela cidade, vivos, escandalosos aos olhares até menos refinados: a cidade é suja, feia, abandonada até em suas principais artérias. A fiscalização é totalmente inoperante, até leniente. As injunções políticas e a total ineficiência dos serviços públicos desenham os cenários do descaso, do abandono que beira a devassidão. As principais referências são o lixo permanente em calçadas, ruas, esquinas, servindo de alimento e abrigo para ratos, baratas, moscas e doenças; o abandono de terrenos sem muros ou com muros sem qualquer manutenção, são o abrigo para mais lixo, animais peçonhentos e bandidos; o transporte coletivo e a infraestrutura de serviços ao cidadão é um desastre em todas as dimensões, pois os veículos são insuficientes, sujos e sem conservação, não cumprem horários e os pontos de ônibus são conhecidos apenas por quem depende do transporte, porque fisicamente não existem.

As construções abandonadas são contadas aos milhares, desde prédios imensos a “casas” minúsculas de madeira podre. Não há qualquer esforço social, político ou jurídico para dar fim a isso. Centenas de cidades em todo o país resolveram isso de forma legalmente viável e social e economicamente sustentável.

Vamos então nos mobilizar? O escândalo da péssima qualidade da cobertura de asfalto é mais que um caso de polícia, é um desastre sob todas as formas, punindo a população que clama por infraestrutura. Não bastasse isso, a falta de redes de escoamento de esgoto e águas pluviais inunda a cidade da pestilência do descaso. As dezenas de igarapés e pequenos cursos d’água que cortam a cidade, foram transformados em redes de escoamento de esgoto, águas pluviais e lixo, a céu aberto, envelopados por construções clandestinas ou obtidas por frágil e inconcebível “concessão pública” ou a vista grossa de meliantes em funções públicas.

À falta de normas construtivas ou de fiscalização eficiente, permitiu que a cidade acolhesse construções de alta periculosidade, mal feitas, insalubres, com deformações arquitetônicas graves e que concorrem com o zoneamento conflituoso com os interesses soberanos de grupos e da persistente leniência do poder público. Constrói-se em Porto Velho do século 21, com se construía no 19, com pouca ou nenhuma maquiagem para enganar-se a si próprio, poder público e proprietários. Obras públicas de grande ou pequeno valor econômico e social estão contaminadas pela amplamente difundida cultura do mal feito, do remendo, do retrabalho emporcalhado, do profissionalismo zero, do abando, da licitação viciada, do contrato mal ajambrado. Viadutos, pontes, ruas, praças, iluminação, e obras de paisagismo formam a lista apenas inicial do descaso e do amadorismo no trato com bens públicos.

A infraestrutura social está podre, carcomida. Da saúde à segurança, nada está inteiro ou funcionando minimamente. Os postos de saúde são o retrato fiel e cruel do perfil da gestão pública que não funciona em nada, e contribui decisivamente para o abandono da cidadania pelos cidadãos, tratados como animais ou seres vivos sem qualquer valor para os donos do poder. Milhares de cães e gatos desta cidade são tratados muito melhor que outros tantos milhares de cidadãos: recebem alimentação de qualidade, banho, tosa, vacinação, vestuário, têm conforto ambiental, carinho, atenção, respeito. Coisas do mundo contemporâneo? Jamais. Tudo isso é fruto de graves distorções sociais e econômicas.

Sim, a estrutura econômica tem vital participação nisso.

Com políticas públicas que remetem historicamente à concentração de renda, Porto Velho é o retrato do Brasil atrasado, considerada a cidade mais feia do país por qualquer um que viaja para além de nossas divisas, mas também por quem conhece nossas cidades do interior, algumas raras que conseguem oferecer um mínimo de infraestrutura e respeito à cidadania, ainda que carentes de itens fundamentais dos melhores benefícios do desenvolvimento urbano de qualidade. E a concentração de renda, fonte geradora de distorções sociais e econômicas graves, ainda é fruto do império, com o favorecimento escancarado a grupos econômicos dominantes e outros nem tanto, mas com notável dissociação e desprezo às demandas sociais mais básicas.

Se, por um lado, não temos desemprego – e isso é um fato – de outro temos exércitos de excluídos, iletrados ou mal letrados, nada treinados nas demandas que exaustivamente empresas e empreendedores cansam de listar. As instituições empresariais que deveriam liderar projetos e processos de organização social e econômica por interesse próprio, inalienáveis para a construção de uma economia pujante, digladiam-se em lutas fratricidas.

Quando muito subscrevem campanhas e movimentos natimortos ou que não levam a lugar algum. A sociedade pede socorro, sim, mas seus ecos reverberam para perderem-se no infinito do desprezo e abandono que nos persegue.

Mais uma vez os fatos da atualidade político-eleitoral batem-se diante da realidade histórica que nos esmaga. Novas promessas são despejadas como pão quente para consumo do populacho usado, abusado e vilipendiado. Há sempre um fio de esperança. Sempre. De que o futuro poderá ser melhor. De fato, os próximos dez anos podem definir os próximos 100, dado o avanço irrefreável da humanidade em direção às mudanças que sacodem todos os quadrantes do mundo. Mas, primeiro, tais ventos precisam chegar a estas bandas perdidas nas saias da floresta amazônica. Se não temos prefeito e muito menos gestão pública, que isso nos sirva de lição para não cair no canto da sereia de promessas infundadas, de políticos tragados pela própria incompetência e imersos na mesquinhez, na indecência e na arrogância do poder miniaturizado de suas mentes doentias.

Ainda a canção de Vandré aponta um caminho: quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Muda Porto Velho!

José Armando Bueno é consultor de empresas.

[email protected]

 

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