PRF que matou empresário teve fiança negada; vítima pediu desculpas antes de morrer

Quero esse homem preso por pelo menos 20 anos. Vou gastar tudo o que tenho, todo o dinheiro das nossas empresas, mas quero que ele pague pelo que fez”

Preso em flagrante após se envolver em uma briga no trânsito e ser autuado pela morte do empresário Adriano Correia do Nascimento, de 32 anos, além da tentativa de homicídio de outro passageiro da caminhonete, o policial rodoviário Ricardo Hyun Su Moon, de 47 anos, não teve direito à fiança e permanecerá na cadeia, em Campo Grande.

De acordo com o delegado João Eduardo Davanço, da Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) Centro, o suspeito reforçou a tese de legítima defesa. Durante depoimento, o policial alegou que foi “fechado” por três vezes na avenida Ernesto Geisel, sendo que suspeitou de embriaguez por parte do condutor da caminhonete e por isso decidiu fazer a abordagem.

“Toda a versão será confrontada com a perícia, laudos e depoimentos das testemunhas. A autoridade policial decidiu por mantê-lo preso e agora ele permanece à disposição da Justiça, em uma cela da Delegacia Especializada de Repressão à Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros (Garras)”, afirmou o delegado.

Adriano foi assassinado pelo PRF

Após o depoimento, o suspeito foi levado para o Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Legal). De acordo com o delegado, ele não possuía histórico criminal, bem como a vítima. No histórico do policial, consta que ele participava de competições de tiro.

“Adriano foi uma pessoa espetacular, muito generosa. Pode perguntar por aí, não tinha um que não gostava dele”. É assim que Ronaldo Correia do Nascimento, 36 anos, descreve o irmão.

Com lágrimas nos olhos, que refletem também a revolta, familiares e amigos acompanham o velório do jovem empresário, realizada numa capela nas Moreninhas. Entre os presentes, ninguém consegue aceitar o que houve e todos pedem Justiça.

“Conversei com Agnaldo (amigo de Adriano, que também estava no carro no momento da confusão), ele disse que depois de fechar o policial, meu irmão desceu pedindo desculpas. E o cara falou que foi legítima defesa. Isso não existe”, diz Ronaldo, bastante emocionado.

Adriano era dono de dois restaurantes de sushi em Campo Grande. Garoto vindo do interior, morava na Capital com a família há cerca de 15 anos. Construiu a vida por aqui.

Ronaldo Correia do Nascimento, 36 anos, no local da morte do irmão. (Foto: Alcides Neto)

“Minha família está desolada. Eu ia pescar com meus irmãos. Poxa, tiraram meu irmão de mim, um a pessoa boa, querida por todo mundo. Quero esse homem preso por pelo menos 20 anos. Vou gastar tudo o que tenho, todo o dinheiro das nossas empresas, mas quero que ele pague pelo que fez”, reforça o irmão, debaixo de muito choro.

A tristeza é tanta, que a mãe de Adriano, de 64 anos, não conseguiu acompanhar o velório do filho. Ficou por cerca de meia hora, até que passou mal e precisou ir embora.

Conhecidos do rapaz também manifestam a revolta da perda pelo Facebook, e a dor de não poder mais contar com um amigo. “Não dá pra acreditar. Cara do bem, trabalhador que conquistou tudo o que tem com muita luta. Justiça seja feita”, comentou um amigo.

O velório de Adriano está sendo realizado na Rua Ipamerim, bairro Moreninha ll, na Capital. O enterro está marcado para às 15 horas deste domingo, no Cemitério Nacional Parque da Vila Moreninha IV.

“Um inspetor da polícia é para ajudar as pessoas, não para matar. Quero que as pessoas entendam que não é vingança, o que queremos é justiça. Nós vamos tirar ele da sociedade, para que não mate outros”, finalizou o irmão de Adriano.

Hyun Su Moon só foi preso em flagrante após ir para a delegacia (Foto: Simão Nogueira)

Confusão – Uma mulher, que pediu para não ser identificada, contou à reportagem que participava do velório de um jovem morto pela polícia e ouviu cinco disparos e o barulho da batida. “Ele estava metade fardado e com a arma em punho”.

Segundo o relato, o policial estava nervoso e um rapaz ferido gritava, desesperado, que ele tinha “matado o Adriano”.

O policial conduzia uma Mitsubishi Pajero e efetuou disparos contra uma Hilux. Adriano, que conduzia a camionete, foi atingido, perdeu o controle da direção e o veículo derrubou um poste de iluminação pública.

Em depoimento, Ricardo disse à Polícia Civil que agiu em legítima defesa ao disparar sete vezes contra os ocupantes da Hilux e confirma que uma briga de trânsito provocou a situação.

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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