Que a UNIR tem de melhor?  Ari Ott, Reitor – Arneide Bandeira Cemin

O professor Ari Ott tem participado e liderado comunidades, trajetórias e narrativas que efetivamente são a expressão da vida que existe na UNIR

A UNIR tem de melhor a sua História memorável. A história é escrita e inscrita na memória e no corpo. Nos objetos, nas instituições nas regras orientadoras (Durkheim e Mauss) de “nosso modo de estar no mundo”, como descreve a fenomenologia – existencialista (Merleau Ponty).

Como sintetiza Weber, “o homen (sic)¹ é um animal preso a uma teia de significados que ele mesmo produz”. Esse produzir envolve simultaneamente práticas e representações de “relações sociais” dos humanos entre si e com a natureza: vínculos e alianças; e “contratos” sob a jurisdição do Estado Moderno. Este é dirigido pela classe burguesa, cujo modo de domínio específico é o burocrático. O seu objetivo é a apropriação privada de lucro cada vez maior, e de preferência, sem custos sociais para ela. Sua ética é individualista, embora pratique o “protecionismo familiar entre os seus”, seja na estreita ótica do “familismo moral”, seja na resistência a redistribuição do produto social, as riquezas. Entre estas, a enunciação e circulação de outra palavra que não seja a palavra do poder que visa garantir sua governança.

O problema da governança é o problema do controle sobre a produção e circulação dos bens, dos corpos e das palavras. Isso envolve as questões de legitimidade para o mando e para a obediência. A UNIR, por ser uma instituição escolar, é uma estrutura de poder, e como tal é parte das disputas e das alianças que afetam a sociedade. Ela teve origem no contexto dos últimos anos da “Ditadura Militar” no país. Foi criada no ambiente tecnocrático hierarquizado e obscurantista das “sociedades administradas”. Assim, em seu ambiente não poderia haver “política”. Isso significava que só se podiam falar as palavras do poder instituído.

Então, o que se permitia e estimulava, era apenas o discurso laudatório, elogioso e subserviente. A legitimidade desse ambiente foi questionada pelos estudantes e pelas estudantes, com o apoio do professor Onofre Matias (falecido) . Nesse ponto a história da Unir passou a estar entrelaçada com a minha história. Desde 1982, bem no começo daquela instituição, quando ingressei em sua primeira turma de Graduação no curso de História. Naquela ocasião, havia um estudante de economia, acho que paranaense e com ascendência polonesa, o Kluska, que se constituía como liderança de um pequeno grupo de três ou quatro pessoas, entre estas, apenas uma acadêmica, militante da doutrina social da Igreja Católica. Logo me juntei a esse grupo, pois eu já trazia lições de liberdade política pela minha história de vida interpelada pelo contexto revolucionário da época.

Depois de nos mobilizarmos para que representantes da UNE (União Nacional dos Estudantes) tivesse acesso as dependências da UNIR para convidar os acadêmicos para o congresso da entidade, organizamos recursos para que fossemos ao referido evento. Ali, uma acadêmica, Clara Araújo dirigia a entidade em final de mandato. Retornamos fortalecidos\as em nosso propósito de democratizar a sociedade e a universidade. Criamos o Diretório Central dos Estudantes, do qual eu fui a primeira presidente, reafirmando também a política feminista.

Na condição de presidente do DCE, estive discursando na fundação da ADUNIR (Associação dos Docentes da UNIR), que também ajudamos a ter existência. Depois disso, fiz mestrado em Sociologia na UFRGS, doutorado em Antropologia Social na USP, Pós-doutorado em Bioética na  UNB e sou professora e pesquisadora na UNIR desde 1990.

Conto essa história porque ela é uma história típica de muitos dos que obtiveram diplomas ali e dos que a ela estão ligados por contrato de trabalho. Olhando o conjunto dessas histórias, eu diria que aquilo que a UNIR tem de melhor são as pessoas. Mas nem tudo vai bem, Intelectuais reunidos em 2003 para discutir a universidade brasileira, em seminário em Brasília, avaliam que a expansão do sistema federal de ensino superior foi prioridade dos governos militares sob a orientação da comissão MEC-USAID. Entretanto, de 1964 a hoje, a universidade federal se transformou de instituição em organização, segundo Marilena Chauí.

Assim, paradoxalmente, chegamos àquilo que passamos a vida trabalhando para evitar: a burocratização da universidade, a quase preponderância do pensamento tecnicista. O formato organização assinala a passagem do mérito obtido por formação, para a instrumentalidade da habilidade específica e imediatista. Esta tem prevalecido sob as mais variadas formas de “boa” intenção: populismo, clientela e o abandono das exigências de formação intelectual erudita. Estudos aprofundados e vastos requerem longo prazo mesmo em condições “ótimas” – onde há experiência de longa duração em cultura letrada e pensamento lógico-matemático. Tratando-se do Brasil e de Rondônia, coloca-se o grande desafio da atualização histórica e crítica com esse legado, dito Ocidental e judaico cristão; e também com o trabalho para o reconhecimento do valor filosófico, religioso e científico das civilizações ameríndias, africana e árabe para a conformação do mundo moderno e contemporâneo (Mariátegui, Aníbal Quijano, Enrique Dussel, Darcy Ribeiro…).

O modelo de organização funciona pela “produção de diplomas” de forma imediatista para o “mercado de trabalho”, por isso este princípio deve ser questionado porque a universidade não deve produzir profissionais para o “mercado”, qualquer que seja: de arte, ciência, religião, tecnologia. Penso que não devemos nem mesmo “produzir” seres. Penso que precisamos mesmo de “outras palavras”, pois dados os avanços da biotecnologia, a noção de produção, antes categoria filosófica e antropológica libertadora (vide “marxismo\s”), passou a designar tecnologia de produção em série, para constituir mercado de órgãos e de corpos “dóceis” (Foucault).

Estimular a vida com base no “amor à sabedoria sob o escrutino de um público bem formado e informado” é cada vez mais necessário em sociedades como a nossa que se orienta pela competição agônica, violenta, destruidora, mortífera e totalitária (Hanna Arendt); engendrada pela colonização “predatória” dos sucessivos impérios que as dominaram e dominam, mas que também enfrentam resistências. Então, a universidade, como instituição “socializadora” deve estimular diversidade de seres para a proteção da vida de todos os humanos e da natureza (Lévi Strauss).

Uma universidade não deve ter como meta produzir profissionais para o mercado de trabalho, mas sim estimular e consolidar a formação de pensadoras e de pensadores que contribuam criativamente para a resolução dos problemas civilizacionais em escala planetária, e que também possam projetar e realizar um horizonte de mais liberdade, paz e coo responsabilidade criativa. O professor Ari Ott² participa e lidera comunidades, trajetórias e narrativas que efetivamente são a expressão da vida que existe na UNIR. Não é o caso de transformá-lo em “líder”, perfeito e onipotente, mas reconhecer nele uma pessoa “humana”: conhecemos seus possíveis limites e suas qualidades e ao avaliarmos a ambas e a nossa conjuntura de escolhas, somos motivados e motivadas a votar em Ari Ott para Reitor porque passados tantos anos, nos quais ele foi colocado à prova como professor, pesquisador, dirigente, colega e amigo, ele continua merecedor de nossa confiança e admiração.

Ari Ott Reitor é uma excelente representação daquilo que a UNIR tem de melhor Pessoalmente, gosto do tipo de sua  inteligência, integridade e competência. Estas qualidades podem potencializar a emergência de espaço público para a circulação de ”outras palavras” que enunciem qualidade em nossa formação e atuação intelectual como base de aliança entre a universidade e a sociedade que a mantém.

 

Arneide Bandeira Cemin é mestre em Sociologia na UFRGS, doutora em Antropologia Social na USP, Pós-doutora em Bioética na UNB e professora e pesquisadora na UNIR desde 1990

Notas:
1. Sic é um recurso gráfico para dizer que a palavra foi escrita pelo autor do modo como aparece, mas 
2. O professor Ari Miguel Teixeira Ott tem formação em Medicina, com Especialização em Psiquiatria 
3. Não apresento uma lista de referências bibliográficas porque interessa a “visão de mundo” das que temos algo contrário a dizer. Neste caso, endosso a crítica feminista que alerta para o fato de que usar o gênero masculino para falar de toda a humanidade, obscurece a fundamental presença feminina na história humana. (UFBa), Mestrado em Antropologia Social (UNB) e Doutorado em Ciências Humanas (UFSC). autoras e autores citados, algo que é mais bem apreendido pelo conjunto da obra. 
Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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