“Ritual satânico foi uma farsa”, diz delegado que investiga esquartejamento de duas crianças

A motivação do esquartejamento de dois irmãos, um menino com idade entre 8 e 9 anos e uma menina com idade entre 10 e 12 anos, encontrados em 4 de setembro em Novo Hamburgo, na região metropolitana de Porto Alegre continua sendo um mistério. A única certeza até o momento é que a história de um suposto ritual satânico com as crianças é mentira. A farsa pode ter servido como “cortina de fumaça” para desviar o foco da investigação que inicialmente trabalhava com a hipótese de um crime ligado ao tráfico de drogas.

A falsa solução do crime foi apresentada pelo delegado Moacir Fermino em janeiro durante as férias do delegado Rogério Baggio, que conduzia as investigações. Agora, Fermino e sua equipe estão sendo investigados pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil (Cogepol). A reportagem tentou contato com Fermino, que não atendeu as ligações.

“Não há crime perfeito. Descobrimos uma falha e encontramos a verdade. Tenho dez anos de profissão e nunca vi nada parecido”, disse Baggio a revista Veja, em entrevista no seu gabinete. Ao retornar ao posto após as férias, Baggio estudou o inquérito do colega substituto, analisou as provas apresentadas, fez novos interrogatórios e concluiu: um homem comprou três testemunhas que inventaram sobre o sacrifício dos irmãos em um ritual de magia negra. Em troca, as testemunhas ganhariam salário e moradia do programa estadual de proteção às testemunhas, ou seja, foram corrompidas com dinheiro público – uma delas já estava no programa quando a mentira foi descoberta e outra estava prestes a ingressar.

A Cogepol investiga a operação para descobrir se policiais estão envolvidos na compra de testemunhas e a possível motivação para a versão do suposto ritual satânico.

“Foi uma história mirabolante e muito bem contada. Embora seja uma história mentirosa, é repleta de fatos verdadeiros que davam credibilidade à versão”, disse Baggio. Por causa da mentira, cinco homens estavam presos havia vinte dias e dois estavam foragidos com decreto de prisão.

Assim que percebeu que os homens presos não estavam envolvidos no crime, Baggio temeu por suas vidas. “Eles eram acusados de algo grave. Mesmo quem é criminoso não aceita esse tipo de coisa envolvendo crianças. Eu tinha que correr contra o tempo [para que outros presos não matassem os suspeitos]”, disse à reportagem o titular da Delegacia de Homicídios de Novo Hamburgo.

“As vítimas, até então suspeitas, foram postas em liberdade. Fiquei mais tranquilo. A maior satisfação do trabalho não é prender, como as pessoas podem imaginar, mas libertar pessoas inocentes”, falou Baggio.

Quando o delegado usa o termo “mirabolante”, ele se refere ao quebra-cabeças que envolvia provas plantadas, denúncias anônimas, a ligação entre os sete suspeitos (alguns nem sequer se conheciam), detalhes falsos sobre o suposto ritual (sete homens encapuzados, velas acesas, crianças com capuz e cambaleantes), detalhes verdadeiros sobre os homens até então suspeitos e testemunhas compradas que serviam para “fechar pontas” da investigação. Tudo foi inventado.

Até um livro artesanal de ritualística, parecido com um roteiro de teatro com as falas indicadas, foi provavelmente alterado para servir de prova do suposto ritual. Uma página do manual foi arrancada para dar a falsa ideia de que ali estaria indicado o sacrifício e uma parte foi queimada para sugerir ocultação de provas. Mesmo com a busca e apreensão realizada pelo delegado Fermino em um templo, o livro só foi encontrado em outra operação de busca comandada por Baggio. A nova operação no local durou 55 horas e os policiais não encontraram nenhum rastro de sangue humano nos testes noturnos com lumiol, substância que brilha na presença de sangue.

Ainda não se sabe por que os sete homens acusados foram escolhidos, se por vingança ou aleatoriamente, e não se sabe quem matou as crianças e o porquê. O assassinato ainda está sendo investigado por Baggio: “Não descarto nenhuma hipótese, só sei que as mortes não ocorreram da forma anunciada”.

Veja.com

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Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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