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Rondônia: Os vereadores, a política e a pedagogia da mediocridade – Por Francisco Xavier

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FRANCISCO XAVIER GOMES é Professor da Rede Estadual.

O recente episódio envolvendo a patuscada de alguns vereadores de Ariquemes, que sugerem a queima de livros didáticos, provocou uma série de manifestações que merecem toda a atenção daqueles que acreditam em uma educação melhor, sendo que é necessária uma reflexão profunda sobre a condição de avaliar os fatos. O ocorrido na Região do Estanho não é um fato superficial…

O maior problema que vejo no episódio é a desinformação, que começa com a atitude do prefeito-delegado. Ao ser instigado pelos vereadores, segundo declarações que ele fez em vídeos publicados, o alcaide de Ariquemes resolveu que seria correto ampliar o debate e ouvir a população. Sinceramente, do ponto de vista dos princípios da democracia, considero a atitude do prefeito correta, e até acredito que isso o isentou da demagogia, embora estejam bem evidentes os resquícios de demagogia. Ariquemes ainda viverá muitos fatos em que o povo não será ouvido, mas dessa vez o prefeito “chamou o povo para o debate”. Lógico que muitas pessoas não procuraram sequer ler os conteúdos dos livros, incluindo-se aí diversos dos vereadores moralistas que iniciaram a confusão. Qualquer vereador que fizer a leitura do material condenado vai ver que não existe absolutamente nada de grave nos conteúdos. O livro apenas mostra que tipo de famílias nosso país tem. Apenas isso!

Quando os fatos vieram à tona, a primeira coisa que fiz foi acionar um amigo de Ariquemes e pedir que me dissesse qual era o livro “condenado” pelos vereadores. Após fazer a leitura do livro, conversei com diversas pessoas sobre os fatos e pedi a opinião delas. Na conversa, perguntei se conheciam o conteúdo dos livros que são objeto do debate. As pessoas que se disseram a favor dos vereadores não conhecem o conteúdo, não leram os livros. As pessoas que leram os livros, que viram os conteúdos e que possuem filhos em escolas de Ariquemes disseram que não viam nenhum problema. Há, claramente, um fundo de fundamentalismo religioso na história, como também há uma carga de desinformação e preconceito sem precedentes e também muita hipocrisia. Da maneira como as pessoas condenam os livros, dá a impressão que os alunos de Ariquemes nunca souberam que existem famílias formadas por pela união de pessoas do mesmo sexo. Da maneira como as pessoas condenam os livros parece que é crime uma pessoa casar com outra do mesmo sexo. Que absurdo!

Claro que após ler este texto, muitas pessoas preconceituosas dirão que sou homossexual. Como se homossexualismo fosse crime. A questão é que minha condição de professor, há 30 anos, não me dá o direito de discriminar pessoas pela orientação sexual. A minha condição de heterossexual não me faz melhor que nenhuma pessoa. Eu nunca vi problema no fato de uma pessoa ser homossexual. Também nunca vi problema no fato de uma pessoa praticar uma religião. O problema está na hipocrisia, na mediocridade. No ano passado, o governo de Rondônia criou uma norma que permite o aluno reprovar em 04 disciplinas e passar para a série seguinte. Este fato prejudica muito a formação científica de um aluno, mas os vereadores de Ariquemes ficaram caladinhos. Com certeza, alguns deles nem sabem disso! Conheço muitos vereadores que nunca abriram os livros dos filhos e que nunca foram à escola participar de uma reunião. Até hoje, o prefeito de Ariquemes e os vereadores moralistas certamente não ouviram a opinião de nenhum aluno. E não ouviram porque pessoas com menos de 16 anos não votam. É mais fácil jogar para a plateia. A plateia que vota…

Ariquemes é um dos principais municípios de Rondônia, é um dos principais municípios da Amazônia. A educação deve ser debatida de maneira séria num município do tamanho de Ariquemes, e da importância do município. Isso sem falar que a população do município é formada por pessoas que trabalham, que lutam, que tentam fazer o melhor. Enganar a população com essa posição preconceituosa e discriminatória é desleal. Em vez de chamar as pessoas para opinar contra a ideologia de gênero, sem esclarecer os fatos, o prefeito e os vereadores deveriam chamar os pais para ler os livros, coisa que não fizeram. Muita gente opina contra os livros apenas por posição religiosa, mas não sabe sequer o que é, de verdade, ideologia de gênero. A ideologia de gênero não existe no Brasil. Dizer que existe uma lei municipal que não permite o uso dos livros é querer enganar pessoas. Os vereadores de Ariquemes deveriam chamar para um debate os profissionais da Pedagogia que moram na cidade. Ariquemes tem excelentes pedagogos. O livro condenado pelos edis não trata da ideologia de gênero. Querer impor a vontade de meia dúzia de políticos desinformados, sob a falsa alegação de ouvir o povo, é uma atitude hipócrita. Querer negar que o país tem diferentes tipos de famílias é descumprir a lei do país. Uma lei municipal deve ser cumprida sim, mas não usada como manobra para alienar pessoas. A diversidade não é crime. Crime é a corrupção de políticos, coisa muito comum em nosso estado. Crime é a falta de professores nas escolas públicas, crime é a falta de estrutura das escolas e faculdades do país…

Finalmente, o preconceito, a discriminação e a desinformação não vão mudar a realidade do país. Mesmo assim, continuo acreditando que a educação vai melhorar. Se hoje, mais da metade dos vereadores de Ariquemes não possuem formação superior, um dia teremos um país com todos os vereadores formados, o que pode contribuir muito com a formação de nossas crianças e adolescentes. Claro que a falta de escolaridade não é crime e nem sinônimo de má conduta; é apenas uma condição social inevitável na vida de muitos brasileiros. Os sete vereadores de Ariquemes que não passaram do ensino médio sabem as dificuldades que enfrentam, mas nenhuma dificuldade será superada com demagogia, com hipocrisia e com a falta de leitura… Tenho dito!!!

 

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