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Sobre como o sistema bancário brasileiro te engana e ganha dinheiro em nome da “segurança”

Ainda sobre crédito, Serasa e o novo golpe aplicado pelos bancos, o "score positivo"

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Darlan* tem 25 anos, nunca teve o nome negativado, trabalha há 1 ano como assistente de uma grande empresa e tem uma renda mensal média de R$ 5 mil. Não tem empréstimo, nunca precisou comprar nada à prazo, e quando o fez, usou cartão de crédito, com limite de R$ 6 mil, mas nunca teve crediário ou “cartão de loja”. Com esse perfil ele acreditou que conseguiria comprar um carro usado sem grandes problemas. Se enganou redondamente. Para o sistema financeiro brasileiro ele simplesmente não existe. Apesar de no site do Serasa seu “score” contar com mais de 700 pontos, nas financeiras ele não chega a 5. Com isso, seu sonho de entrar 2018 com seu primeiro carro, foi adiado.

Mas, o que acontece no Brasil comandado pelos bancos, que controlam seu dinheiro, estabelecendo limites a tudo, até a quantidade de boletos que você pode pagar durante o dia? Acontece que vivemos em uma ditadura financeira, onde apenas os bancos ganham (e muito), enquanto o cidadão trabalha feito um louco para tentar conseguir comprar o que quer, mesmo tendo dinheiro e “nome limpo”, uma exigência que vem desde o final dos anos 80.

No Brasil dos bancos os lucros são exorbitantes. Para se ter uma idéia, quem financia R$ 16 mil em 36 vezes, vai pagar pouco mais de R$ 30 mil. Uma taxa de juros digna de deixar qualquer agiota envergonhado. Mas os bancos podem, e fazem. O problema é que apenas a chamada “classe média” e os mais pobres são os que sofrem com essas restrições, afinal, quem tem dinheiro compra à vista, fala diretamente com o gerente, saca quanto e quando quer qualquer valor, sem precisar de “provisionamento” ou outras bobagens.

Em nome da “segurança dos clientes“, o Brasil é um dos poucos países do mundo onde os caixas 24 horas operam apenas até às 22 horas. Aos finais de semana os caixas reduzem os valores a serem sacados. Mas não se sinta “especial”, na verdade eles operam com seu dinheiro enquanto você dorme achando que “está seguro”.

Em 2010, pegando carona em uma “onda de sequestros relâmpagos”, os bancos enxergaram uma excelente oportunidade de impedir saques noturnos e adotaram essa política, o que dá uma segurança não aos correntistas, mas aos bancos, que evitam, por exemplo, uma onda de retirada em caso de rumores de quebra ou dificuldades da instituição. Essa, aliás, é uma das primeiras ações que bancos que estão quebrando adotam, bloqueiam ou limitam saques dos correntistas. Foi isso, por exemplo, que aconteceu com o falido Banco Santos, em 2004.

Após descobrir que a situação financeira do banco vinha se deteriorando rapidamente e que o déficit patrimonial (diferença entre dívidas e os bens e créditos) seria de R$ 700 milhões, o Banco Central afastou o então presidente, Edemar Cid Ferreira e diretores do controle da instituição e nomeou um interventor.

Sua responsabilidade seria apurar possíveis irregularidades cometidas por dirigentes da instituição e levantar informações necessárias para que fosse decidido seu futuro.

Na época, os correntistas do banco tiveram saques limitados a R$ 20 mil para contas à vista e cadernetas de poupança. Os demais recursos ficariam bloqueados à espera de que fosse encontrada uma solução para a instituição financeira.

Até fevereiro desse ano a massa falida do banco continuava sendo gerenciada pelo interventor.

Mas, vamos voltar ao sistema. Os bancos operam nas bolsas de valores usando contratos, quantidade de correntistas, aquisições, valores em caixa e números positivos. Tudo isso faz com que as ações dessas instituições subam. Com isso, eles ganham mais dinheiro, muito. Sem contar as taxas “administrativas”, “cestas de serviços” e taxas de operação que são pagas por você que geram um volume obsceno de dinheiro nos cofres bancários. Juros impagáveis, com taxas pornográficas engordam a conta dos que realmente mandam no país. É o sistema financeiro e não o eleitor quem decide o próximo presidente. Para quem não se recorda, Lula só foi eleito em 2002 quando mudou seu discurso de moratória e passou a falar a língua que os banqueiros entendem, a de juros altos, aumento em linhas de crédito com aval do governo e claro, estabilidade política.

Com a crise construída a partir de 2014, os bancos foram os primeiros a apertar os devedores e correntistas. Fecharam as linhas de crédito, passaram a cobrar contratos e migraram o dinheiro para o exterior. Evidente que com essas medidas, os demais investidores pegaram carona no mesmo barco e sumiram do Brasil. De olho no cenário em 2018, os bancos começam a sabatinar os virtuais candidatos, e claro, deverão dar o aval ao ungido.

Para se ter uma idéia do controle que o sistema bancário exerce na vida dos brasileiros, a nomeação de Ilan Goldfajn, que havia sido economista-chefe do Itaú, foi anunciada quase uma semana antes em Israel, e por lá eles comemoravam enquanto no Brasil ainda era “uma mera conjectura”. Nomeado em maio de 2016 por Temer, Goldfajn, também acumulava no currículo os cargos de consultor do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional.

Casas Bahia

Durante sua tentativa de financiar um carro, Darlan* ouviu dos vendedores que ele deveria “abrir um crediário nas Casas Bahia”. A informação foi repassada assim, “você compra uma televisão, nem que dê 80% de entrada e paga o resto em prestação. Isso vai aumentar seu score rapidinho”. Ou traduzindo, compre à prazo, pague juros, pois só assim você pode comprar à prazo de novo, pagando ainda mais juros”.

E nem vamos entrar na discussão sobre os preços cobrados por carros no Brasil, que apenas por aqui, veículo é sinônimo de patrimônio, e não bem de consumo como é em qualquer outro lugar do mundo.

No Brasil, em 1968, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) criou a Serviços de Assessoria S/A, conhecido como Serasa. A idéia original era criar uma base unificada para atender todos os bancos. Com o passar dos anos, o Serasa acumulou milhões de dados sobre pessoas físicas e jurídicas e com os avanços tecnológicos, isso passou a ser uma importante moeda de troca. Um serviço que antes era apenas para bancos e grandes corporações, passou a fazer parte do cotidiano dos brasileiros, restringindo crédito a quem tinha “nome sujo” em todas as áreas. Mas, desde 2007 que o Serasa não é mais brasileiro. O controle acionário foi vendido ao grupo irlandês Experian, que em 2012 comprou o restante por U$ 1,5 bilhão.

Em outubro deste ano, o Senado aprovou uma aberração em nome do “povo” e legalizou o chamado “cadastro positivo” que já vinha sendo usado experimentalmente pelo Serasa e pelo sistema financeiro nacional.

Portanto, hoje não basta “nome limpo”, para obter crédito, sua vida financeira (boletos, prestações atrasadas, dívidas de cartões) tudo isso passa a valer usando uma régua conhecida como “score”. Em um país com milhões de desempregados, politicamente instável, chega a ser criminoso falar em “cadastro positivo”, que só favorece quem não precisa de crédito. O sistema financeiro brasileiro é burro, ele se sabota porque sobra dinheiro em seu caixa. Para se ter uma idéia, o lucro líquido do Itaú em 2016 foi de R$ 5,518 bilhões no segundo trimestre do ano, depois de atingir R$ 5,184 bilhões nos três primeiros meses de 2016: um aumento de 6,4%. No terceiro trimestre de 2017 o lucro líquido do banco foi R$ 6,254 bilhões. Os números se repetem nos demais bancos privados que atuam no Brasil. Ao mesmo tempo que o lucro aumentou, as linhas de crédito foram reduzidas. Isso se deve, claro, ao aumento nas taxas de serviços e nos juros cobrados dos correntistas.

Vai um conselho, se você tem dinheiro, invista fora do mercado financeiro, não deixe seu dinheiro em banco. Compre terrenos, bens de consumo de baixa desvalorização e tente comprar sempre à vista, não dê dinheiro a essa turma. Fuja de bancos, eles nunca perdem, e vão sempre dar um jeito de tomar algo de você. Até mesmo sua dignidade.

* Darlan é nome fictício, o jovem preferiu não revelar sua identidade para evitar ser negativado no sistema financeiro. E não é piada.

Alan Alex é editor de Painel Político

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