Tiro transfixou o braço e atingiu o coração de Nathália Zucatelli; GO pede desculpas

A estudante rondoniense Nathália Zucatelli, baleada em Goiânia durante tentativa de assalto na última segunda-feira, morreu por um único tiro no braço, que transfixou-lhe atingindo o coração. Imagens de um circuito interno mostram a ação dos bandidos que estavam em uma moto. No vídeo, que não foi liberado, Nathália sai pelo portão principal da instituição na Rua T-25 e segue sozinha em direção à Rua T-50, no Setor Marista. Na esquina, por causa da chuva da tarde de segunda-feira, havia uma poça de água muito grande. Ela vai até o meio da calçada e começa a atravessar a rua com um celular na mão.

Neste momento, duas pessoas usando capacetes em uma motocicleta preta abordam a jovem, que é obrigada a entregar o celular. Na imagem, o carona aponta a arma para a jovem como se exigisse a mochila presa ao corpo.

Nathalia segura a mochila e joga o corpo levemente para trás, momento em que é baleada no braço esquerdo e os dois assaltantes fogem em direção à Avenida Portugal. A jovem corre menos de cinco metros e cai morta ainda no asfalto.

[su_frame align=”right”] [/su_frame]As imagens foram recolhidas pela Polícia Civil para que sejam analisadas e esta é a principal prova contra os atiradores.

Nas imagens não é possível determinar quem são os assaltantes. As imagens são escuras e ainda serão analisadas pelo Instituto de Criminalística da Superintendência de Polícia Técnico Científica.

De acordo com o diretor do colégio, professor Marcos Antônio Sousa Araújo, Nathalia ficou até quase 22 horas na biblioteca estudando sozinha e saiu da unidade quando não tinha mais quase ninguém. Ela não usava uniforme e foi rendida na esquina do colégio. “Foi lamentável, triste demais, ainda mais porque ela estava estudando para ter um futuro melhor.”

Ele contou que a Polícia Civil recolheu as imagens e o HD onde elas foram gravadas, pedindo ainda que nenhuma informação seja repassada à imprensa para não prejudicar as investigações.

Desde a hora do crime, 21h45 de segunda-feira, que as polícias Civil e Militar trabalham no sentido de identificar e prender o casal na motocicleta. Foi através do testemunho de uma mulher que se obteve a informação de que a garupa da motocicleta era uma mulher, autora do disparo que matou Nathalia.

O único tiro entrou no braço esquerdo da estudante e transfixou-lhe o coração. Uma equipe do Corpo de Bombeiros ainda tentou reanimar a vítima, mas a estudante não resistiu. Na mochila dela, apenas um fichário e outro celular, de valor maior.

O latrocínio é investigado pelo delegado Klayter Camilo, da Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic). No início da manhã de ontem a assessoria de imprensa da Polícia Civil divulgou nota dizendo que “as providências iniciais referentes à investigação já estavam sendo tomadas”.

Segundo a nota, “os investigadores entendem que neste momento não é prudente a divulgação de outros detalhes acerca do fato”. Na delegacia ninguém falou sobre o crime ou sobre a investigação. A testemunha do latrocínio ainda não havia sido ouvida ontem pela Polícia Civil.

Ela contou extraoficialmente à polícia e à direção do colégio que no momento do assalto ficou confusa com o estampido do tiro, ocorrido no mesmo momento em que um caminhão de lixo passava pelo local fazendo barulho. Ela afirmou não ter dúvida de que quem estava como garupa na motocicleta preta era uma mulher e que foi essa mulher a autora do assalto, que estava armada e que atirou e matou Nathalia.

Polícia Militar

O tenente-coronel Ricardo Mendes, assessor de comunicação social da Polícia Militar, disse ontem que todo trabalho preventivo para evitar crimes naquela região tem sido desenvolvido pela corporação.

A equipe do sargento Padilha e do sargento Carvalho, do Batalhão Escolar da PM, esteve no Colégio Protágoras, às 18h30 de segunda-feira, fazendo uma visita comunitária, orientando direção, funcionários e alunos sobre segurança.

“Estamos trabalhando no policiamento preventivo. Temos feito um trabalho eficiente, tem um batalhão específico para essa demanda, que é o Batalhão Escolar. A gente tem feito muito, mas não pode tudo.”

Em artigo, jornalista pede “desculpas” à Nathália

Um artigo do jornalista Rodrigo Alves, publicado no jornal O Popular, ele pede desculpas à Nathália por “te criar tantas expectativas, por acreditar que poderíamos te ajudar a conquistar o que tanto buscava. Não conseguimos te acolher da forma que estamos acostumados e te proteger como merecia”. Leia abaixo:

Desculpe-nos, Nathalia

Nathalia Araújo Zucatelli tinha 19 anos e foi morta em tentativa de assalto
Nathalia Araújo Zucatelli tinha 19 anos e foi morta em tentativa de assalto

Era para ser mais um dia de intensa dedicação aos estudos. Nathalia Araújo Zucatelli, 18 anos, caminhava obstinada por um sonho: tornar-se médica. É possível que ao percorrer a Rua T-25, no [su_frame align=”right”] [/su_frame]Setor Marista, pouco antes das 22 horas e após longo tempo de estudo, pensasse na tão sonhada vaga. É possível ainda que andasse com a mesma determinação que a fizera escolher Goiânia pela reputação de altos índices de aprovação. Mas a mesma cidade que deveria ter acolhido seu sonho, o levou ao fim.

Foram-se planos, foram-se desejos de uma vida melhor, foram-se expectativas de uma família. E o tiro que alcançou Nathalia pelo braço esquerdo e foi direto ao coração não atingiu somente uma vida inocente, carregada de futuro, recheada de vontade de florescer mais. Atingiu também o orgulho de um povo hospitaleiro, que enche a boca para dizer “pode vir, aqui a gente cuida de você”. Desculpe-nos, Nathalia. Falhamos desta vez. Muito.

Talvez pudéssemos explicar a Nathalia que fatalidades acontecem, mas nada justificaria a frequência e quase previsibilidade com que têm ocorrido. Precisaríamos ser sinceros e lhe dizer que não foi a primeira e única vez. Que, infelizmente, seu destino se uniu ao de tantas outras vidas, iniciadas aqui ou fora daqui mas para cá vieram apostar. Todas também cheias de sonhos interrompidos. Ou até a daquelas que muito provavelmente tenham desistido de sonhos e por isso se tornaram estatística, principalmente na periferia.

Se não quiséssemos ser honestos, poderíamos lhe ocultar outros 476 sonhos calados por latrocínio nos últimos anos. Como os do técnico em enfermagem Delerizon Oliveiro, 34 anos, que morreu na frente do filho João Enzo, de 6, alvejado em assalto no Parque Trindade, em Aparecida de Goiânia. Ou os da estudante Wanessa dos Santos, 19, que se foi assim como ela, durante assalto também após o cursinho, no Centro da capital. Ou até os de Oscar Charife Abrão, um policial que teria mais condições de defesa e mesmo assim também foi vítima.

Foram somente três semanas vivendo o início de um sonho. De objetivo vivido com uma independência surpreendente para a idade. Vindo de uma garota que sabia o que queria, pesquisou, articulou e até negociou um aluguel para fazer o que tanta gente neste País deseja, mas às vezes não consegue: estudar por um futuro melhor.

Não deu tempo de lhe explicar e quem sabe lhe diminuir a inocência de que a bela Goiânia já não pode lhe garantir despreocupação. Que o medo espreita cada vez mais em cada sinal fechado, cada passo à próxima esquina e até cada abertura do portão de casa para sair. Não deu tempo de lhe mostrar que a vida nova que ela estava construindo e que tanto queria que a família conhecesse talvez não já fosse tão livre como um dia já foi.

Foi rápido demais. Nem ao menos foi possível criar intimidade para lhe chamar de Zuca, como as amigas mais chegadas do futebol do tempos de sua natal Ji-Paraná. Ou de lhe convidar para uma pamonhada, comer arroz com pequi, jogar bola no terreno ou na quadra e até brincar que seria difícil o páreo por uma vaga em Medicina. Por aqui, muitos jovens nascidos ou recém-chegados são tão obstinados em sonhos como o seu.

Foi-se a chance de mostrar à garota da longínqua Ji-Parana que Goiânia também poderia lhe oferecer tantas outras chances. Talvez até para a Educação Física, outro curso sobre o qual pensou. Como a família de Nathalia, também nós, goianos de nascimento ou por escolha, entramos em luto. E sentimos por já não conseguir garantir hospitalidade e segurança mínima para que sonhos tenham caminhos desimpedidos. Desculpe-nos, Nathalia. Não conseguimos garantir a continuidade de seus pensamentos na última caminhada na noite de segunda-feira. Nisto continuamos falhando. Muito.

Rodrigo Alves – O Popular

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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