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Um ano após operação Crátons, Roosevelt continua sem garimpo ilegal

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Restou  um rasgo de 100 hectares, com cavas que chegam a 15 metros de profundidade e até 50 metros de largura

Desde a descoberta de diamantes em grande quantidade nas terras da etnia Cinta-Larga (TI Parque do Aripuanã) em momento algum a comunidade indígena afetada deixou de conviver com o funcionamento do garimpo no “Laje” ou “Roosevelt” (como é conhecido o local de extração de diamantes.

Desde aproximadamente 1999 (apesar da perícia da PF ter identificado movimentos de extração vegetal já em 1990) com um pico de atividades em 2004, a extração desenfreada nunca foi totalmente paralisada, apesar dos esforços da PF, único órgão a construir bases para o combate à essa ilegalidade na região e nos limites das terras indígenas.
Com o engenho e conhecimento de fronteira do hoje aposentado delegado de polícia federal Mauro Espósito é que essas bases foram assentadas (são elas: a Jaguatirica, a Diamante, a Bradesco e a Suassuarana, além da base Roosevelt na Zona urbana de Pimenta Bueno) e contribuíram para ser fonte segura nas tentativas de controle. Aliás, elas foram e continuam sendo parte da solução dos problemas e foi a partir delas que se construiu o conhecimento necessário para se chegar nos dias de hoje.
De lá para cá as muitas apreensões de pedras preciosas, prisões e cercos, apesar de não deixar o garimpo em completo abandono por parte do Estado, pouco pode fazer ante a cobiça e o lucro que a riqueza do solo indígena oferece. A extração manteve-se sempre operante, com máquinas pesadas e especializadas, sendo que ultimamente quase toda a comunidade Cinta-Larga tinha alguma ligação com o garimpo. Para trabalhar cada branco tinha de ter “seu” índio e cada índio interessado tinha “seu” branco no Lage.
A farra vem cobrando o seu preço, em especial dos próprios Cinta-Largas que tem em suas terras um rasgo de 100 hectares, com cavas que chegam a 15 metros de profundidade e até 50 metros de largura (fotos), além de ter enfrentado em passado muito recente todos os males que a presença de brancos em terras indígenas causam por si só e que é maximizado pelo garimpo que trás consigo armas, violência, bebidas, drogas e prostituição.
Reserva Roosevelt (Foto: Superintendência da PF)
Reserva Roosevelt (Foto: Superintendência da PF)
Tendo sofrido um massacre (o do Paralelo Onze, que acabou por ajudar na criação da Funai) e infligido um (em 2004 contra garimpeiros, cujo processo crime está em andamento com denúncia apresentada pelo MPF na Justiça Federal de Vilhena) o combate a extração sempre foi obstacularizado, em especial, pela presença indígena no garimpo: a PF nunca quis conflito com os donos da terra e vítimas últimas de toda ilegalidade.
Não é a única razão, mas o índio no garimpo e a correspondente proteção que lhes dava a liderança era de fato preponderante para impedir a ação incisiva da PF contra os garimpeiros. A polícia, portanto, apenas cercava o território — que é enorme — e tentava abafar a extração com meios que tem.
Tal procedimento, até então o único possível, contribuiu. Contudo foi depois da operação Crátons (em 2015, conduzida por uma equipe de novos policiais em Rondônia) que se abriu de vez as portas para o controle de garimpo Roosevelt.

Operação Crátons

Entrada surpresa e prisões ao raiar do dia (Foto: superintendência da Polícia Federal)
Entrada surpresa e prisões ao raiar do dia (Foto: superintendência da Polícia Federal)

Em trabalho conjunto, o MPF em Vilhena e a PF conseguiram formatar e fechar seis acordos de delação premiada com as lideranças presas pela operação Crátons. Com a presença de procuradores federais , advogados e dentro do prédio da Funai na cidade de Cacoal/RO, os índios confessaram sua ligação com o garimpo, contando detalhes sobre o funcionamento mais íntimo do negócio e, o que é mais importante, prometeram livre acesso à PF ao interior de suas terras, respeitada a autoridade dos caciques e sua forma de viver

Toda comunidade, capitaneada pelos líderes, concordou com essa decisão e, em comunhão, passou a atender a PF em seu seio.
Com isso, as entradas no coração do garimpo começaram a ser frequentes. O Caop, setor aéreo da PF, cedeu helicóptero e a PF em Rondônia mais uma vez forneceu destemidos policiais que se infiltraram na mata muitas vezes em pequeno número em busca de garimpeiros que mesmo após a prisão de várias pessoas por ocasião da Crátons insistiam em permanecer no Roosevelt.
O Ibama também fez de uma dessas incursões e em todas elas, desde então, máquinas de grande porte vem sendo inutilizadas (foto). Tudo baseado em representações policiais e consequentes mandados judiciais emanados pela Justiça Federal em Vilhena em continuidade da operação Crátons.
A continuar como está a combinação de fatores e vontades entres as partes envolvidas, o controle permanente do garimpo é factível e seus benefícios já começaram a se alastrar entre a comunidade indígena que se vê livre de invasores e ameaças de todo tipo.
Foi depois de decorrido tudo isso que se chegou ao presente momento.

Em sua incursão (junho/2016) a PF efetuou a prisão dos últimos brancos no Lage. Atravessando a madrugada em diligência no profundo interior da selva amazônica em semi-estradas a PF, sem qualquer obstáculo por parte da etnia Cinta-Larga, invadiu o último acampamento garimpeiro para debandar de vez a presença não-indígena no Roosevelt.

Desse dia em diante, e até aqui, as lideranças todas são unânimes em dizer que não há mais garimpeiros na TI Parque do Aripuanã, sendo que os presos em flagrante continuam na cadeira já que a Justiça Federal os considera o que realmente são: fomentadores perniciosos da tentativa de desnutrição sócio-cultural de toda uma etnia indígena.

E diz-se tentativa porque os Cinta-Larga são guerreiros indomáveis, cuja tradição não os deixa vergar. A PF espera que assim continuem os Cinta-Larga e a TI Parque do Aripuanã, uma posse exclusiva dos seus habitantes tradicionais.
DPF
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