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Um menino de 9 anos e uma mulher morta receberam dinheiro de pesquisa da UFPR

Processo da Operação Research, da Universidade Federal do Paraná, revela a eficácia de uma fraude tosca. Operação da PF desfez uma quadrilha que desviou mais de R$ 7 milhões da instituição

Uma empregada doméstica, uma depiladora, um atendente de limpeza, uma salgadeira, uma cabeleireira, um vendedor autônomo, um taxista e um motorista desempregado estiveram na lista de beneficiários de bolsas para pesquisa e de auxílio à pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) pelos últimos quatro anos. Ao todo, 27 pessoas sem nenhuma relação com a universidade receberam R$ 7,3 milhões ao longo desse período. O processo, a que ÉPOCA teve acesso, mostra que o dinheiro saía da universidade e seguia para contas de laranjas. Entre os titulares das contas estavam um garoto de 9 anos de idade e uma mulher de 81 falecida em 2014. O processo também revela que os falsos pesquisadores conseguiram se tornar beneficiários sem apresentar qualquer tipo de documentação que comprovasse vínculo com a universidade. Nenhum deles tem currículo Lattes e a maioria deles não tem sequer curso superior. 

O esquema foi desmantelado pela Operação Research, conduzida pela Polícia Federal, depois de uma auditoria feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU) no Paraná. A mando do juiz Marcos Josegrei,o mesmo juiz da Operação Carne Fraca, a Polícia Fderal expediu 19 mandados de condução coercitiva e um de busca e apreensão no dia 31 de março. Desde o fim de fevereiro, a operação já teve três fases, nas quais sete pessoas foram presas e outras 27 estão sob investigação e seus bens bloqueados. Os envolvidos são familiares ou amigos das três servidoras identificadas como líderes do esquema.

A Operação Research foi deflagrada em 15 de fevereiro. Naquele momento, a Polícia Federal prendeu duas servidoras da UFPR  e uma ex-servidora identificadas como as idealizadoras do esquema de fraude. Conceição Abadia, com 38 anos de trabalho na universidade, Tânia Catapan, com 40 anos na mesma instituição, e Maria Áurea Roland, aposentada de 80 anos que também trabalhara na pró-reitoria, se valeram da confiança conquistada ao longo das décadas de serviço para incluir laranjas no esquema oficial de pagamentos de auxílio a pesquisa e de bolsas da universidade. As duas primeiras servidoras estão presas desde então sob acusação de crime de associação criminosa, peculato (desvio de dinheiro), peculato culposo e lavagem de dinheiro nos pagamentos feitos a título de auxílio a pesquisadores, bolsas de estudo no país e no exterior a diversas pessoas sem vínculo com a universidade. A terceira, Maria Áurea Roland, está em prisão domiciliar por conta de sua idade.

Ao examinar o processo, chama a atenção como um esquema tão amador e grosseiro foi capaz de sustentar uma fraude ao longo de quatro anos. O amadorismo e a falta de cuidado são evidenciados nos documentos usados para o pedido de verba. Ao contrário do que ocorria com as solicitações de auxílio oficiais, as requisições fraudulentas não descreviam o tipo de pesquisa a ser executava, o nome do orientador nem qualquer informação sobre a tese que motivara a pesquisa de campo.

A diferença gritante entre uma requisição verdadeira e a fraudada chama ainda mais atenção ao verificar que todas elas receberam a assinatura do vice reitor (e de seu substituto) antes de serem processadas como pagamentos.  “Foi um golpe grotesco. Qualquer olhar um pouco mais atento poderia ter levantado dúvidas sobre a legitimidade dos documentos”, diz Felipe Hayashi, delegado da Polícia Federal e coordenador da Operação Research. Tanto o vice reitor quanto sua substituta estão sob investigação desde o início da operação.

Informações preliminares do processo, no entanto, atestam que não houve por parte deles intenção de dolo e que eles não tiveram qualquer tipo de benefício pessoal com as fraudes.  Em processo administrativo, o TCU agora tenta avaliar – e provar – se os recursos de controle contra  fraude foram intencionalmente ignorados por displicência. Se o TCU chegar a essa conclusão, tanto o vice-reitor quanto a sua substituta podem ser multados no valor integral da fraude – no caso, de R$ 7,3 milhões. A reitoria da universidade defende os professores. “É importante ressaltar que o volume de processos para pagamento de auxílio na universidade é altíssimo. Um ou outro documento falso em meio a dezenas de papéis poderia passar sem chamar a atenção, como ocorreu”, diz Ricardo Marcelo Fonseca, reitor da UFPR. “Nosso trabalho agora foca em criar mecanismos para que esse tipo de engano não ocorra mais”, diz ele.

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Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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