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Uso da tecnologia prejudica leitura de emoção alheia, diz presidente de Yale

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Presidente da Universidade Yale, terceira melhor universidade americana segundo o ranking da revista “US News”, o psicólogo Peter Salovey, 56, diz que anda preocupado com a perda da “habilidade de interagir” das gerações mais jovens “sempre de olho em alguma tela” e já deu aulas em que obrigou a todos “deixar os celulares de fora”.

Especialista em inteligência emocional, ele visita nesta semana Rio de Janeiro e São Paulo para assinar parcerias com USP e Fiocruz e participar de um encontro internacional de reitores.

Para Salovey, as universidades chinesas serão concorrência “em breve” das americanas. “Eles estão fazendo hoje o mesmo que os EUA no século 19 e investindo pesadamente para criar uma rede de grandes universidades.”

Ele conta que, em seu primeiro ano no cargo, foram anunciadas doações de US$ 500 milhões à universidade por ex-alunos. “A receita é nunca perder o contato, mantê-los por perto sempre”.

Membro de um grupo musical, Professors of Bluegrass, no qual toca banjo e baixo, ele falou com a Folha por telefone de seu escritório em New Haven (Connecticut).

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 O sr. é um dos pioneiros no estudo da inteligência emocional. Como a onipresença de smartphones e tablets altera o ambiente em sala de aula? Tornou-se mais difícil engajar os alunos?

Peter Salovey – Me preocupo com a falta de habilidade de muitos jovens em identificar emoções no rosto de outras pessoas. Se você passa o tempo olhando para uma tela, mesmo quando cercado por outras pessoas, você não pratica essa habilidade.

Há estudantes mais desconfortáveis em sala de aula, especialmente na hora de discordar ou debater com outros, ou na hora de fazer entrevistas para conseguir bolsas ou estágios.

Dei um seminário e fizemos com que os alunos não tivessem nenhuma tecnologia por perto. Em um semestre, as interações e o papo na sala de aula melhoraram.

No Brasil, as melhores universidades são públicas e gratuitas e boa parte dos seus alunos vem de escolas privadas. Mas não temos tradição de filantropia e muitas instituições não estão preparadas para receber doações. Como Yale incentiva a participação de ex-alunos?

Só no último ano, tivemos anúncios de US$ 500 milhões em doações de ex-alunos para Yale. Fazemos com que os alunos entendam nosso modelo financeiro [o orçamento anual é de US$ 3,2 bilhões, um terço do qual é pago por um fundo de US$ 20 bilhões, em parte formado por doações, que mantêm a universidade].

Você tem de fazer o aluno se sentir perto da universidade, não interessa se ele se transformará em doador ou não. Desde o momento que pega o diploma, em comitês, reuniões anuais, jantares e, hoje em dia, com aulas, seminários e palestras on-line.

A China conseguiu emplacar quatro universidades entre as 60 melhores do mundo, no ranking da Times Higher Education. O que ela fez de certo?

Estou impressionado com o salto e a modernização. O motivo da China ter colocado tantas universidades no ranking das melhores do mundo se chama financiamento.

Houve a decisão política de se pôr muito dinheiro, de importar know-how e de investir muito em pesquisa. Quando há financiamento a pesquisa, você atrai pesquisadores e os melhores professores.

Eles estão fazendo o que os EUA fizeram durante o governo Lincoln, no século 19, quando houve um investimento pesado em universidades públicas e durante a 2ª Guerra Mundial e os primeiros anos do pós-guerra.

Infelizmente hoje, essas universidades públicas têm um financiamento dos Estados em seu menor nível. A China será em breve concorrência nossa.

Ao contrário das melhores chinesas, as universidades brasileiras não têm aulas em inglês, o que é uma barreira para mais professores e estudantes internacionais. Isso precisaria mudar?

Não sou tão imperialista para recomendar que as universidades brasileiras também deem aulas em inglês, nenhuma língua é melhor que outra. Mas é verdade que, em áreas como engenharia e computação, o inglês virou uma espécie de língua franca e certamente há vantagens de se usar o idioma para aumentar os intercâmbios.

O Brasil ainda manda muitos estudantes do programa Ciências Sem Fronteiras para Portugal e Espanha porque o inglês é considerado uma barreira. Como as universidades americanas poderiam ajudar nesse desafio?

Temos 15 alunos brasileiros na graduação, de 30 a 40 na pós-graduação e 50 fazendo doutorado. Adoraríamos ter muito mais brasileiros.

Temos um centro intensivo de inglês no verão, sabemos que o idioma pode ser uma barreira. Não temos um escritório no Brasil, mas estamos conseguindo fazer nosso trabalho à distância.

Não sou contra ter um imóvel no Brasil, não, mas o único centro grande que temos no exterior fica na China, uma Escola de Liderança da nossa Faculdade de Administração. Ela nasceu pela doação de um ex-aluno chinês.

O laboratório de engenharia de Yale tem uma política de atrair estudantes de outras áreas, especialmente de humanas. É muito difícil promover a multidisciplinaridade entre as faculdades?

Um dos objetivos da minha presidência é ter um ensino mais unificado, sem divisões. Ter estudantes de arte e engenharia juntos vai fazê-los pensar e fazer coisas que não fariam separados.

Nosso centro de preservação de patrimônio cultural junta historiadores com alunos de química, que estudam pedras, pigmentos, tapeçaria e telas, com os estudantes de computação, que estudam como a digitalização de imagens pode facilitar o estudo de artefatos antigos.

Em nosso laboratório de redes sociais, temos matemáticos, estudantes de engenharia elétrica e de medicina, junto com sociólogos. Há muitos muros sendo derrubados.

A relação custo-benefício de se obter um diploma nos EUA tem sido muito discutida, em tempos de desemprego alto e de sucesso de empreendedores que não se formaram. Como mudar essa percepção?

A recessão americana, a partir de 2008, colocou um foco muito grande no retorno financeiro, se vale a pena ou não ter um diploma universitário, esquecendo-se da motivação no aprendizado e no desenvolvimento cultural que o ambiente da universidade proporciona.

É verdade que pessoas que trancaram seus estudos fundaram a Apple, o Facebook e a Microsoft, mas esses indivíduos de muito sucesso são exceções. É a diferença entre gostar de esportes e conseguir brilhar profissionalmente no meio. Mesmo quem cria uma empresa sem diploma precisa aprender a montar equipes, a se comunicar, a pensar criticamente.

Seu antecessor em Yale está no negócio do ensino on-line e várias grandes universidades se apressam para fazer cursos inteiros na internet. Algum dia ela substituirá o modo de ensino presencial?

As ferramentas digitais são boas em sala de aula e fora dela. Por muitos anos dei um curso de introdução à psicologia. Se voltasse a lecioná-lo, colocaria as aulas on-line como lição de casa e deixaria muito mais tempo livre com meus alunos em sala para debater, interagir, fazer exercícios. Acredito nesses híbridos.

Alguns cursos profissionais ou de pós até podem ser dados exclusivamente on-line. Mas para os nossos alunos de graduação (que têm entre 18 a 21 anos de idade, em média), que moram no campus, a educação é algo 24 horas, sete dias da semana.

Não dá para substituir essa experiência e este ambiente pelo computador.

Fonte: Folha de S.Paulo

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