Vaquinha para ajudar jovem torturado e tatuado não é golpe

A barbárie protagonizada por Maycon Wesley Carvalho dos Reis e Ronildo Moreira de Araújo, os dois homens que torturaram um jovem de 17 anos e tatuaram “eu sou ladrão e vacilão na testa dele, em São Bernardo do Campo (SP), é um prato cheio para quem se ocupa de inventar notícias falsas e disseminá-las na internet.

Circula no WhatsApp e em redes sociais a mentira de que a vaquinha criada para custear a remoção da tatuagem da pele do rapaz e auxílio psicológico a ele, uma iniciativa do coletivo Afroguerrilha na plataforma vakinha.com.br, é obra de um estelionatário que “desapareceu com o dinheiro” após arrecadar os 15.000 reais estipulados como meta.

Leia abaixo o texto infame – e o desminta se recebê-lo:

Milhares de pessoas em todo Brasil caíram no golpe da vaquinha para remover o “Sou ladrão e vacilão”

Estelionatário se passa por amigo de vítima torturada por dois homens em São Bernardo do Campo. E cria uma “Vaquinha Online” com intuído [sic.] de arrecadar dinheiro para remover a tatuagem do jovem, mas tudo não passava de um golpe, quando o criminoso conseguiu a quantia de 15 mil reais, removeu a publicação e desapareceu com o dinheiro.

A família da vítima informou a reportagem da CNN TV que jamais autorizou alguém produzir “vaquinhas” ou arrecadação de dinheiro para remoção da tatuagem, tendo em vista que um grupo de empresários que não querem se já se identificar se prontificaram em arcar com todas as despesas.

Em primeiríssimo lugar, não procede, absolutamente, a informação de que os responsáveis pela vaquinha removeram a publicação. Ela está disponível neste link (veja imagem abaixo), onde se pode notar que a arrecadação começou no último sábado, dia 10 de junho, e vai até o dia 30 de junho. A iniciativa bateu ontem a meta de 15.000 reais e conseguiu, até agora, 19.882,96 reais. Ainda há 58.115,19 reais em boletos pendentes, ou seja, cujos pagamentos ainda não foram efetuados pelos doadores.

Vaquinha para custear a remoção da tatuagem

Também não há, na rede de TV americana CNN ou em qualquer outro veículo de imprensa confiável, nem sombra de registro de reportagem em que familiares da vítima da tortura desautorizam a vaquinha e anunciam um grupo anônimo de empresários como responsável pelas despesas com a remoção da tatuagem.

“Conheço esse garoto desde que ele era pequeno e sua família vive uma situação de pobreza e falta de condições”, escreveu Robin Batista, editor do site do coletivo Afroguerrilha, responsável pela vaquinha, em sua conta no Facebook.

Por meio de sua conta na rede social, o coletivo também desmentiu o boato de que desviou o dinheiro. Um print screen da área de gerenciamento do saldo da iniciativa no vakinha.com mostra que simplesmente não há valor disponível para saque até momento (veja abaixo).

“A plataforma Vakinha.com.br só libera o valor arrecadado para saque 14 dias após a confirmação do pagamento. Então é impossível sequer sacarmos esse valor agora. Lembrando que o editor deste coletivo é vizinho da avó do garoto e a arrecadação só foi iniciada com autorização dela”, explica o Afroguerrilha, que diz ter negado receber doações em sua conta bancária.

“No entanto, como a família precisa de ajuda urgente e o valor só fica disponível em 14 dias, estamos verificando com o advogado sobre a possibilidade de informarmos aos interessados por e-mail a conta bancária da avó do garoto para doações imediatas”, afirma.

Vaquinha para custear a remoção da tatuagem

Entenda o caso

Na última sexta-feira, um vídeo tornou-se um viral: dois homens provocam um garoto e perguntam que tatuagem ele quer fazer. O menino responde “ladrão”, sem oferecer muita resistência. A foto que acompanha a filmagem revela a frase “eu sou ladrão e vacilão” escrita na testa do jovem de 17 anos. O castigo foi dado porque o rapaz teria tentado roubar uma bicicleta.

O caso aconteceu em São Bernardo do Campo e levou à prisão o tatuador Ronildo Moreira de Araújo, de 29 anos, e seu vizinho Maycon Wesley Carvalho dos Reis, de 27. Araújo e Reis foram presos em flagrante na noite da sexta-feira e encaminhados ao 3º Distrito Policial de São Bernardo do Campo. Ambos foram transferidos nesta segunda-feira ao Centro de Detenção Provisória (CDP) da cidade do ABC paulista.

A prisão aconteceu porque os familiares do menor de idade receberam o vídeo e denunciaram a ação para a polícia. Dependente químico, o jovem estava desaparecido desde o dia 31 de maio quando foi atacado pelos dois homens. Ele foi localizado pela família no fim da tarde de sábado.

Segundo Ariel de Castro Alves, coordenador da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos da Pessoa Humana, o rapaz alega que estava sob efeito de álcool e drogas quando entrou em uma pensão e mexeu em uma bicicleta, sem a intenção de roubar. Depois, os tatuadores teriam amarrado o jovem pelos pés e mãos e começado a tatuá-lo, mesmo após os pedidos de clemência do adolescente. Quando a marca foi concluída, os acusados teriam levado o garoto à rua e exibido a tatuagem para quem passava por perto.

Com Veja

Alan Alex é jornalista, editor do site e da coluna Painel Político. Natural de Porto Velho foi criador e editor do site Portal364, trabalhou na redação dos jornais Diário da Amazônia, Folha de Rondônia, revista Painel Político, foi assessor de imprensa, é roteirista, editor de conteúdo e relações públicas. Também atuou como repórter de TV e rádio. É filiado à ABRAJI.

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