Presidente do PT diz duvidar que STF impeça prisão de Lula a tempo

A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), afirmou neste sábado (24/2) não acreditar que o Supremo Tribunal Federal (STF) julgue o habeas corpus preventivo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a tempo de evitar uma prisão do petista. Em seminário realizado em Brasília e transmitido pelas redes sociais, a senadora criticou a “demora” do STF em pautar o pedido de Lula, que está na corte.

A defesa do petista tenta no STF evitar uma prisão antes do processo transitar em julgado, ou seja, chegar ao Supremo. O pedido já foi negado pelo ministro Luiz Edson Fachin, que enviou o caso ao plenário. A decisão de pautar o assunto cabe à presidente da corte, Cármen Lúcia.

“A gente não consegue que o Supremo Tribunal Federal se manifeste sobre o habeas corpus que está lá, que pelo menos paute isso e se manifeste contra ou a favor”, comentou a presidente do PT. “Eu acho que a tendência é eles deixarem o TRF-4 julgarem os embargos e aí confirmar a sentença”, completou

No Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), os advogados do petista entraram com embargos de declaração para questionar o julgamento que confirmou sua condenação e aumentou a pena para 12 anos e um mês de prisão, em janeiro. Se a apelação for negada, a prisão poderia ser decretada na sequência, antes de recursos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao STF.

Para Gleisi Hoffmann, não basta à Lava Jato impedir que Lula dispute a eleição presidencial, condenando o petista em segunda instância, mas “tem que prender para humilhar”.

Admitindo a possibilidade de o ex-presidente ficar de fora da eleição, a senadora afirmou que a defesa do PT vai além de uma candidatura. “Nós queremos o Lula candidato, o PT quer, acredita nisso e vai lutar por isso, mas a candidatura do Lula, o direito de ser candidato, representa toda essa luta que estamos fazendo, essa resistência consubstancia isso, porque se não nós vamos ter uma eleição manietada”.

Fonte: metropoles

Maurão de Carvalho se reúne com dirigentes do Sintero para intermediar negociações com o Governo

No final da tarde do último sábado (24), o presidente da Assembleia Legislativa, Maurão de Carvalho (MDB), voltou a se reunir com dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Rondônia (Sintero), em Porto Velho, com o propósito de acolher as reivindicações da categoria, em greve desde a última quarta-feira (21), e buscar a intermediação junto ao Governo de uma negociação.

“É importante destacar que estamos aqui para ouvir, para nos inteirar sobre as necessidades da categoria e, posteriormente, discutirmos com o Governo. Sabemos que nem tudo pode ser atendido, mas é fundamental que haja o diálogo e que a situação possa ser resolvida, sem afetar o orçamento estadual e sem deixar de atender pelo menos parte das demandas da educação”, explicou Maurão.

Nas discussões, com a presença da presidente do Sintero, Lionilda Simão, diretores sindicais e representantes das 11 regionais do sindicato, a implantação do Plano Estadual de Educação (PEE), aprovado em 2015 pela Assembleia Legislativa mas não efetivado na prática pelo Governo, de acordo com o Sintero, foi tratada como prioridade.

“Do ponto de vista orçamentário, ou seja, com mais recursos para a educação, o Plano prevê um acréscimo de 1% a cada ano na fatia orçamentária da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), isto não foi feito. Há ainda outras ações que valorizariam e beneficiariam a categoria, contidas no PEE, mas que não foram implementadas”, disse Lionilda.

Como na reunião anterior, a questão da demora na finalização dos processos de aposentadorias, foi amplamente discutida. “São mais de mil processos represados e não vemos nenhuma ação para que esses servidores sejam aposentados. Há uma necessidade de se fazer uma política de correções e de atrativos também para que outros servidores se aposentem, sem perdas em seus vencimentos”, explicou o secretário de Finanças do Sintero, Manoel Rodrigues.

Para o pessoal técnico educacional, por exemplo, o sindicato defende que seja assegurado o pagamento de 60% do vencimento básico sobre o piso do magistério, que é hoje de R$ 2.455,52. O que daria um básico de R$ 1.455,52 para os técnicos, que hoje recebem R$ 1.095,99 com mais de 20 anos de serviços prestados, como vencimento básico.

“Por outro lado, quase 40% dos cerca de sete mil técnicos em educação hoje estão em fase de aposentadoria, mas teriam perdas salariais com a inatividade, afetando a renda da família”, completou Antônio Ferreira, que é técnico e da direção do sindicato.

A celeridade na transposição dos servidores aos quadros da União foi outro ponto cobrado pelos sindicalistas. Segundo eles, são mais de 4 mil processos publicados, aguardando a efetivação da transposição. “Quanto mais servidores transpostos, menos despesa para o Estado e com isso se reduz o índice de gasto com pessoal e dá uma folga em caixa, permitindo que o Governo possa fazer uma valorização dos servidores”, argumentou Lionilda. Uma reunião na próxima terça-feira (27), na Casa Civil do Governo, com a Mesa de Negociações Permanente (Menp), vai reunir mais uma vez o sindicato com representantes governamentais. Maurão de Carvalho confirmou sua presença no encontro.

 

* Divulgação de Atividade Parlamentar

Cantor gospel é preso durante evento religioso em igreja de Campinas

Um cantor gospel foi preso durante um evento religioso em uma igreja, no bairro Vila Pompéia, em Campinas, na noite deste sábado (25). De acordo com o 47º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPMI), foi cumprido um mandado de prisão por tráfico de drogas contra Alex Eduardo Felix, de apelido Coruja, com pena prevista de cinco anos em regime fechado.

A prisão ocorreu na Igreja Pentecostal Missionária Livre, às 18h10. De acordo com a denúncia recebida pela corporação, Coruja se apresentaria no evento e era procurado pela Justiça. No local, os policiais constataram o mandado em aberto e que Felix tinha antecedentes por tráfico e roubo.

Ele foi conduzido à 2ª Delegacia Seccional da cidade e ficou preso, à disposição da Justiça, ainda conforme a Polícia Militar. O G1 não conseguiu contato com advogado ou familiar do suspeito até a publicação desta notícia. As ligações para um telefone fixo da igreja disponibilizado no Facebook não foram atendidas até atualização desta notícia, às 15h19.

Fonte: g1

Funcionário surta e quebra tudo em terminal do aeroporto Galeão, no RJ

Um funcionário de uma empresa que presta serviços para o Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim/Galeão, no Rio de Janeiro, teve um “dia de fúria” e quebrou tudo em um setor do terminal aéreo na noite da última sexta-feira (23/2). Segundo a assessoria do aeroporto, ninguém ficou ferido. As informações são do jornal Extra.

Vídeos gravados após o incidente que circulam nas redes sociais mostram o estrago do ataque. Nas imagens, é possível identificar mesas, bancos e lixeiras, além de outros objetos, quebrados e espalhados pelo chão do local.

De acordo com a publicação, a Polícia Federal foi acionada para conter o funcionário, que não teve a identidade divulgada. O aeroporto informou que o aparente motivo para a reação do funcionário foi um “surto psicótico”.

Fonte: metropoles

Ligações de telefones fixos para móveis ficam mais baratas

A partir deste domingo (25/2), as ligações locais e interurbanas de telefones fixos para móveis ficarão mais baratas. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a redução das chamadas locais vai variar de 10,58% a 12,75% e a das tarifas interurbanas, entre 3,98% e 7,41%.

A redução das tarifas vale para as ligações originadas nas redes das concessionárias de telefonia fixa – Oi, Telefônica, CTBC, Embratel e Sercomtel – destinadas às operadoras móveis. O preço médio das ligações locais de telefone fixo para móvel vai passar de R$ 0,18 para R$ 0,12, sem imposto.

Para as ligações interurbanas feitas de fixo para móvel com DDD iniciando com o mesmo dígito, por exemplo, DDDs 61 (Brasília) para 62 (Goiânia), o preço médio cairá de R$ 0,55 para R$ 0,39. Enquanto o preço médio das demais ligações interurbanas de fixo para celular vai ser reduzido de R$ 0,62 para R$ 0,45.

Desde 2014, a tarifa de interconexão vem caindo e novas diminuições devem acontecer até 2019. A lista com a moderação de cada concessionária está disponível no site da Anatel.

Fonte: metropoles

 

Em vídeo, Marinha Raupp rebate notícias falsas sobre pedágios

“Sou contra a cobrança de pedágio na BR 364. Acredito ser de responsabilidade do governo federal a manutenção e a recuperação da BR”. Assim a deputada federal Marinha Raupp (MDB) inicia um vídeo de pouco mais de 30 segundos, no qual ela rebate falsas informações que circularam de que ela seria favorável à cobrança de pedágios.

E por mais tentador que seja ter uma rodovia privatizada, os custos são altos e o governo precisa estabelecer regras claras no edital de concessão da rodovia. Em diversos pontos do país, consórcios que administram essas concessões, deixam a desejar na manutenção, mas não esquecem as cobranças.

Um exemplo prático disso acontece na BR 040, que liga Goiás ao Rio de Janeiro, passando pelo Distrito Federal e Minas Gerais. Em um dos trechos com maior trânsito de carretas, em Minas, a rodovia não foi duplicada, carece de manutenção e os motoristas se arriscam em ultrapassagens, mas os postos de pedágio funcionam à pleno vapor, cobrando R$ 5,30 por veículos leves e esse valor por eixo para carretas.

Para a deputada, o correto seria o governo federal usar o exército para fazer a duplicação e manutenção da rodovia e não fazer com que a população tenha que pagar a conta, de novo, para poder transitar com segurança. Veja a postagem de Marinha Raupp.

Intervenção federal no Rio gera onda de informações falsas nas redes sociais, veja as principais

São boatos como a de que quem estiver na rua depois das 22h sem um documento de identificação e a carteira de trabalho assinada “será levado sob custódia para um quartel (ainda a ser definido) na vila militar”, como diz um dos textos que viralizaram na internet.

Na terça-feira, o Senado aprovou o decreto presidencial que autoriza a intervenção no Rio de Janeiro. A ação será válida até dia 31 de dezembro deste ano e foi aprovada por 55 votos favoráveis e 13 contra, com uma abstenção. Era necessária a maioria simples dos senadores para que o texto fosse aprovado.

A intervenção já estava em vigor desde a semana passada, mas o governo precisava do aval do Congresso para que a medida continuasse valendo. Pelo texto, o general do Exército Walter Souza Braga Netto foi nomeado interventor. Ele ficará subordinado ao presidente e passará a exercer “o controle operacional de todos os órgãos estaduais de segurança pública”.

Sendo assim, durante o período em vigor do decreto, o comando da segurança pública deixa de ser competência do governo do Rio de Janeiro. Além disso, segundo o texto, o interventor “não está sujeito às normas estaduais que conflitarem com as medidas necessárias à execução da intervenção”. Mas detalhes sobre como essa intervenção vai ocorrer ainda não foram divulgados.

Abaixo, você confere as principais informação falsas que vêm circulando nas redes sociais e por que são boatos. Em nota enviada à BBC Brasil, o Exército afirmou que “não comenta informações inverídicas”.

Fake news sobre intervenção federal no RJ
Image captionImagem: Reprodução/WhatsApp

Informação falsa: Prisão para quem não portar documento de identificação com carteira de trabalho assinada após 22h do dia 18 de fevereiro

Por que é boato

– Não existe Ministério do Exército. O Exército é subordinado ao Ministério da Defesa, assim como a Marinha e a Aeronáutica.

– Os boletins internos do Exército não são intitulados SPOEX, mas SGEx.

– Não há dispositivo legal que obrigue o cidadão a portar documento de identificação. Além disso, a carteira de trabalho só é obrigatória a quem venha a prestar algum tipo de serviço profissional no Brasil. Sendo assim, nem toda a população a possui.

– Os detalhes da intervenção federal ainda não foram divulgados.

Fake news sobre intervenção federal no RJ
Imagem: Reprodução/Facebook

Informação falsa: Plano Estadual de Intervenção Militar é divulgado

Por que é boato

– Não existe Ministério do Exército. O Exército é subordinado ao Ministério da Defesa, junto com a Marinha e a Aeronáutica.

– Os detalhes da intervenção federal ainda não foram divulgados.

– O interventor federal é o general do Exército Walter Souza Braga Netto. Ivan Cosme de Oliveira Pinheiro é coronel da reserva do Exército, professor universitário e diretor de Comunicação Social do Clube Militar.

– Em sua página oficial na internet, a Revista Sociedade Militar desmente o conteúdo do texto: “Esse tipo de informação só se presta a espalhar pânico e fazer com que a sociedade veja com maus olhos a ação desencadeada no Rio de Janeiro. Um dos propagadores, pasmem, é um jornal de Brasília, que em tese deveria estar bem informado”.

Fake news sobre intervenção federal no RJ
Imagem: Reprodução/Facebook

Informação falsa: Colaboração da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a tropa de elite da PM de São Paulo) com a PM do Rio para revista de carros, caminhões e ônibus na rodovia Presidente Dutra, que liga os dois Estados

Por que é boato

– Os detalhes da intervenção federal ainda não foram divulgados.

– Não há registro de reunião envolvendo o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), sobre possível ajuda ao Rio de Janeiro.

– Houve, sim, uma reunião, mas entre os secretários de Segurança Pública de São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais com o objetivo de traçar estratégias conjuntas para prevenção de crimes nas divisas dos três Estados com o Rio de Janeiro.

Fake news sobre intervenção federal no RJ
Imagem: Reprodução/Facebook

Informação falsa: Lista dos militares que vão comandar os Batalhões da PM do Rio de Janeiro

Por que é boato

– Há 41 BPMs (Batalhões da Polícia Militar) no Rio de Janeiro, e não 27.

– O general Alfredo Barbosa foi comandante da 3ª Brigada de Cavalaria do Exército brasileiro entre 1909 e 1910.

– O general Rui Brito é um “Brigadeiro-General Piloto Aviador” da Força Aérea de Portugal.

Fake news sobre intervenção federal no RJ
Image captionImagem: Reprodução/Facebook

Informação falsa: Discurso do general Gramoza

Por que é boato

– O “general Gramoza” não existe.

– O texto é de autoria do general da Reserva Paulo Chagas, publicado em seu blog em janeiro de 2015. Chagas buscava a exclusão do nome do pai, Floriano Aguilar Chagas, do relatório da Comissão Nacional da Verdade. A família do militar havia ingressado na Justiça contra a comissão descrevendo as ações dele como adido do Exército na Embaixada do Brasil em Buenos Aires, nos anos da ditadura, como “meramente diplomáticas”.

Fake news sobre intervenção federal no RJ
Imagem: Reprodução/Facebook

Informação falsa: Vídeo mostra tanques na rodovia Presidente Dutra

Por que é boato

– O vídeo circula desde 2013 e não foi gravado na Via Dutra, mas sim na Fernão Dias, que liga São Paulo a Belo Horizonte.

– Os blindados foram enviados para a Escola de Sargento das Armas do Exército, em Três Corações, no sul de Minas Gerais, segundo disse na ocasião o tenente-coronel Marcus Vinicius Messeder, chefe da assessoria de comunicação da 4ª Região Militar, ao jornal mineiro O Tempo.

Fake news sobre intervenção federal no RJ
Imagem: Reprodução/Facebook

Informação falsa: Foto mostra militar revistando crianças no Rio de Janeiro

Por que é boato

– A foto já havia circulado em agosto do ano passado, quando o Rio de Janeiro registrou um recorde de 26,9 mil alunos sem aula por causa do temor da violência. A imagem, na verdade, é de 1994.

Luis Barrucho

Mulher usa sêmen do filho morto e barriga de aluguel para se tornar avó

Com a ajuda de uma mãe de aluguel de 35 anos, Rajashree Patil conseguiu usar o esperma armazenado de seu filho para gerar dois bebês gêmeos – seus novos netos, uma menina e um menino.

Ela conta que esse foi o jeito que encontrou de “se manter perto do filho de alguma forma”.

Depois de ter se formado em Engenharia na Sinhgad College of Engineering, na Índia, o filho de Rajashree se mudou para a Alemanha em 2010 para fazer o mestrado.

Em 2013, acabou diagnosticado com um tumor agressivo no cérebro e morreu em 2016. Mas o sêmen dele havia sido armazenado e, depois da morte do rapaz, foi usado em uma barriga de aluguel, dando a possibilidade de Rajashree ser avó.

“Agora eu tenho meu filho de volta”, disse Rajashree Patil à BBC.

Prathamesh filho de Rajashree Patil
Prathamesh foi diagnosticado com tumor no cérebro em 2013 e morreu três anos depois | Foto: Sagar Kasar

“Eu era muito ligada ao meu filho. Ele era um aluno brilhante e estava fazendo mestrado quando foi diagnosticado com um tumor que já estava num estágio avançado no cérebro”, conta a mãe.

Segundo ela, foram os médicos que pediram a Prathamesh que armazenasse o sêmen antes do início da quimioterapia e da radioterapia. Isso porque tratamentos como a radio e a quimioterapia podem provocar infertilidade.

Prathamesh não era casado e deixou a mãe e a irmã, Dnyanashree, como responsáveis pelo esperma, que foi guardado após a morte dele.

O sêmen preservado foi então usado para fertilizar um óvulo de uma doadora anônima. E o embrião foi implantado em uma parente próxima, por fertilização in vitro.

Twins Prathamesh e Preesha
Os netos de Rajashree: o menino recebeu o nome do filho dela, Prathamesh, enquanto a menina foi chamada Preesha, que significa presente de Deus | Foto: Sagar Kasar

Rajashree conta que se recusou a prolongar o luto e, em vez disso, usou o sêmen do filho para “revivê-lo” em um neto – no caso, vieram dois.

Os gêmeos nasceram em 12 fevereiro e Rajashree deu o nome do filho ao menino e escolheu Preesha (que significa presente de Deus) para a menina.

O médico Supriya Puranik, especialista em fertilização in vitro do hospital Sahyadri, onde foi feito o procedimento, disse que se tratou de uma ação de rotina, mas este caso era único, por se tratar de “uma mãe entristecida que queria recuperar seu filho a qualquer custo”.

“Ela foi extremamente positiva durante toda a gravidez”, disse Puranik.

BBC/Mundo

Quando a perda do emprego – ou um propósito novo – faz o profissional se reinventar

Ainda que essa reinvenção muitas vezes ocorra com a abertura de um negócio próprio, muitos brasileiros encontram, em empregos convencionais, formas de mudar completamente o rumo profissional.

Como fazer uma grande virada na carreira? Que cuidados é preciso tomar?

A BBC Brasil conversou tanto com especialistas como com gente que, ao descobrir um novo propósito na vida profissional, resolveu arriscar mudanças radicais.

Formado em Artes Plásticas, Marcello Passeri, 51 anos, tem décadas de experiência em agências de publicidade. Chegou a ter sua própria empresa, com uma boa carteira de clientes e um retorno financeiro satisfatório.

Mas o avanço da internet mexeu com esse mercado, transformando trabalhos manuais em digitais e mudando a configuração de vários departamentos dentro das agências.

“A estratégia, o planejamento – tudo mudou. Até agências grandes quebraram ou foram absorvidas”, conta. Enfrentando problemas de sociedade e sem capital para bancar a total reinvenção que seria necessária, Marcello quebrou.

Certo de que precisava inventar algo totalmente novo na sua vida profissional, ele decidiu arriscar. Por intermédio do irmão arquiteto, acabou sendo contratado como líder de vendas de uma empresa de revestimentos acústicos.

Hoje, acumula a tarefa com a instalação dos produtos da empresa – um trabalho difícil, delicado e especializado que ele domina graças à expertise com trabalhos manuais adquirida ainda na época da carreira publicitária.

Marília, Samantha e Marcello
Marília, Samantha e Marcello se reinventaram profissionalmente | Fotos: Arquivo pessoal

“A gente às vezes toma alguns chutes fortes da vida, que nos fazem perceber que precisamos mudar”, avalia Marcello.

“O meu primeiro ano nesta atual carreira foi bem difícil. É preciso estar predisposto a mudar e a aprender. Consigo me manter bem e hoje já posso elaborar um planejamento para o próximo ano, mas não tenho toda a segurança do mundo – e acho que nunca terei. O mundo muda rápido demais, vamos ter que viver prestando atenção e nos preparando para o caso de amanhã não existir mais o trabalho que fazemos hoje.”

Mentoria

Navegar em um mundo em eterna mudança pode assustar, mas buscar novos caminhos fica mais fácil quando se tem um bom mentor.

Morador de São Paulo e filho de franceses, o administrador Philippe Boutaud foi presidente em companhias de grande porte, mas optou por encerrar a sua carreira como executivo aos 50 anos e, após um período como consultor de recrutamento de executivos, entrou em contato com o mundo das start-ups.

Com 59 anos hoje, Philippe atua como investidor-anjo, ou seja, investindo o próprio patrimônio em startups e dando mentoria aos projetos.

“No mundo das start-ups vejo pessoas com ideias muito boas, mas que não sabem o que é uma nota fiscal ou um fluxo de caixa. Daí a importância da mentoria. É muito estimulante saber que posso ser útil e produtivo ajudando essas empresas”, diz.

Ele, no entanto, não pertence à tribo dos que enxergam um mundo radicalmente diferente batendo à nossa porta. “Já ouvimos que o rádio ia morrer, depois que o cinema ia morrer e por aí vai. Nada disso faz sentido. As empresas nas quais trabalhei, por exemplo, certamente vão permanecer. Mas vão precisar mudar um pouco. Já estão mudando. Vide a colaboração cada vez maior entre elas e as start-ups, junto com a criação de centros ou departamentos internos inteiros voltados à inovação”, diz.

Mudança de rumoDireito de imagemGETTY IMAGES
Mudança radical deve ser considerada não apenas pelas circunstâncias do momento, mas também quando a insatisfação e o desgosto são generalizados

História semelhante tem Eduardo Smith, de Florianópolis. Atualmente investidor-anjo, ele tem 47 anos, é formado em ciências da computação e tem duas décadas de experiência como executivo de uma empresa de comunicação. Em 2015, sem ver mais possibilidades de crescimento por lá, ele se demitiu e se deu um tempo para pensar no que iria fazer depois.

“Não estava no meu radar ser mentor ou investir em start-ups. Mas uma vez que saí da empresa passei a ter algo que não tinha antes na mesma medida: tempo. E esse tempo me permitiu conversar com bastante gente. Algumas dessas conversas me levaram a ajudar pessoas e a perceber que eu possuía um conhecimento valioso”, conta.

Os empreendedores que o procuravam pediam que Eduardo os ajudasse das mais diversas formas: aportando dinheiro, abrindo portas e oferecendo mentoria. Foi então que o ex-executivo decidiu começar a estudar esse mercado mais detalhadamente.

Foram seis meses de preparação antes de Eduardo fazer o seu primeiro investimento em uma aceleradora. Passados três anos, ele hoje possui 24 investimentos, sendo um terço deles nos Estados Unidos e dois terços no Brasil.

Diferentes formas de reinvenção

Priscilla de Sá, psicóloga e coach de carreira, diz que analisar com o máximo de frieza possível a natureza das próprias insatisfações é fundamental para que o profissional que esteja em crise na carreira ou tenha acabado de perder o emprego saiba qual rumo tomar.

Se a decisão for pela ruptura completa, essa mudança radical deve ser considerada não apenas pelas circunstâncias do momento, mas também quando a insatisfação e o desgosto são generalizados.

“Você olha para o seu chefe e para o chefe do seu chefe e percebe que não quer ser como eles, não quer fazer o que eles fazem e levar a vida que eles levam. A pessoa que está nesta situação muitas vezes não tem mais orgulho da carreira ou mesmo da sua profissão. Ele vai ter que virar outro profissional”, explica Priscilla.

Priscilla de Sá é coach profissional
“Você olha para o seu chefe e para o chefe do seu chefe e percebe que não quer ser como eles, não quer fazer o que eles fazem e levar a vida que eles levam”, explica a coach Priscilla | Foto: Arquivo pessoal

Mas mesmo quem está convencido da necessidade de uma ruptura precisa se cercar de muitos cuidados.

“Existe uma lista de o que não se pode fazer nessas horas. A primeira delas é jamais tomar uma decisão motivada por revanchismos. Muitas pessoas saem de uma empresa com raiva da organização, do chefe, do conselho. Esse lugar da mágoa é o pior em que se pode estar na hora de tomar uma decisão. Isso porque a nova realidade que esse profissional quer para a sua vida vai acabar nascendo de algo reativo, algo defensivo, e não de uma ação”, aconselha a coach.

“É preciso resolver as próprias mágoas, curar as feridas e fazer o exercício de pensar em três ou cinco coisas boas que se viveu na experiência profissional passada. Sempre há o que se aproveitar, sempre existe aprendizado e nós temos que ser capazes de enxergar isso.”

O outro alerta que Priscilla faz é que não se deve abrir um negócio próprio sem muita reflexão prévia. Ideias como “eu não quero mais ter chefe” são equivocadas e bastante perigosas, diz ela.

“Os seus milhares de chefes, que serão os seus clientes, podem ser tão nefastos quando o seu ex-chefe. Você pode se revelar um chefe implacável com você mesmo, o pior dos chefes quando, por exemplo, não se permite descansar em um final de semana ou tirar um dia de folga”, exemplifica.

Logo, essa não pode ser a principal motivação por trás de um negócio ou de um plano de uma nova carreira.

Pensar nos outros

Além disso, é preciso pensar além do próprio umbigo e pesquisar o mercado.

“Muitas vezes, o profissional que é demitido ou se demite por insatisfação entra em uma fase muito autocentrada, em que deseja pensar apenas no seu futuro, seus desejos e suas necessidades. Mas começar um negócio próprio é, por definição, ter que pensar nos outros. Afinal, os produtos ou serviços que serão criados serão criados para os outros, não para nós mesmos”, diz.

O networking é outro motivo para se manter fora da concha.

“É preciso achar a sua turma. Trocar experiências com pessoas desse novo mercado, frequentar palestras, cursos e assim por diante. O networking é uma poupança que fazemos, uma semente que se lança despretensiosamente e que em algum momento do futuro será útil”, ensina Priscilla.

Insatisfação profissionalDireito de imagemGETTY IMAGES
Crise econômica exacerba insatisfações profissionais e eleva desemprego

E melhor ainda se, no meio dessa nova “turma”, o empreendedor se deparar com mentores.

“Existe muita gente por aí disposta a ajudar. Mais do que parece”, acredita Priscilla. O caso dos ex-executivos Eduardo e Philippe ilustra isso. “A realização que um mentor tem na hora de auxiliar outras pessoas é de ordem diferente. O topo do sucesso, na verdade, é sair da posição de CEO para a posição de sábio. Saber que está deixando um legado é algo muito poderoso para um profissional como esses”, afirma.

Um caso de transformação

A advogada curitibana Marília Pedroso Xavier, de 33 anos, é sócia de um escritório de advocacia na capital paranaense e professora na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em divórcios, Marília está justamente em processo de transformar sua carreira: ela agora quer se tornar uma comunicadora e palestrante, com o mote “divórcio com dignidade” em mente.

Cansada de ver clientes chegarem ao seu escritório sem ter noção dos seus direitos mais básicos ou dos bens de posse de seus ex-cônjuges, ela decidiu mudar seu foco de atuação, mesmo se considerando bem-sucedida na área em que já atua.

Após passar por um processo de mentoria, Marília fez um inventário de todas as tarefas que possuía em sua vida profissional e reavaliou cada um desses itens, para então lapidar as competências que o novo posicionamento profissional exigirá.

“Esse plano de ação é crucial. Se a gente não desdobrar o nosso sonho em metas de curto, médio e longo prazo, ele acaba ficando só na intenção”, alerta a advogada. Marília agora tem trabalhado para aprender a ser mais didática e a se comunicar de maneira eficaz com o público leigo em direito, mas sem que isso empobreça os conteúdos abordados.

Outro ponto importante é assumir publicamente o novo objetivo. “Às vezes as pessoas têm sonhos que não dividem com ninguém, até por vergonha ou medo de não dar certo ou ser mal visto. Esse não é o caminho”, opina a advogada.

“Eu inclusive passei a recusar coisas dizendo de forma clara que não podia fazer aquilo porque estava voltada para um novo projeto meu. E aí contava o projeto.”

Por último, Marília defende que, quando um profissional está certo da necessidade de uma transformação vigorosa ou de uma virada completa na carreira, é preciso fazer as coisas de uma vez só.

“Sempre pensei que mudanças seguras e consistentes precisam se dar aos poucos. Mas na vida sempre vai puxar você de volta para o que você tinha e era. Por isso, para a mudança acontecer, ela precisa ser intensiva”, explica.

Intensidade e paixão, aliás, parecem ser ingredientes fundamentais em todos os tipos de reinvenção profissional.

A coach Priscilla de Sá chama a atenção para a importância desses fatores até nos casos de negócios que nascem como um simples quebra-galho. “Um plano B, para dar certo, precisa ser levado a cabo como se fosse A. Se você não tem orgulho, se você tem vergonha do que está fazendo, é melhor nem começar. É preciso se apaixonar pela nova identidade profissional. Coisas como se sentir feliz ao mandar fazer os novos cartões de visita, coisas ligadas à identidade profissional podem parecer um detalhe, mas não são.”

Um exemplo de plano B que virou A vem da administradora e advogada Samantha Salomão, 43, que há seis anos passou a se dedicar à carreira de organizadora profissional.

Samantha não se limita a ordenar armários bagunçados, embora adore fazer isso. Ela usa a própria experiência profissional prévia para botar ordem não só nos objetos de pessoas e empresas, mas também em tarefas e rotinas. “É uma evolução da função de governanta”, diz.

Foi um serviço que ela passou a oferecer após ampla reflexão.

Reinvenção profissionalDireito de imagemGETTY IMAGES
Priscilla de Sá: “É preciso resolver as próprias mágoas, curar as feridas e fazer o exercício de pensar em três ou cinco coisas boas que se viveu na experiência profissional passada”

“Passei tantos anos me preparando, estudando, investindo na minha formação, para então largar tudo e fazer algo diferente? Sempre me questionei muito quanto a isso. Por isso, optei por um meio-termo. Consegui exercer uma outra atividade, mas oferecendo um pacote robusto, que não é barato e só é possível por conta da minha formação e das minhas experiências anteriores”, diz ela.

A mudança de carreira começou a ser gestada em 2011, quando Samantha perdeu seu emprego no departamento jurídico de uma empresa e enfrentou perdas difíceis na família.

Sabendo que Samantha passava por um momento financeiro delicado, a nutricionista com quem ela se consultava na época propôs atendê-la em troca da organização dos 4 mil arquivos de pacientes do seu consultório, transformados em uma planilha organizada.

Samantha acabou prestando o mesmo serviço para os colegas de clínica da nutricionista, e desse trabalho foi indicada para outro: a organização completa de uma biblioteca.

“Com coisas burocráticas como fichas de pacientes eu já possuía a técnica de organização sem saber. Mas no caso da biblioteca, eu tinha apenas o instinto. Precisei estudar, me preparar e aprender a técnica”, explica. Hoje, Samantha possui até apresentadores de TV entre seus clientes, e de um deles veio a ideia de que Samantha criasse um perfil profissional no Instagram.

E o que é um perfil no Instagram senão um exemplar virtual e mais rico do bom e velho cartão de visitas, nova arma de identidade profissional?

Ana Luiza Daltro

Veja as armadilhas que podem existir na compra do carro zero e como o STJ vem lidando com esses casos

Imagine a seguinte cena: o consumidor acaba de comprar um veículo zero-quilômetro e o recebe na concessionária. Ao dirigir pelas primeiras vezes, ainda extasiado com o cheiro de carro novo, os bancos confortáveis e o brilho da pintura, ele se depara com graves problemas mecânicos, ou percebe diferenças na cor da pintura, ou, pior, descobre que o veículo vendido como zero, na realidade, já havia não apenas rodado por estradas afora, como sofrido uma colisão.

Ele busca a solução dos problemas na concessionária, na rede autorizada, na montadora, e enfrenta atrasos injustificados nos reparos ou até mesmo a recusa das empresas em resolver a situação. O que era para ser uma relação prazerosa com o carro novo se revela uma surpreendente armadilha.

Construída no julgamento de muitos casos assim, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ) se consolidou no sentido de conferir ampla proteção aos direitos daqueles que vivenciam transtornos na aquisição de veículos novos defeituosos, especialmente com amparo nos dispositivos do Código de Defesa do Consumidor (CDC).

Evolução jurisprudencial

Até 2013, o STJ considerava mero dissabor, insuficiente para configurar dano moral indenizável, o defeito apresentado em veículos novos. Tal entendimento fica evidenciado no REsp 628.854, julgado em 2007 sob relatoria do ministro Castro Filho, e no Ag 775.948, julgado em 2008 sob relatoria do ministro Humberto Gomes de Barros.

Prevalecia, então, a despeito de um ou outro julgado divergente, o entendimento de que os defeitos em carros novos – mesmo que fizessem o consumidor se deslocar à concessionária por 15 vezes a fim de efetivar reparos, como de fato ocorreu no Ag 775.948 – constituíam mero dissabor, um aborrecimento limitado à indignação pessoal.

Contudo, como analisou o ministro João Otávio Noronha no REsp 1.249.363, julgado em 2014, tal posição começou a ser superada no tribunal ainda em 2013, com o julgamento do REsp 1.395.285, cuja relatora foi a ministra Nancy Andrighi.

Em seu voto, Noronha explicou que “o defeito apresentado em veículo novo, via de regra, implica mero dissabor pessoal, sem repercussão no mundo exterior. Todavia, quando o defeito extrapola o razoável, tal como a hipótese de automóvel zero-quilômetro que, em menos de um ano, fica por mais de 50 dias paralisado para reparos, por apresentar defeitos estéticos, de segurança, motorização e freios, considera-se superado o mero dissabor decorrente de transtorno corriqueiro, tendo em vista a frustração e angústia, situação que invade a seara do efetivo abalo psicológico”.

Ao longo do tempo, o STJ solidificou o entendimento de que fica caracterizado o dano moral, suscetível de indenização, “quando o consumidor de veículo zero-quilômetro necessita retornar à concessionária por diversas vezes para reparo de defeitos apresentados no veículo adquirido”, conforme afirmou o ministro Marco Aurélio Bellizze no AREsp 672.872, julgado em 2015.

Outro entendimento pacífico no tribunal é o de que “a oficina é parte legítima para responder por ação em que se pleiteia indenização por danos morais em razão da falha na prestação de serviços e das ofensas perpetradas por um de seus representantes contra os autores”, como pode ser observado no AREsp 566.483, da relatoria do ministro Raul Araújo.

Em recente decisão no REsp 1.640.789, cujo relator foi o ministro Bellizze, e nos casos citados a seguir, o STJ deixa clara a posição de que “a concessionária e o fabricante de automóveis possuem responsabilidade solidária em relação ao vício do produto”.

Substituição

Em março de 2017, o tribunal julgou o caso de uma consumidora que comprou veículo da Ford. Com poucos meses de uso, por causa de um barulho incomum no motor e dificuldade para abrir e fechar os vidros, a cliente procurou a concessionária para que fizesse os reparos. Só após três meses o carro foi devolvido à consumidora, que então preferiu trocá-lo.

O caso chegou ao STJ pelo REsp 1.632.762, que teve como relatora a ministra Nancy Andrighi, da Terceira Turma. De acordo com a ministra, o artigo 18 do CDC “determina que os fornecedores têm o prazo de 30 dias para sanar quaisquer dos vícios contidos no produto, findo o qual caberá ao consumidor a escolha entre a substituição do produto viciado por outro da mesma espécie, a restituição da quantia paga, devidamente corrigida, ou o abatimento proporcional do preço”.

Nancy Andrighi concordou com a conclusão do Tribunal de Justiça do Amapá (TJAP), de que a concessionária extrapolou o prazo legal de 30 dias para a reparação integral do vício, já que o veículo ficou mais tempo na oficina do que nas mãos da cliente, sendo legítima a pretensão de exigir a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso.

A relatora também confirmou a posição do TJAP com relação aos danos morais, pois considerou que a quantidade de defeitos causou “frustração, constrangimento e angústia, superando a esfera do mero dissabor para invadir a seara do efetivo abalo moral”.

Incêndio

REsp 1.171.767, de relatoria do ministro Marco Buzzi, tratou de caso em que os clientes adquiriram veículo da Renault, que começou a pegar fogo enquanto um deles o dirigia, ocasionando a perda do carro. Ao entrar em contato com a Renault, ela se comprometeu a resolver o problema, disponibilizou um automóvel alugado e rebocou o veículo incendiado.

Com o passar do tempo, o carro alugado deixou de ser oferecido e não foi feito o conserto nem a devolução do veículo aos clientes. Eles então ajuizaram ação de indenização por danos morais e materiais pela perda do carro, julgada improcedente pelo juízo de primeiro grau e pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

O laudo pericial anexado aos autos concluiu que não havia como “afirmar tecnicamente a causa da falha que levou ao sinistro”. Também o acórdão do tribunal fluminense reconheceu que pairou dúvida sobre a causa do incêndio.

O ministro Buzzi entendeu que qualquer dúvida deveria ser interpretada a favor do consumidor, pois é ônus da fabricante comprovar que não houve defeito de fabricação ou que a culpa exclusiva foi do consumidor.

“Não cabe aos recorrentes/consumidores provarem que a empresa colocou no mercado produto com algum vício ou defeito que o torne impróprio ao uso a que se destina, e sim à recorrida/fabricante provar a existência de uma das causas excludentes de sua responsabilidade, nos moldes do parágrafo 3º do artigo 12 do CDC”, afirmou.

Quase zero

Um caso já antigo merece lembrança pela peculiaridade. Foi julgado em 2004 e teve como relator o ministro Castro Filho (REsp 369.971).

O cliente adquiriu na Empresa Brasileira de Automóveis (Embrauto) um veículo Ford importado zero-quilômetro, por meio de arrendamento mercantil. Conforme os autos, o carro logo apresentou problemas técnicos com os sinais luminosos do air bag e desgaste excessivo dos pneus.

Tendo ido à concessionária algumas vezes, mas sem a solução dos problemas, o consumidor soube por meio de um ex-funcionário da empresa que o veículo havia sido acidentado em um test drive um mês antes de ser vendido. No acidente, a lataria dianteira ficou totalmente danificada, bem como a barra de direção. Depois de consertado, o carro foi vendido como se fosse novo.

O consumidor moveu ação de reparação por danos morais e materiais, combinada com rescisão contratual, contra a concessionária.

No STJ, a concessionária alegou não ser parte legítima na lide, pois não celebrou contrato com o consumidor, visto que o contrato havia sido firmado com a Ford, empresa que recebeu as parcelas de pagamento do negócio.

Castro Filho entendeu que o contrato foi firmado “no interior da concessionária, através da intervenção direta de seus empregados, dando a ideia de que o negócio fora realizado com uma única empresa, circunstância que autoriza a aplicação da teoria da aparência, cujo escopo é a preservação da boa-fé nas relações jurídicas, fazendo com que, em determinados casos, os atos realizados por uma pessoa possam ter efeitos sobre os atos de outra”.

Para ele, é “inquestionável” a legitimidade da concessionária na lide e a sua responsabilidade pelos prejuízos causados ao consumidor, em razão de sua “conduta ardilosa” ao tentar “vender como novo, após os devidos reparos, veículo que já havia sofrido colisão”.

O ministro citou o artigo 18 do CDC, que prevê “a responsabilização do fornecedor, quando demonstrada sua culpa pelo vício de qualidade oculto ou aparente do produto, não importando sua relação direta ou indireta, contratual ou extracontratual com o consumidor”.

Problemas na pintura

A certeza de não ter dor de cabeça ao comprar um carro zero pode não se tornar realidade. Um caso julgado em 2016, sob a relatoria do ministro Villas Bôas Cueva, mostra que defeitos em carros novos são mais comuns do que se imagina.

No REsp 1.591.217, o cliente adquiriu uma BMW zero-quilômetro pelo valor de R$ 255 mil, porém, logo observou que o veículo apresentava avarias na funilaria e na pintura, com diferenças de cor. Ele buscou a substituição do bem com a concessionária e a fabricante, que recusaram a troca, promovendo apenas reparos nos defeitos. Entretanto, os defeitos não foram sanados no prazo de 30 dias.

O cliente não retirou o veículo da concessionária e moveu ação de reparação de danos, pedindo a devolução do valor pago e indenização por danos morais. A concessionária foi condenada a pagar R$ 24.500, equivalente à desvalorização do veículo. O juízo de primeiro grau considerou que a fabricante seria parte ilegítima na lide em razão das avarias decorrerem de conduta exclusiva da concessionária.

O Tribunal de Justiça de São Paulo adotou a jurisprudência do STJ e condenou solidariamente a fabricante e a concessionária à restituição integral do valor do veículo, bem como ao pagamento de danos morais de 15 salários mínimos.

No STJ, o ministro Villas Bôas Cueva manteve a decisão do tribunal paulista. “Não sanado o vício ‘porque a pintura não ficou a contento’, por certo, não merece censura o acórdão recorrido ao condenar as fornecedoras à restituição do valor pago”, afirmou o relator.

O ministro também destacou que o caso não era de mero aborrecimento, não sendo ínfima ou exorbitante a condenação fixada para reparar os danos morais, “pois o consumidor foi indubitavelmente ludibriado ao adquirir veículo oferecido como novo, mas já submetido a reparos na pintura, tudo sem a devida advertência dos fornecedores, que, não satisfeitos, ofereceram injustificada resistência à substituição ou à restituição do preço”.

Esses são os processos que serviram de jurisprudência ao STJ

REsp 628854

Ag 775948

REsp 1249363

REsp 1395285

AREsp 672872

AREsp 566483

REsp 1640789

REsp 1632762

REsp 1171767

REsp 369971

REsp 1591217