Ajuste de Flávio pode custar 2,2 milhões de empregos, estima Dieese
Estudo do Dieese projeta perda de 2,2 milhões de empregos e queda de 1,55% no PIB em 2027 com o ajuste fiscal de R$ 200 bilhões proposto por Flávio Bolsonaro (PL)
📋 Em resumo ▾
- Estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), entidade ligada às centrais sindicais, projeta que o ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões proposto pelo pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pode eliminar 2,2 milhões de empregos e reduzir o PIB em 1,55% (R$ 203,1 bilhões) em 2027
- A simulação do Dieese projeta queda de R$ 68,7 bilhões na renda dos trabalhadores e de R$ 46,8 bilhões na arrecadação tributária, o que consumiria cerca de 40% da economia bruta obtida com os cortes
- Mesmo após o ajuste, o Dieese calcula que o superávit primário resultante (cerca de R$ 89 bilhões, ou 0,7% do PIB) ficaria muito abaixo do necessário para estabilizar a relação dívida/PIB, que segundo o Instituto Fiscal Independente do Senado exigiria por volta de 2,3% do PIB
- Em entrevista ao Jornal Nacional em 16 de outubro, Flávio Bolsonaro disse que cortará ao menos 10 dos 39 ministérios atuais e defendeu o uso de mais de 30 mil imóveis da União para gerar receita, sem detalhar como chegaria ao valor total do ajuste sem mexer em pisos constitucionais de saúde, educação e regras de aposentadoria
- Por que isso importa: é a primeira análise técnica detalhada feita sobre a principal proposta econômica de um dos pré-candidatos à Presidência, num momento em que a campanha ainda não divulgou a planilha completa de como pretende chegar aos R$ 200 bilhões
Um estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) projeta que o ajuste fiscal de aproximadamente R$ 200 bilhões proposto pelo pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pode custar 2,2 milhões de empregos e reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) em 1,55% em 2027. O Dieese é uma entidade de pesquisa mantida por centrais sindicais, e o estudo foi encomendado por federações sindicais — informação relevante para dimensionar de que posição institucional a crítica parte.
O que o estudo projeta
Segundo a simulação, batizada pela imprensa de análise do “tesouraço” de Flávio — referência à proposta de usar imóveis da União —, o ajuste reduziria o PIB em R$ 203,1 bilhões frente a um cenário sem os cortes. No cenário mais favorável considerado pelo Dieese, o PIB cresceria 0,91% em 2027, ante uma projeção de 2,46% prevista no projeto de lei orçamentária (PLOA) antes do ajuste. No cenário pessimista, que parte de um crescimento de 1,4%, o resultado seria uma contração de 0,15% — ou seja, recessão já no primeiro ano, segundo a projeção.
A simulação do Dieese parte de um ajuste de R$ 194 bilhões ao longo de 18 meses, sendo R$ 116,9 bilhões de cortes já no primeiro ano. Desse montante, o estudo estima que: 51% incidiriam sobre transferências de renda (aposentadorias, BPC, seguro-desemprego e abono salarial), 17% sobre despesas com servidores públicos, e 32% sobre outras despesas federais.
O impacto, segundo o Dieese, se retroalimentaria: a queda projetada de R$ 68,7 bilhões na massa salarial dos trabalhadores reduziria a arrecadação tributária em R$ 46,8 bilhões — valor que consumiria cerca de 40% da economia bruta obtida com os cortes no primeiro ano. O número de desempregados, hoje em 5,8 milhões, poderia chegar a 7,4 milhões, com taxa de desemprego de até 7%, segundo a projeção. O estudo lembra que o Brasil precisa gerar cerca de 1,33 milhão de empregos por ano só para absorver o crescimento da força de trabalho — meta que, segundo o Dieese, nem o cenário mais otimista do ajuste atingiria.
É preciso marcar o que esse número representa: trata-se de uma simulação baseada em premissas definidas pelo próprio Dieese — não de um dado observado ou de um consenso entre economistas. O estudo foi encomendado por federações sindicais, e a entidade é historicamente ligada ao movimento sindical, o que não invalida a metodologia, mas é contexto relevante para o leitor avaliar a origem da crítica.
“Não estabilizaria a dívida”, diz o Dieese
Mesmo com o ajuste completo, o Dieese projeta um superávit primário de cerca de R$ 89 bilhões em 2027 — equivalente a 0,7% do PIB —, patamar que a entidade considera insuficiente para estabilizar a relação entre dívida pública e PIB. Para efeito de comparação, o estudo cita uma estimativa do Instituto Fiscal Independente (IFI), órgão técnico do Senado, segundo a qual seria necessário um superávit de cerca de 2,3% do PIB (R$ 266 bilhões) para manter a dívida no patamar de 2025, considerando crescimento de 2% e juros reais de 5%. O Dieese argumenta que o principal motor do crescimento da dívida brasileira são os gastos com juros — hoje em R$ 1,15 trilhão em 12 meses, ou 8,67% do PIB, segundo dados contemporâneos ao estudo —, e não o gasto primário.
O que Flávio Bolsonaro propõe
Em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, à jornalista Renata Lo Prete, em 16 de outubro, Flávio Bolsonaro afirmou que pretende extinguir ao menos dez dos atuais 39 ministérios: “Hoje vocês sabem que o atual governo tem 39 ministérios, a gente vai cortar pelo menos 10”. Ele também defendeu o uso de mais de 30 mil imóveis da União — muitos deles, segundo a campanha, abandonados — reunidos num fundo de gestão e securitizados para gerar receita.
Questionado sobre como chegaria aos R$ 200 bilhões de ajuste sem alterar os pisos constitucionais de saúde e educação nem as regras de reajuste de aposentadorias, Flávio Bolsonaro citou medidas de corte de gastos e aumento de receita — entre elas o combate a supersalários e penduricalhos acima do teto constitucional, citando o caso de membros do Ministério Público que chegam a receber mais de R$ 100 mil em alguns meses —, mas não apresentou, segundo a reportagem, um detalhamento completo dos cálculos. Ele afirma que fará o ajuste sem reduzir benefícios sociais, mantendo o Bolsa Família e o BPC, e rejeitou financiar a medida com cortes diretos a programas de baixa renda. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo reportagem do portal Economia Raiz, já determinou a retirada de propaganda que atribuía ao plano um suposto corte em programas sociais, por falta de comprovação dessa alegação específica.
A campanha argumenta que a disciplina fiscal reduziria a percepção de risco dos investidores, baixando os juros futuros e o custo da dívida pública — uma queda de dois pontos percentuais nos juros, segundo o cálculo da campanha, poderia poupar até R$ 220 bilhões numa dívida de quase R$ 11 trilhões. Reportagem do Nexo Jornal classifica essa conta como uma simplificação, já que vencimentos, índices e taxas da dívida variam.
O que ainda não está claro
Tanto o Nexo Jornal quanto o Economia Raiz apontam que a campanha de Flávio Bolsonaro ainda não divulgou uma planilha completa mostrando, item a item, como os R$ 200 bilhões seriam alcançados. Especialistas citados pelo Economia Raiz avaliam que o corte de ministérios e o combate a supersalários, isoladamente, dificilmente chegariam a esse valor, dada a rigidez do orçamento federal — do total de R$ 2,38 trilhões sujeitos ao teto de gastos em 2026, cerca de R$ 2,15 trilhões são despesas obrigatórias, restando apenas R$ 230,6 bilhões de gasto discricionário.
O que esse estudo oferece é uma simulação, não uma previsão: ele depende de premissas que o próprio Dieese escolheu, e parte de uma posição institucional declaradamente crítica ao tipo de ajuste proposto. Isso não torna os números menos relevantes — é a primeira tentativa de quantificar o impacto de uma proposta que, até aqui, a própria campanha de Flávio Bolsonaro não detalhou numa planilha pública. Até que isso aconteça, o debate sobre o “tesouraço” segue girando em torno de duas incógnitas que só se resolvem com mais informação: quanto, exatamente, cada medida anunciada renderia, e a que custo.
🔊 Versão em áudio disponível no topo do post.