'Anniversary': o thriller que mostra a democracia ruir em família
Dirigido por Jan Komasa, o filme acompanha uma família próspera se despedaçar sob a ascensão de "A Mudança" — e vira um espelho desconfortável dos EUA de hoje
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- "Anniversary" (2025), do diretor polonês Jan Komasa, é um thriller político que acompanha o esfacelamento de uma família americana sob a ascensão de um movimento autoritário chamado "A Mudança".
- O elenco reúne Diane Lane, Kyle Chandler, Dylan O'Brien e Phoebe Dynevor, que vive a ex-aluna radicalizada que serve de porta de entrada para o movimento.
- O roteiro é de Lori Rosene-Gambino; a trama se estende por cinco anos, da festa de bodas de prata a um país irreconhecível.
- O filme deliberadamente não nomeia partidos — o que é, ao mesmo tempo, sua maior força (universalidade) e sua principal fraqueza (vagueza sobre o "porquê").
- Por que assistir: é uma alegoria certeira sobre radicalização e fragilidade democrática — e teve um lançamento curiosamente abafado, que virou parte da própria história. Está disponível na Amazon no Brasil
Começa como uma festa: taças de champanhe, um jardim iluminado, uma família próspera celebrando 25 anos de casamento. Termina em um país irreconhecível. "Anniversary" (2025), do diretor polonês Jan Komasa, usa o microcosmo de uma família para narrar a ascensão de um movimento autoritário — "A Mudança" — e se tornou, sem querer, um dos retratos mais desconfortáveis do momento que a América do Norte atravessa.
A premissa: da festa perfeita ao colapso
A abastada família Taylor se reúne para as bodas de prata de Ellen (Diane Lane), professora liberal de Georgetown, e Paul (Kyle Chandler), dono de restaurante. A harmonia dura pouco: o filho, Josh (Dylan O'Brien), apresenta a namorada, Liz (Phoebe Dynevor) — ex-aluna que Ellen havia confrontado em sala, anos antes, por sua ideologia radical. Liz reaparece transformada em quadro de "A Mudança", um movimento que, ao longo de cinco anos, envolve o país inteiro. O que era uma família unida vai se partindo, à medida que o filho "fracassado" encontra na fé cega do movimento o sucesso e o pertencimento que a vida não lhe deu.
O elenco e quem é quem
Além de Lane e Chandler — ambos em atuações contidas e precisas —, o elenco traz Dylan O'Brien como o filho seduzido pelo movimento, Phoebe Dynevor como a fanática Liz, e ainda Zoey Deutch, Madeline Brewer, Mckenna Grace e Daryl McCormack compondo o núcleo familiar. Na direção, Jan Komasa — indicado ao Oscar por "Corpus Christi" e autor do perturbador "O Ódio" ("The Hater") — assina também a história, ao lado da roteirista Lori Rosene-Gambino. A fotografia é de Piotr Sobociński Jr. e a trilha, de Danny Bensi e Saunder Jurriaans.
"A Mudança": a alegoria — e por que ela incomoda
O movimento promete "devolver o 'unidos' aos Estados Unidos" por meio de um "sistema sem partidos" — eufemismo transparente para um partido único e uma conformidade militante. Komasa tem o cuidado (calculado) de não dizer se é de esquerda ou de direita, de não citar nomes reais. O filme é um teste de Rorschach: cada espectador projeta ali o autoritarismo que mais teme.
O horror de "Anniversary" não está no que grita, mas no que se normaliza em silêncio.
É aí que mora a força da obra. A radicalização não chega como invasão; chega como jantar de família, como namoro, como a promessa de que "desta vez vai ser diferente". Para o público brasileiro, e sobretudo para quem acompanha os Estados Unidos, a ressonância é imediata: a sedução da "mudança", a erosão silenciosa das normas, as mesas partidas ao meio pela política, o impensável virando rotina.
O que o filme acerta (e onde ele escorrega)
Komasa é um mestre do suspense doméstico: a tensão sobe devagar, do brinde ao pesadelo, com um controle de tom que lembra a série "Years and Years". O recorte — a sociedade vista pela fresta de uma sala de jantar — é inteligente e cruel.
Mas uma resenha honesta precisa apontar o calcanhar de aquiles. Ao recusar-se a explicar o que, afinal, seduz as pessoas para "A Mudança", o filme às vezes soa mais como alerta do que como diagnóstico. A crítica internacional foi justa ao notar que ele "deixa o espectador no escuro" sobre a origem da ideologia de Liz e que, por vezes, "força a verossimilhança". O motor da radicalização é afirmado, não demonstrado. A ambiguidade que universaliza a fábula é a mesma que, em certos momentos, a esvazia. É um espelho poderoso — mas um espelho que se recusa a discutir por que estamos todos tão dispostos a nos olhar nele.
O lançamento abafado que virou parte da história
Há uma ironia que a própria produção denunciou. Com um elenco estrelado, "Anniversary" estreou em apenas 809 salas, quase sem promoção, e arrecadou pouco mais de US$ 670 mil. A equipe de Komasa e a produção acusaram a distribuidora Lionsgate de sufocar o lançamento, temendo a repercussão de um tema "incendiário" num clima político polarizado. Verdade ou não, o episódio é sintomático: um filme sobre conformidade autoritária e silenciamento sendo, ele próprio, silenciosamente enterrado. A arte imitando o medo.
Ficha técnica e onde assistir
Direção: Jan Komasa | Roteiro: Lori Rosene-Gambino (história de Komasa e Rosene-Gambino) | Elenco: Diane Lane, Kyle Chandler, Dylan O'Brien, Phoebe Dynevor, Zoey Deutch, Madeline Brewer, Mckenna Grace, Daryl McCormack | Duração: 111 min | Gênero: thriller político/distopia | Lançamento (EUA): 29 de outubro de 2025.
Onde assistir no Brasil: disponível na Amazon (Prime Video).
O verdadeiro susto de "Anniversary" não é o país que desaba ao fundo — é a facilidade com que uma família "perfeita" se convence a demolir a si mesma, um jantar de cada vez. Não espere respostas: espere o desconforto do reconhecimento. E talvez o dado mais assustador não esteja na tela, mas na estreia: num tempo em que filmes assim são engolidos no silêncio, a pergunta que fica é se ainda sabemos reconhecer "A Mudança" quando ela nos convida, sorrindo, para dançar.
Versão em áudio disponível no topo do post.