Após “pode chorar, mas eu não voto no PT”, Jorge & Mateus perdem shows de virada em Fortaleza e Recife
Prefeituras de Fortaleza e Recife cancelaram os shows de Jorge & Mateus no Réveillon após repercussão negativa do apoio do cantor Jorge a Flávio Bolsonaro, reabrindo o debate sobre uso de dinheiro público em shows sertanejos
📋 Em resumo ▾
- As prefeituras de Fortaleza (CE) e Recife (PE) cancelaram, na noite de terça-feira (3/11), os shows de Jorge & Mateus previstos para o Réveillon 2027
- O cancelamento ocorreu após forte repercussão nas redes sociais de um vídeo em que o cantor Jorge aparece ao lado de outros sertanejos declarando apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial, com a frase “pode chorar, mas eu não voto no PT”
- O prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), e o do Recife, Victor Marques (PCdoB), confirmaram as decisões separadamente
- A polêmica reacendeu o debate sobre uso de dinheiro público em shows de artistas sertanejos — tema que tem pelo menos duas listagens circulando, com metodologias e períodos diferentes, que não devem ser confundidas entre si
- Por que isso importa: o episódio mostra como posicionamentos políticos de artistas vêm custando contratos públicos no país polarizado pós-eleição, e expõe a falta de um consenso único sobre quem realmente mais recebeu dinheiro público em shows — distorção importante para quem for repassar esses números adiante.
Os shows de Jorge & Mateus nas festas de Réveillon de Fortaleza e Recife foram cancelados pelas respectivas prefeituras na noite de terça-feira (3/11), após a repercussão negativa de um vídeo publicado em 20 de outubro, no qual o cantor Jorge aparece ao lado de outros sertanejos declarando apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência. Na gravação, Jorge canta uma paródia com o refrão “pode chorar, mas eu não voto no PT”.
No Recife, o show estava marcado para 27 de dezembro. O prefeito Victor Marques (PCdoB) havia inicialmente defendido a permanência da dupla na programação, argumentando pela convivência entre pessoas com posições políticas diferentes — mas recuou diante da pressão e anunciou: “Não há mais clima para a apresentação da dupla Jorge e Mateus dentro da nossa programação.”
Em Fortaleza, o prefeito Evandro Leitão (PT) anunciou o cancelamento do contrato em vídeo nas redes sociais, afirmando que a repercussão em torno da dupla havia desviado o foco da proposta da festa de fim de ano. Segundo o prefeito, a negociação para encerrar o contrato ocorreu entre as partes, dentro da legalidade. Até a publicação desta reportagem, nenhuma das duas prefeituras havia anunciado substitutos na programação.
Flávio Bolsonaro foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial de outubro.
O dinheiro público e os sertanejos: duas listas, dois retratos diferentes
Circula nas redes uma lista com Gusttavo Lima no topo dos artistas sertanejos que mais receberam dinheiro público, seguido por Bruno e Marrone, Leonardo, Chitãozinho e Xororó, César Menotti e Fabiano, Zezé Di Camargo e Luciano, Eduardo Costa e Amado Batista. O levantamento existe de fato — mas é atribuído ao deputado federal Dimas Gadelha (PT-RJ), divulgado no fim de 2025, e soma contratos com prefeituras, emendas parlamentares, verbas estaduais e federais e incentivos da Lei Rouanet acumulados ao longo dos últimos dez anos — não se trata de um recorte do ano de 2026.
Há, paralelamente, um levantamento mais recente e metodologicamente mais abrangente: o relatório “Farras”, do observatório De Olho nos Ruralistas, publicado em parceria com o Intercept Brasil, que analisou mais de 20 mil contratos públicos de shows no Plano Nacional de Contratações Públicas (PNCP) entre janeiro de 2024 e junho de 2026. Segundo esse levantamento, os 100 artistas mais bem pagos somaram mais de R$ 5 bilhões em contratos com prefeituras e governos estaduais no período — e o topo do ranking é bem diferente: lideram Natanzinho Lima (R$ 158,2 milhões), Henry Freitas (R$ 125,9 milhões) e Wesley Safadão (R$ 113,1 milhões). Gusttavo Lima, apontado como líder no levantamento mais antigo com R$ 52 milhões acumulados em dez anos, aparece no relatório Farras na 65ª posição, com R$ 43,9 milhões em 35 shows pagos só com recursos públicos desde 2024 — mas com a maior média de cachê entre os 150 artistas analisados.

O relatório Farras aponta ainda que, dos 33 cantores sertanejos que participaram do ato de apoio a Flávio Bolsonaro, pelo menos quatro — entre eles Gusttavo Lima — figuram entre os maiores recebedores de verba pública para shows no período analisado. A própria dupla Jorge & Mateus aparece no levantamento: recebeu R$ 1,5 milhão por uma apresentação em São Luís (MA), em fevereiro de 2026.
Vale registrar que o Ministério Público de São Paulo pediu, em outubro, a anulação de contratos firmados pela Prefeitura de Marília com Gusttavo Lima e a dupla Maiara & Maraisa — um processo em curso, sem decisão definitiva até a publicação desta reportagem, e que não deve ser confundido com uma condenação já estabelecida.
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