Bruno Scheid candidato ao Senado expõe contradições no PL
Ausência na convenção, disputa interna pelo número 222 e silêncio público no pós-2022 levantam dúvidas sobre a coerência do postulante ao Senado por Rondônia
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- Bruno Scheid não compareceu ao palco principal da convenção do PL, que oficializou sua candidatura ao Senado.
- Versões conflitantes sobre sua ausência apontam para atraso de voo ou descontentamento com a perda do número 222 para Fernando Máximo.
- Registros indicam proximidade com o Planalto em 2021 e 2022, mas ausência de atuação pública durante os protestos pós-eleição e a véspera do 8 de janeiro.
- Por que isso importa: A coerência entre discurso e prática é o principal termômetro de credibilidade para um candidato que prega princípios inegociáveis
A convenção do Partido Liberal (PL) em Rondônia tinha como objetivo projetar unidade. A candidatura de Marcos Rogério ao governo foi confirmada, Fernando Máximo entrou na disputa pelo Senado e Bruno Scheid também recebeu a homologação da legenda. No entanto, a imagem de coesão foi quebrada pela ausência do próprio Bruno Scheid no palco principal.
A disputa pelo número e a fragilidade das versões
O primeiro ponto de atrito reside nas explicações oferecidas. Uma versão, repassada pela assessora de imprensa Acácia Cavalcanti, alega que o candidato estava em Brasília e não chegou a Porto Velho devido a um atraso no voo. Outra informação, circulada após o evento, aponta que Scheid estava na convenção, mas se recusou a subir ao palco por não aceitar perder o número 222 para Fernando Máximo (que ficou com o 221).
Essas duas narrativas são mutuamente excludentes. Ou o candidato não chegou por motivos logísticos, ou esteve envolvido em uma disputa interna e foi afastado do ato por decisão de cúpula ou por recusa própria. Até o momento, o PL não apresentou um esclarecimento que encerre a dúvida.
A disputa pelo número 222 tem peso simbólico, pois liga o candidato ao 22 de Flávio Bolsonaro. Contudo, transformar essa disputa em motivo de ausência coloca em xeque a própria retórica do postulante.
"Convicção não nasce em campanha", escreveu Bruno Scheid poucos dias antes da convenção, afirmando que princípios não devem mudar por conveniência eleitoral.
Se a disputa pelo número motivou sua ausência, o candidato que prega convicção colocou um dígito acima do evento que confirmava sua própria candidatura e do projeto eleitoral de seu grupo. Se a versão do voo for a correta, resta explicar por que dirigentes e aliados saíram do evento com uma narrativa completamente diferente. Em um partido que almeja governar o estado, uma ausência não pode gerar duas verdades.
O silêncio estratégico no pós-2022
Outro ponto que exige aclaramento é a linha do tempo da atuação política de Scheid. Ele não é uma figura nova no grupo bolsonarista. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que ele esteve no Palácio do Planalto em 11 dias diferentes, entre setembro de 2021 e fevereiro de 2022, participando de articulações para a reeleição.
A pergunta que permanece, no entanto, envolve o período subsequente: onde estava sua voz pública após a derrota eleitoral?
Buscas em registros públicos não localizam participação de Scheid nos acampamentos e manifestações que ocorreram em Rondônia entre o segundo turno de 2022 e a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tampouco há pronunciamentos dele naquele período em defesa das pessoas que permaneceram diante dos quartéis.
A defesa da anistia como pauta tardia
O registro de sua atuação em defesa dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro só ganha clareza e volume a partir de 2025. Em fevereiro daquele ano, Scheid convocou apoiadores para um ato com defesa de anistia. Em março de 2026, participou de manifestação na Avenida Paulista ao lado de Marcos Rogério, Jaime Bagattoli, Fernando Máximo e Coronel Chrisóstomo, com a anistia como pauta central.
"Eu não tenho vergonha de dizer que Jair Messias Bolsonaro é a minha maior influência política. E eu não vou esconder isso de ninguém para ganhar voto", afirmou o candidato.
Ninguém exige que ele esconda essa influência. O que o eleitor pode e deve exigir são datas, atitudes e posições consistentes. É legítimo questionar quando exatamente começou sua defesa dos manifestantes, que medidas concretas ele tomou antes do início da campanha e por que sua atuação pública nesse tema ganhou força apenas anos depois dos fatos.
A coerência como moeda política
Diante desse cenário, a verdadeira questão que se impõe ao eleitorado vai além da disputa por um número na urna ou de justificativas logísticas convenientes. A política não se sustenta apenas em declarações de lealdade, mas na rastreabilidade das ações.
Resta saber se o eleitor de Rondônia aceitará uma candidatura construída sobre versões conflitantes e silêncios estratégicos, ou se exigirá que princípios declarados em posts de redes sociais sejam comprovados por uma trajetória pública ininterrupta e transparente. A coerência, afinal, é o único ativo que não se pode fabricar em véspera de eleição.
Versão em áudio disponível no topo do post.